“Anarquismo é Luta”
Resoluções do I
Congresso da UNIPA - União Popular Anarquista.
Realizado nos dias 22 e 23 de Março de
2003.
Documento Político da União Popular
Anarquista - UNIPA
Introdução
O primeiro congresso de nossa
organização, se reuniu para afirmar o anarquismo enquanto alternativa
revolucionária para o proletariado.
Afirmar que o socialismo e o anarquismo vivem, e devem impulsionar os
sonhos e as lutas concretas das massas.
Realizar esta afirmação exige a
construção de ferramentas necessárias a luta revolucionária. Foi
fundamentalmente para discutir isso que o Congresso se reuniu.
Este Congresso, foi fruto de um longo
processo de trabalho político e teórico, que começou com as primeiras
tentativas de formação de grupos anarquistas, que tinham a pretensão de
intervir junto as a lutas populares e aos movimentos sociais, no início dos
anos 90.
Em 1995 o projeto da Construção
Anarquista Brasileira, formulado e encaminhado pela FAU (Federação Anarquista
Uruguaia), veio dar um novo fôlego a militância. A experiência pioneira no RJ
foi a do Grupo Anarquista Mutirão, depois núcleo RJ da Organização Socialista Libertaria
– OSL (organização que reuniu
grupos anarquistas de seis estados do Brasil e que viria a ser extinta por
problemas internos no ano de 2000). Estas iniciativas iniciais sofreriam alguns
revezes sem, no entanto, ocorrer a dispersão da militância do Rio de Janeiro.
Depois destes avanços e recuos, em 1999
foi fundado o Laboratório de Estudos Libertários, coletivo de produção político-teórica que iniciou a produção da Revista
Ruptura, e agregou uma boa parte da militância da antiga OSL. Este
coletivo visava acumular forças e experiências no sentido de formular uma
concepção de organização anarquista adequada à realidade local e nacional, para
futuramente implementar o projeto de construção de uma organização anarquista
para intervir politicamente na sociedade.
Durante todo este período, foi
desenvolvido um trabalho de massas relativamente importante; organização junto
aos trabalhadores sem-teto (através da realização de duas ocupações urbanas),
junto às lutas estudantis universitárias e secundaristas, e depois da formação
da Resistência Popular (tendência de massas que pretendia reunir militantes de
base), se deu o desenvolvimento do trabalho comunitário em bairros proletários
em diversas cidades do Rio de Janeiro.
Analisando os processos de luta
desenvolvidos desde 1995, quando a proposta da Construção Anarquista Brasileira foi
iniciada, os membros do coletivo politico-teórico
Laboratório de Estudos Libertários chegaram à conclusão que era o momento de
construir uma organização anarquista capaz de dar uma contribuição mais efetiva
à luta popular e revolucionária.
Neste sentido, tais militantes
organizaram o Congresso para discutir: 1) A Necessidade e Viabilidade da
Organização Anarquista; 2) o Seu Caráter, ou suas bases políticas e teóricas;
3) a reestruturação dos trabalhos de massas até então desenvolvidos e sua
relação com a organização anarquista que se constituiria.
O
Congresso se insere assim num processo histórico de luta e debate político, não
sendo um evento estanque. A construção da organização anarquista não se daria
sobre bases frágeis ou artificiais. Ela já nasceria dentro e sobre um terreno
de lutas e organização popular já desenvolvido. E apareceria para fortalecê-los.
O desafio do Congresso então seria firmar
as bases mínimas (teóricas e práticas) para o início do trabalho da
organização. Foi realizado um processo de 5 meses de discussão ininterrupta para
que se acumulasse os conhecimentos necessários. Em março de 2003, nos dias 22 e
23 foi realizado o Congresso como momento de culminância desta discussão.
Alguns textos de militantes comentando,
analisando e propondo definições foram apresentados ao Congresso, e alguns
foram incorporados, no todo ou em parte, a estas resoluções. Assim, as
Resoluções do I Congresso fixam os marcos mínimos necessários ao início do
trabalho político da organização anarquista.
No entanto, o Congresso entendeu que
existem tarefas fundamentais a uma devida edificação da organização anarquista
que são inadiáveis. Estas tarefas dizem respeito basicamente a formulação de
uma Teoria, um Programa e uma Estratégia para a Revolução no Brasil. Sem a formulação precisa destas, a organização
anarquista será sempre a caricatura de um partido revolucionário.
Mas o I Congresso julgou não estar ainda
em condições de realizar tais tarefas. Por isso convocou um II Congresso para o
ano de 2004, que teria por finalidade tratar, aprofundar e responder a tais
tarefas. Visto de um ângulo realista, o I Congresso deu o “ponta-pé” inicial no
trabalho da organização anarquista.
Mas se de um lado estas tarefas ficaram
pendentes, um modelo de estrutura interna da organização anarquista e a
orientação mais específica para a luta de massas, e um plano de trabalho estratégico, foram formulados. A base foi à
discussão acerca da Teoria da Organização Específica ajustada ao contexto
brasileiro.
Aprofundou-se também a discussão sobre as
bases e pressupostos da ideologia anarquista, de forma a conseguirmos nos
afirmar em meio ao caos da luta política, sem nos desviar da linha
correta. Esta discussão foi fundamental
para estabelecer parâmetros claros de ação e também de recrutamento de
militantes.
O Congresso conseguiu cumprir plenamente
seus objetivos e estabeleceu ainda uma pauta de trabalho político e teórico a
ser cumprida ao longo do ano de 2003. Sobre este trabalho teórico e de massas
se erguerá o edifício da organização anarquista. Este edifício irá sendo
levantado aos poucos, mas a primeira pedra já foi colocada.
Sabemos que ainda somos uma pequena
organização, e nossa ideologia tem pouca expressão política na sociedade
brasileira. Mas esta situação somente é superada pelo intensivo trabalho
político, e o trabalho político precisa ter uma clara orientação ideológica,
caso queira ser eficaz e fiel a uma política revolucionária.
O Congresso se realizou assim,
reafirmando que o Socialismo Revolucionário Vive, que Anarquismo é Luta, e se
só viverá nas lutas de libertação do nosso povo. É para reafirmar a nossa
ideologia popular-proletária, a sua validade para as massas que nos lançamos na
nossa caminhada: a longa marcha da luta pela revolução social.
Nem um passo atrás !!!
Anarquismo é Luta !!!
1 – A Necessidade e a
Viabilidade da Organização Anarquista
O Congresso discutiu aprofundadamente
a questão do papel da organização revolucionária, em face das experiências
históricas. Neste sentido, a experiência concreta é que se constituiu na
matéria prima dessa reflexão.
O principal objetivo da constituição de
organizações anarquistas é a contribuição para a realização de uma revolução
socialista, tal como concebida pela ideologia anarquista, que supõe a
destruição do Estado e do Capitalismo, com a socialização dos meios de produção
e do poder decisório entre as massas populares.
Para realizar tal fim, estas organizações
devem integrar os principais movimentos e lutas populares, influenciando a
partir de dentro suas estratégias e ações. A formação de uma organização
política é importante porque sem esta, qualquer ideologia fica sem condição de
intervir no rumo dos acontecimentos políticos e sociais.
As experiências revolucionárias do século
XX mostraram que a ausência de uma organização política foi fatal para os
anarquistas. A história, gostemos ou não, anda sozinha – revoluções e lutas de
libertação nacional foram feitas sem que o anarquismo tivesse nenhuma presença
importante.
Depois das revoluções russa 1917-1921 e
da guerra civil espanhola 1936-1939 e da crise do sindicalismo revolucionário a
partir do pós-II guerra, o anarquismo praticamente desapareceu como força
significativa, do cenário político internacional. Assim, a formação de
organizações politicas revolucionárias anarquistas é
pressuposto para que a ideologia anarquista tenha vida real.
Por outro lado, um exame mais detalhado
dos desdobramentos das revoluções vitoriosas no mundo do século XX – Rússia,
China, Vietnam, Cuba, Argélia e Nicarágua – mostra que a aná|ise
anarquista estava correta em criticar os germes de burocratização e
autoritarismo nas concepções nacionalistas e estatistas
do socialismo, que possibilitaram depois o ressurgir do capitalismo de dentro
do próprio bloco “socialista”.
Assim, o estudo de tais revoluções revela
que a ausência da ideologia anarquista de tais processos, no longo prazo,
possibilitou que o próprio socialismo – o projeto de uma sociedade sem classes
e sem estado - fosse aniquilado antes mesmo de se consolidar.
A participação anarquista enquanto força
política nas lutas populares e revoluções é, neste sentido, uma necessidade do
próprio povo. O que aumenta ainda mais a responsabilidade das organizações
anarquistas.
Sabendo assim da necessidade da
organização e da vontade política militância; sabendo também da sua viabilidade
prática, já que existia um acúmulo de experiência política (tanto na
organização específica, quanto na luta de massas e no trabalho teórico), o
Congresso entendeu que este era o momento de formar a organização anarquista.
Uma organização que se apoiasse,
sobretudo, sobre bases mais sólidas e duradouras, e também mais claras, que
aquelas do passado. Uma organização que não incorresse nos mesmos erros e
debilidades. Por isso, tomada à decisão política de construir a organização, a
partir desta experiência de luta, o Congresso tratou de estabelecer suas bases
organizativas e ideológicas.
2 – O Caráter de
Nossa Organização
O
Congresso tomou por base uma série de textos para discutir a questão da
Organização Anarquista e seu papel na Revolução Social. Esta discussão foi
apoiada sobre resenhas analíticas de diversos escritos revolucionários.
Entre estes textos bases se incluem
textos que serviram como referência para as discussões e para a elaboração
deste documento: E. Malatesta, “A Organização”, Grupo
Dielo Trouda, “A
Plataforma Organizacional”, Mikhail. Bakunin “Necessidade da Organização”
e “Copei,
1973” da Fau. Outros textos também foram utilizados, mas cumprindo um
papel complementar.
O Congresso entendeu que seria adequado
usar a distinção sugerida pelo documento “Huerta
Grande – a Importância da Teoria” entre Teoria e Ideologia. Neste sentido,
foi entendido que existia dois níveis distintos: o da ideologia, em que os
elementos são inflexíveis (as idéias/ valores e aspirações básicos os quais não
abrimos mão em nenhuma sircunstância); outro da
Teoria, em que os elementos são relativamente flexíveis, passíveis de
avaliação.
Esta distinção tem um significado prático
de diferenciar o que é característico do anarquismo, e aplicável em qualquer
contexto, da formulação da Teoria da Organizacao
Específica, calcada na análise da situação brasileira, e formulada para
atender suas exigências.
Da leitura dos escritos anarquistas,
alguns elementos se destacaram. Vimos que dentro das reflexões de Bakunin, Makhno, por exemplo,`se destacam alguns pontos em especial:
1)
Sobre Organização; 2) Sobre o Caráter da Revolução; 3) Sobre o Caráter da
Violência; 4) Sobre os Sujeitos Sociais.
Partindo do pressuposto de que o
Socialismo e a Liberdade são aspirações máximas do anarquismo, e que só pode se
chegar a estes através da revolução, vimos que os escritos anarquistas ensinam
que;
- esta revolução é necessariamente social
(no sentido de que tem de mudar o sistema político e econômico, e não somente a
forma de governo) e universal (no sentido que tem de articular`campo
e cidade); e violenta (frisando que a revolução é a guerra, ou seja, luta
armada);
- que a violência revolucionária não deve
ter como objetivo a fundação de uma nova dominação e como meio a imposição de
projetos políticos ao proletariado;
- que somente as massas trabalhadoras, os
operários e camponeses (a classe proletária como um todo) constituem os
sujeitos que farão a revolução;
As formulações anarquistas sobre estes
tópicos fornecem as bases teórico-ideológicas para a organização anarquista. O
Congresso discutiu estas questões visando tomar deliberações que terão caráter
normativo. O conjunto de orientações normativas da organização é o que
chamaremos de Linha Política. Esta Linha, apoiada sobre a ideologia
anarquista e plenamente coerente com ela, é uma adaptação desta ao contexto
brasileiro.
Já que como nos ensina a FAU: “Para
propor um programa é preciso conhecer a realidade econômica, política,
ideológica de nosso país. O mesmo vale para se formular uma linha política
suficientemente clara e concreta. Se conhece-se pouco e mal não haverá programa
e só poderá haver uma linha muito geral, muito difícil de concretizar em cada
lugar em que o partido trabalhe. Se não há uma linha clara e concreta não há
política eficaz. A vontade política do partido corre então o risco de
diluir-se. o "voluntarismo" se converte em fazer com boa vontade o
que vai aparecendo. Mas não se incide de modo determinado sobre os
acontecimentos, na base de sua previsão aproximada. Se é determinado por eles e
perante eles se atua espontaneamente.´ (A Importância da Teoria).
O Congresso entendeu que seria
importante, para fins de melhor compreensão distinguir a Linha Política da Linha
de Massas. Deve-se compreender então esta distinção dentro de uma
função didática, e não toma-la rigidamente.
Linha Política
O Congresso entendeu que, tendo por base
a ideologia anarquista, podemos afirmar que ela toma a luta e organização como
pressupostos, o que significa que: 1) existe a necessidade de organização,
tanto dos anarquistas em organização revolucionária como da massa em movimentos
reivindicativos. Além disso, para fins operacionais, podemos classificar as idéias/valores e aspirações da ideologia no que chamaremos
aqui de Estratégia e Programa Geral Permanentes, porque compõem a
ideologia anarquista, logo, não são passíveis de revisão.
A Estratégia
Permanente é 1) Revolucionária,
o que significa que ela supõe o uso da força para a mudança da sociedade; 2) Anti-colaboracionista, pois ela boicota
o sistema político burguês e leva a separação de seus grupos e partidos. Esta
estratégia exige: 1) que os anarquistas sustentem as organizações populares e
façam propaganda dentro delas; 2) que o partido recrute/forme
líderes populares, para que estes apliquem sua política revolucionária dentro
dos seus respectivos movimentos e lhes dêem uma direção revolucionária. Esta
Estratégia está subordinada e é o meio principal de alcançar o Objetivo Final
da Ideologia, ou seu Programa Permanente,
que é o estabelecimento de um sistema socialista, que supõe a destruição do
Estado burguês e do Capitalismo.
Nossa Linha Política se pauta em sete
pontos fundamentais, que estruturam nossa organização:
1º) a organização se apóia sobre quatro
princípios organizativos: unidade teórica, unidade tática, responsabilidade
coletiva e federalismo.
2º) a função da organização é preparar e
dirigir a luta revolucionária pelo socialismo, através da inserção na luta
política de massas, amparada num planejamento estratégico harmônico global;
3º) a estratégia geral permanente da
organização supõe: a realização de uma revolução social, ou a mudança do
sistema social pela força coletiva do povo; o anti-colaboracionismo;
4º) o programa geral permanente, seu
objetivo finalista, é o socialismo;
5º) a organização mobilizará diferentes
sujeitos sociais existentes no país, dos campos e das cidades, no
desenvolvimento da luta revolucionária. Estes sujeitos são as massas exploradas/oprimidas política e economicamente, urbanas e
rurais, ou seja, o proletariado de nosso país;
6º) o caráter da violência
revolucionaria, é reativo (uma vez que é uma reação legítima à violência da
burguesia) e libertador (garantir a emancipação das massas e seu protagonismo no processo revolucionário);
7º) o caráter violento da revolução exige a formação
de organizações revolucionárias armadas”
Linha de Massas
O exame da experiência histórica também
revelou que a organização anarquista não aparece sozinha. Ela aparece
necessariamente em conjunto com a organização de massas. No entanto, entendendo
como equivocada a concepção anarco-sindicalista, foi
preciso considerar com cuidado as orientações para o trabalho de massas.
Por outro lado, a organização de massas
não deve ser considerada como exclusivamente reivindicativa. Na verdade cabe
distinguir diferentes tipos de organização de massa, e saber como nos orientar
em nosso trabalho de massas, de forma a não nos perdermos e cairmos em
contradição e/ou ineficácia.
O Congresso então entendeu que a nossa Linha
de Massas determina:
1) construir organizações de massa com “caráter de
tendência”, ou seja, que combinem em seu interior a luta reivindicativa e a
orientação revolucionária, mesmo que em estado embrionário;
2) a partir daí construir/sustentar
organismos representativos (sindicatos, associações de moradores e etc)
3) o conjunto das organizações de tendência construídas/dirigidas pela organização específica, e que
seguem sua linha, serão chamadas de Braço de Massas.
4) o objetivo
do Braço de massas é fazer a luta reivindicativa com uma orientação classista e
combativa, mas seu programa não se confunde com o programa da organização. O
Braço de Massas é o elo da organização específica com a vida cotidiana do povo
e seus problemas materiais; sua função é lutar para resolve-los
e aprofundar o grau de desenvolvimento ideológico das massas em direção ao
socialismo, sempre começando da realidade material e concreta.
Foram definidas a Linha Política e a
Linha de Massas, como partes constituintes da nossa Teoria da Organização
Específica. Estas Duas Linhas é que normatizarão o
trabalho político da organização daqui para frente.
A Linha Política e de Massas, pautada na
noção anarquista de federalismo, é guiada por normas democráticas de gestão e
funcionamento: 1) igualdade de poder decisório, mandatos imperativos,
revogabilidade dos mandatos a qualquer momento; 2) total liberdade de discussão
e divergência de opiniões e posições; 3) total unidade na ação, depois do
processo decisório, registrando-se as posições minoritárias; 4) circulação das
funções dirigentes e direção coletiva.
Neste sentido, a organização tem como
princípio estimular sempre a participação dos militantes de base, dos quadros e
das massas, incentivando as assembléias gerais mais representativas, como forma
de mobilização. É como diz Bakunin: “A maior inteligência não bastaria para
abraçar tudo. Daí resulta, tanto para a ciência quanto para a indústria, a
necessidade da divisão e da associação do trabalho. Recebo e dou, tal é a vida
humana. Cada um é dirigente e cada um é dirigido por sua vez.” A
centralização de poderes, a cristalização de funções, a burocracia, de um lado,
e sua contrapartida, a desorganização, o espontaneísmo
irresponsável e individualista serão sempre combatidos por nossa organização,
interna e externamente.
A Síntese Teórica, o
Programa e a Estratégia – pauta para o II Congresso.
O I Congresso entendeu que a formulação
das duas Linhas integradas na TOE, era apenas parte das exigências impostas a
uma organização revolucionária. Neste sentido, o Congresso determinou que as
discussões teóricas deverão avançar no sentido de contribuir na elaboração de
uma teoria anarquista da revolução brasileira.
Para isso, estipulamos dois passos deste
trabalho. O primeiro passo consiste na sistematizacao
de uma teoria anarquista, que reuna as suas
principais teses e conceitos.
O Segundo passo consiste no levantamento
dos dados e a aplicação desses conceitos na análise da sociedade
brasileira (análise de conjuntura
estratégica), visando reunir dados e interpreta-los
de acordo com os interesses e necessidades da luta revolucionária.
Seguiremos este trabalho durante as
reuniões da organização, usando a Revista Ruptura e discutindo com as demais
organizações anarquistas do Brasil.
Esta Teoria da Revolução é que
fundamentará a formulação da estratégia e do programa anarquistas para o
Brasil. É o que denominamos de Teoria Anarquista da Revolução Brasileira, que
levantará as hipóteses sobre os sujeitos sociais da revolução, as principais
questões a serem resolvidas e etc. O resultado deste trabalho deverá ser
apresentado no II Congresso da organização.
3 – As Três Tarefas, as
Duas formas de Luta e as Três Frentes.
O Congresso definiu também uma
metodologia de trabalho político, para unificar a linguagem conceitual e
permitir o planejamento da ação e uma interpretação da realidade coerentes com
a concepção anarquista.
Primeiramente, foi definido que 3 Tarefas
são características de uma organização política e de seus militantes:
1) Agitação;
2) Propaganda;
3) Organização.
Estas três tarefas devem ser cumpridas, a ausência de qualquer uma delas
denuncia uma falha orgânica.
Estas três Tarefas é que auxiliam na
definição das duas formas de luta da organização: a Luta Ideológica e a Luta
Política. A luta ideológica (composta pelas atividades de agitação e
propaganda) não supõe a luta política (composta pela organização + propaganda
ou agitação ou ambas), mas a luta política
compreende a luta ideológica.
Estas duas formas de luta caracterizam
permanentemente a ação da organização e ao mesmo tempo permite distinguir
diferentes situações em que ela se encontra. Em termos concretos, significa que
ao fazermos propaganda e agitação numa fábrica estamos fazendo luta ideológica.
Quando organizamos trabalhadores em torno da nossa proposta alcançamos o grau
da luta política.
Por isso a luta ideológica pode, e vai
necessariamente na maior parte dos casos, preceder e preparar a luta política.
Ou seja, a agitação e a propaganda preparam a organização. Assim, as três
tarefas constituem uma unidade em revezamento, assim como as duas formas de
luta.
As Frentes foram uma terminologia adotada
para distinguir espaços concretos onde desenvolveremos as três tarefas e as
duas formas de luta da organização. O Congresso adotou a denominação de Frente
de Massas para designar o conjunto das três frentes da organização: 1)
a frente de organizações por local de trabalho (LT); 2) a frente de organizações
por local de moradia (LM); 3) a frente de organizações por local de estudo
(LE).
A luta ideológica e política será
organizada a partir destas frentes, que darão um caráter local e concreto a
nossa intervenção na realidade. Mas existem diversas formas de luta na
sociedade, especialmente entre o povo, que existem independentemente da nossa
presença ou vontade. Estas lutas servem como terreno concreto, e por isso é
importante qualificá-las.
As Lutas existentes na
sociedade
Podemos dizer que existem na realidade
objetiva três tipos de Luta em meio ao Povo;
1) a Luta Fracionista,
que se dá por motivos diversos (religiosos, econômicos, étnicos, ou vários
deles combinados). São as lutas em que os membros das frações trabalhadoras e
camadas populares têm como inimigos os membros das frações trabalhadoras e
camadas populares. São as lutas que dividem o povo entre si.
2) A Luta Reivindicativa, quando membros
das frações trabalhadoras e camadas populares reivindicam melhorias de
condições de vida perante o Estado (Governo) ou o Capital (Patrões);
3) Lutas Reativas: aquelas em que
membros das frações trabalhadoras e camadas populares reagem contra uma
agressão ou injustiça do Estado (Governo) ou do Capital (Patrões), mesmo que
não reivindiquem nada.
Chamaremos de Luta Popular as Lutas
Reivindicativas e Reativas. A luta ideológica e política da organização se
fazem dentro das lutas populares. De maneira geral, podemos dizer que são
objetivos permanentes da nossa luta política e ideológica: 1) combater o fracionismo; 2) promover as Lutas Populares; 3) dar
elas uma direção classista e combativa,
que permita o seu desenvolvimento na direção da via revolucionária.
Definida a metodologia de trabalho, o
Congresso passou a discussão de pontos específicos relativos à formulação de um
plano de trabalho e de políticas, tanto para determinadas áreas de intervenção
(como propaganda, relações e formação), como para frente de massas.
4 – Políticas
para a Frente de Massas
O Congresso, para efeito simbólico,
definiu que cada uma das frentes receberia um nome de batismo, em homenagem a
algum combatente do povo que tombou na luta. A frente comunitária recebeu o
nome de Manoel Congo, quilombola morto no século XIX; a frente sindical recebeu
o nome de Domingos Passos, militante anarquista operário que foi assassinado
pela Polícia; a frente estudantil recebeu o nome de Bacuri, guerrilheiro morto
pela ditadura nos anos 70.
O Congresso entendeu que é preciso
organizar e intensificar o trabalho de base na frente de massas. Três
orientações básicas foram tiradas. O trabalho na frente comunitária receberá
ênfase neste período 2003-2004. Seus objetivos são: 1) garantir o enraizamento da organização nos bairros proletários; 2)
montar uma retaguarda de apoio para a organização.
O Congresso entendeu que seria
fundamental iniciar trabalhos para a criação de uma tendência estudantil. A
criação de tal tendência visa dar meios mais eficazes para ação da organização
junto aos estudantes pobres nas escolas e universidades.
O Congresso entendeu que devemos iniciar
a luta ideológica na frente sindical, que prepara o terreno para nossa inserção
neste campo que ainda nos é novo. A partir da consolidação da luta ideológica,
se avaliará como proceder à criação de organizações sindicais e a luta
política propriamente dita.
A Luta Ideológica e Política da
Organização neste período de 2003-2004, será orientada para a adaptação dos
trabalhos de massa a linha da organização. Assim, este período constitui um momento
de transição que prepara o terreno para uma ação de maior envergadura. Além
disso, os trabalhos do II Congresso irão apontar a estratégia de longo prazo em
que tais trabalhos estarão inseridos.
5- Encerramento
Depois de tratar de tais temas, cumprindo plenamente seus objetivos
iniciais, o Congresso entrou na sua fase de encerramento. Nos lançamos ao
esforço de trabalho e construção que sabemos ser duro e difícil, dadas as
adversidades que se colocam, e as barreiras que se levantarão. Mas reafirmamos,
e cada vez mais convictos, a via revolucionária para o socialismo, e que
Anarquismo é Luta !!!