A Alma e o Corpo

O Bakuninismo e Organização Anarquista

 

Introdução

 

Este texto visa fazer uma discussão aprofundada sobre o bakuninismo, a ideologia anarquista, a organização política revolucionária e seu papel na luta de massas. Neste sentido, ele servirá como documento base de toda a política da União Popular Anarquista (UNIPA). Ele poderá também auxiliar a todos os militantes, revolucionários socialistas, ou ainda militantes de base, a encontrar uma formulação clara que os possa conduzir rumo à luta pela revolução social no Brasil.

         O texto é dividido em duas partes. A primeira parte (“A Alma”) trata de determinar com clareza as bases teóricas e ideológicas para uma organização política revolucionária. A segunda parte (“O Corpo”) analisa a relação entre a organização política e organização de massas, de forma a determinar com clareza os elementos de nossa linha política e nossa linha de massas. 

         Este texto foi produzido coletivamente, no período que precedeu e sucedeu o II Congresso da União Anarquista (fevereiro-março de 2004), momento de intensa reflexão teórica, feita paralelamente a momentos graves nas nossas frentes de massa. Por isso, este documento surge com uma feição especial, concebido por um longo processo de discussão e amadurecimento teórico fecundado por uma prática política também prolongada e exaustiva.

         As orientações aqui contidas representam o movimento real e duplo da luta política; da ação para as idéias, por um lado, e por outro, das idéias novamente para a ação, revigorada pela reflexão coletiva. Por isso confiamos que as orientações contidas em nossos documentos irão ter a devida durabilidade e garantirão o avanço de nossa organização na sua luta pelo socialismo.

 

I – O Pensamento-Guia (A Alma)

 

“A sociedade, no grande sentido da palavra, o povo, a vil multidão, a massa dos trabalhadores, não só dá a força e a vida, mas também dá os elementos de todos os pensamentos modernos, e um pensamento que não sai do seu seio e que não é a expressão fiel dos seus instintos populares, segundo a minha opinião, é um pensamento morto à nascença.”

(Mikhail Bakunin)

 

O Bakuninismo é o Pensamento Guia de nossa organização. Defini-lo  é ao mesmo tempo avançar e aprofundar o conhecimento sobre o anarquismo enquanto ideologia revolucionária na história da luta do proletariado por sua emancipação.

         Para realizar esta discussão é de importância fundamental que, em primeiro lugar, fique clara a exigência de um rigor e uma precisão conceitual máxima. É preciso fazer a distinção clara entre as noções de ideologia, teoria e pensamento-guia.

Com relação a ideologia existem dois elementos essenciais: seu caráter sistêmico e sua existência  necessariamente articulada nos planos do pensamento e da vida material. O que está dito aqui é o seguinte:

1) As idéias/valores e aspirações, somente constituem uma ideologia porque estão coerente e necessariamente articuladas entre si na forma de um sistema, onde a supressão ou alteração de uma destas idéias/valores ou aspirações, subverte o sistema como um todo e descaracteriza o conjunto enquanto uma ideologia determinada;

2) As idéias/valores e aspirações coerentemente articuladas entre si em forma de sistema constituem a ideologia, não são apenas noções abstratas: ou estão manifestas nas práticas materiais de indivíduos e grupos, ou não são nada. Melhor dizendo, um valor (ou uma aspiração) que é apenas enunciado e não manifestado na prática não é verdadeiramente um valor (ou uma aspiração), é apenas uma figura de discurso e de retórica. É importante destacar que este conjunto de afirmações é válido não para uma ou outra ideologia, mas para o conceito de ideologia enquanto tal.

         A teoria é, assim como a ideologia, um sistema, ou seja, um conjunto composto por elementos interdependentes coerentemente e necessariamente articulados entre si. Enquanto a ideologia é um sistema formado por idéias/valores e aspirações, a teoria é um sistema de conceitos, que são as ferramentas necessárias para a interpretação e o conhecimento do mundo social (mas também – em geral – para o mundo natural).

Teorias diferentes - sistemas de conceitos diferentes – levam a compreensões diferentes sobre o homem e a sociedade, e autorizam conclusões também diferentes, que conduzirão a ações distintas e até opostas sobre e no mundo social. É de fundamental importância destacar que a teoria (qualquer teoria) nunca é uma apreensão imediata, neutra e descompromissada da realidade do homem e da sociedade, ao contrário, é sempre construída a partir ou de um posicionamento político, mesmo que pouco sistematizado, sobre o ordenamento da sociedade, mais ou menos crítico ou conservador.

Portanto, para valores e aspirações diferentes quanto ao mundo social, correspondem teorias diferentes para compreender, criticar ou justificar este mundo social, e qualificar a ação sobre ele. Esta afirmação não significa que não existam teorias fraudulentas e mistificadoras, de um lado, e teorias que apontam uma compreensão correta do mundo social (ou natural), “verdades científicas”, do outro. Simplesmente aqui afirma-se o seguinte: 1) Em ciência, todas as “verdades cientificas” estão permanentemente submetidas à prova e à verificação, e assim, sujeitas a serem ultrapassadas e superadas por novas “verdades científicas”; 2) Mesmo as “verdades científicas” são produzidas a partir de um determinado ponto de vista interessado e comprometido, apesar ou por causa disto mesmo.

         Como já vimos afirmando, a ideologia de um determinado grupo ou organização política é o fator determinante para sua ação e para seu trabalho teórico. É a ideologia que move e impulsiona a ação, servindo a teoria para precisar a direção e qualificar a condução desta ação. Podemos agora aprofundar um pouco mais o debate. A ideologia é um sistema de idéias, aspirações e valores, ou seja, um conjunto de elementos interdependentes e coerentemente articulados.

É importante perceber que esta articulação coerente de várias idéias/valores e aspirações é uma construção humana na sociedade e na história, logo, a ideologia (toda ideologia) possui uma história específica, é constituída em um dado momento histórico, por indivíduos e/ou grupos determinados a partir de um trabalho intelectual de sistematização de uma determinada prática social. A ideologia não existe em um limbo e não surge a partir do nada, possui história e fundadores determinados que a constituem através de uma reflexão intelectual sobre uma determinada prática, para onde retorna necessariamente.

Resumindo, podemos dizer que: o Pensamento-Guia é o conjunto mais amplo, que compreende a Ideologia e Teoria; a Ideologia é uma sintetização política dos elementos fundamentais deste conjunto maior. 

 

2 - A formação histórica da ideologia anarquista e seus princípios constitutivos

 

O anarquismo é uma ideologia, assim, é um sistema de idéias, valores e aspirações, ou seja, é um conjunto onde estes elementos são interdependentes e estão necessária e coerentemente articulados entre si. É verdade que certas idéias/valores e aspirações que formam o anarquismo enquanto ideologia possuem uma existência na luta das massas trabalhadoras que é anterior à sua sistematização, mas não existe anarquismo antes desta sistematização, ele é esta sistematização. Assim compreendido, fica claro que o anarquismo possui uma história bem determinada que pode ser investigada e conhecida.

É preciso recusar certa mitologia que afirma vagamente tolices, anacronismos e/ou falsificações grosseiras, decorrentes de matrizes teóricas idealistas, tais  como: “O melhor expoente da filosofia anarquista na Grécia Antiga foi Zenão (342-267ou 270 AC), cretense, fundador da escola estóica, que opôs uma clara consciência de uma comunidade livre, sem governo à utopia estatista de Platão” (Kropotkin, O Anarquismo 1905). Por mais impressionante que possa parecer tal afirmação, ela é falsa e vazia de qualquer conteúdo histórico real.

         O anarquismo enquanto ideologia vai começar a ser sistematizado a partir das experiências de luta do movimento proletário europeu do século XIX, do interior de seus setores mais intransigentemente classistas. O dinamismo deste movimento, cada vez mais radicalizado e anti-burguês, principalmente depois da década de 1840, vai propiciar o desenvolvimento de um efervescente trabalho intelectual de indivíduos, grupos e organizações inseridas neste conflito social.

É neste momento que começam a tomar forma as primeiras sistematizações do socialismo enquanto ideologia revolucionária do proletariado, é fruto deste primeiro momento a clássica obra “O que é a propriedade?” de Pierre-Joseph Proudhon, onde é frontalmente desmascarado o sistema político, econômico e ideológico da burguesia, assim como também é neste período publicado o pilar do marxismo, o “Manifesto do Partido Comunista” de Karl Marx e da Liga dos Comunistas. Com o avançar das décadas o socialismo vai constituir-se e consolidar-se em duas vertentes adversárias: o Socialismo Revolucionário ou Anarquismo, e o Comunismo marxista ou Social-Democracia.

         Será o revolucionário, proletário e intelectual Proudhon, o primeiro a reivindicar positivamente o conceito de anarquista para definir a si mesmo e sua formulação programática. Proudhon é um intelectual de grande envergadura teórica e durante duas ou três décadas a principal referência de massas do movimento operário europeu ocidental (especialmente francês). A partir de suas reflexões teóricas sobre a economia capitalista e o poder burguês e de sua formulação programática de um socialismo anti-estatal e profundamente anti-burguês, Proudhon vai lançar as bases daquilo que o revolucionário russo Mikhail Bakunin vai dar a forma acabada: o anarquismo.

         A incansável atividade organizativa no interior do movimento operário – particularmente no interior da Associação Internacional dos Trabalhadores através de sua organização política a Aliança – bem como sua imensa capacidade de trabalho intelectual fez de Bakunin uma figura singular na luta proletária e socialista na Europa do século XIX. Bakunin, incorporando o fundamental do instrumental teórico e da síntese programática de Proudhon vai os levar às suas últimas conseqüências políticas e teóricas.

É Bakunin o responsável por sistematizar a ideologia anarquista bem como por aprofundar sua teoria,  definir com precisão seu programa e sua estratégia. O anarquismo, enquanto sistema unitário e dialético das idéias, valores e aspirações do socialismo, liberdade, organização e luta classista vai ter como início de sua trajetória histórica, exatamente a ação intelectual e prática revolucionária de Mikhail Bakunin no século XIX. Em suma, a sistematização do anarquismo enquanto ideologia vai se processar através e no interior do pensamento elaborado e desenvolvido historicamente por Bakunin.

         Concordamos com o célebre pensamento exposto na “Plataforma Organizacional” (manifesto do Grupo Dielo Trouda de 1927) quando afirma que  O anarquismo não é uma utopia, nem uma idéia filosófica abstrata, é um movimento social das massas trabalhadoras.”. Esta afirmação, contida na “Plataforma”, marca a  oposição da perspectiva anarquista à perspectiva leninista,  segundo a qual o socialismo é produzido no seio de um determinado setor da intelectualidade burguesa e é daí introduzido na luta dos trabalhadores.

Nós, ao contrário, entendemos que o conjunto de idéias/valores e aspirações constitutivo do anarquismo enquanto ideologia, já estava manifesto na luta dos operários e camponeses do século XIX contra a dominação burguesa.  E se Bakunin foi capaz de ordenar estas aspirações, idéias e valores difusos num sistema ideológico, através de seu pensamento e no interior de seu pensamento, foi exatamente porque Bakunin estava inserido absolutamente na mesma luta e condição material dos operários e camponeses [1].

Quatro elementos constituem os princípios ideológicos, que caracterizam o anarquismo: Socialismo e Liberdade, Luta Classista e Organização. As idéias de socialismo e liberdade como aspirações e as de luta classista e organização como valores máximos.

Estes quatro princípios ideológicos não foram definidos arbitrariamente. Eles surgiram da experiência histórica em que se forjou o nosso pensamento guia. É o pensamento guia que afirma a importância da organização. Bakunin diz há no povo uma força elementar, mas esta precisa ser amparada por uma organização que permita mais do que a sublevação por si só, mas também a vitória revolucionária por uma preparação longa e prolongada”. Para Bakunin, é também a organização (a associação) o único caminho das massas para a libertação, a emancipação pela prática.

 Mas a organização não se explica por si só. A organização só faz sentido em face de outra idéia, a luta classista. Bakunin afirma: “Que desta organização, cada vez maior, da solidariedade militante do proletariado contra a exploração burguesa deva sair e surja efetivamente a luta política do proletariado contra a burguesia, quem duvida disso?”.

A luta se apresenta como fator positivo de movimento da sociedade e da história: “Esta harmonia, é a ausência de luta, a ausência de vida, é a morte. Em política é o despotismo. Olhem para toda a história e convençam-se que em  todas as épocas em todos os paises em que há desenvolvimento e exuberância da vida,  do pensamento, da ação criadora e livre, houve divergência, luta intelectual e social, luta de partidos políticos ...”

As noções de luta e organização se apresentam assim como idéias sempre presentes tanto na teoria quanto na prática política de Bakunin. São elas que caracterizam e sintetizam o fundamental do anarquismo.

A crítica bakuninista da sociedade capitalista é conjugada com outras duas idéias que sintetizam as aspirações fundamentais do anarquismo: “Que a liberdade sem o socialismo é o privilegio, a injustiça; e que o socialismo sem a liberdade é a escravidão e a brutalidade...”

Socialismo e Liberdade, dois termos unidos dialeticamente pela concepção anarquista, quando separados se apresentam apenas como deformação. A revolução social se apresenta como meio necessário para a realização de tais aspirações. A luta e organização anarquista se vinculam a aspiração socialista e libertária e estas se vinculam a prática da luta classista e da organização.

Socialismo, Liberdade, Organização e Luta Classista; estes dois pares de idéias/valores e aspirações dialeticamente unidos constituem os elementos básicos da ideologia anarquista.

Amparada de um lado na crítica teórica da sociedade capitalista, e de outro numa experiência revolucionária, com as quais constitui uma unidade em permanente movimento, a ideologia anarquista tem uma dimensão própria, sendo o motor da prática política anarquista.

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3 - Os elementos constitutivos da teoria bakuninista

 

         Ao nos referirmos ao pensamento de Bakunin, estamos enfocando precisamente o pensamento expresso e manifesto na sua obra, e esta obra é definida pelo conjunto dos livros, panfletos, artigos, manuscritos e etc, por ele redigidos. Assim ao mencionarmos o pensamento de Bakunin estamos mencionando algo materialmente determinado e determinável e não “idéias implícitas” ou “sentimentos interiores”, mesmo porque, como afirma Bakunin: “O homem tem unicamente no seu interior o que manifesta de qualquer modo no seu exterior[2].

É o pensamento de Bakunin que gera o anarquismo historicamente enquanto ideologia revolucionária. Este pensamento tem, pois, uma relação de paternidade com a ideologia anarquista – no sentido de que é com base em seus conceitos e reflexões que a sistematiza – ao mesmo tempo em que é impulsionado por ela, que o pensamento de Bakunin se desenvolve. Está aqui claramente explicitada e marcada a profunda unidade que existe entre o anarquismo e o pensamento de Bakunin.

O pensamento de Bakunin tomado como fundamento da compreensão do mundo social, ou seja, como base a partir da qual desenvolver o trabalho dinâmico de produção teórica analítica e interpretativa da realidade social, nós o definimos como Bakuninismo.

Entendemos que o bakuninismo fornece não somente uma correta compreensão a respeito do complexo de relações que se estabelece entre o homem e a sociedade, bem como fornece uma crítica definitiva ao sistema político e econômico burguês e à sua ideologia. Além disto, o bakuninismo também apresenta uma compreensão precisa a respeito da relação entre as classes na sociedade capitalista e o seu papel na transformação ou preservação deste sistema social. Por último, mas não menos fundamental, entendemos que o bakuninismo desenvolve e apresenta uma perspectiva justa a respeito da relação entre a ação da força coletiva na sociedade e a construção das idéias, representações e do conhecimento, incluindo-se aí a ciência. Não deve ser perdido de vista o fato de que o bakuninismo é uma produção intelectual desenvolvida a partir dos marcos de um enfrentamento de morte contra a dominação burguesa, com base na organização e na luta classista e apontando para a construção do socialismo e da liberdade, é um pensamento que expressa uma visão proletária e revolucionária do mundo social.

         É importante apresentar neste momento os fundamentos principais do bakuninismo, ou seja: o materialismo e a dialética. O materialismo constitui-se na afirmação de que a materialidade, os fatos, a vida, produz as idéias, as representações, o conhecimento. Oposição intransigente ao idealismo, para o qual as idéias geram a vida material, o materialismo historicamente desenvolveu-se mesclado ao socialismo. Podemos entender o centro da definição materialista de Bakunin a partir desta citação:

 

“A força do sentimento coletivo ou do espírito público é já hoje poderosa. (...) Mas se esta força social existe, por que é que ela não foi suficiente, até aos nossos dias, para moralizar e humanizar os homens? (...) porque até aos nossos dias, ela própria nunca foi humanizada porque a vida social da qual ela é sempre a expressão mais fiel baseia-se, como se sabe, no culto divino e não no respeito humano; na autoridade e não na liberdade; no privilégio e não na igualdade; na exploração e não na fraternidade dos homens, na corrupção e na mentira e não na justiça e na verdade. (...) Querem torná-la benéfica e humana? Façam a Revolução Social.[3] 

 

Bakunin recusa o economicismo de Marx e o esquematismo mecanicista deste mesmo pensador que o leva a entender a realidade política, jurídica e cultural de uma sociedade como uma mera reflexão da “infra-estrutura” econômica. Bakunin admite que certas idéias “retornam” ao mundo material quando incarnadas em fatos materiais, em instituições e etc. A realidade determina as idéias, mas idéias também estão presentes nesta realidade. O materialismo, segundo Bakunin, é fundamentalmente um materialismo da ação, do fato, da vida, do conjunto da realidade que determina a produção das representações e das idéias, não um materialismo que reduz a explicação do mundo à base econômica da sociedade, como em Marx.

Como um pensador capacitado e imerso na luta de classes, Bakunin tinha clareza de todas as consequências e de todos os vínculos políticos do conhecimento produzido e do próprio processo de produção do conhecimento. Assim, Bakunin combatia o idealismo “dos metafísicos e doutrinários” por ser a racionalidade própria à legitimação de todos os modelos sociais de opressão da história.

Por outro lado, a afirmação materialista de Bakunin está intimamente vinculada às necessidades políticas do proletariado em luta:

 

Porque o que toma por seu ponto de partida o pensamento abstrato não poderá nunca chegar a vida, porque não existe caminho que possa conduzir da metafísica a vida. Estão separadas por um abismo. Superar este abismo, realizar um salto mortal ou mesmo o que Hegel denominou um salto qualitativo desde o mundo da lógica ao mundo da natureza, da vida real, não o conseguiu ainda ninguém e nunca conseguirá. O que se apóia na abstração morrerá nela.

A rota vivente concretamente justificada é a ciência, o caminho do fato real ao pensamento que o abarca, que o expressa e que, por conseguinte, o explica: e no mundo prático, é o movimento da vida social até  uma organização impregnada o máximo possível desta vida, conforme as indicações, condições, as necessidades e as exigências mais ou menos apaixonadas desta mesma vida (p. 212)

Tal é a vasta rota popular da emancipação real e total, acessível a todos e, por conseguinte, realmente popular, rota da revolução social anarquista, que surge por si mesma do seio do povo, destruindo tudo o que se opõe ao desabrochar generoso da vida do povo a fim de criar logo, das profundezas mesmas da alma popular, as novas formas da vida social livre.(p. Estatismo e Anarquia, p. 213).

 

Torna-se o materialismo perspectiva de análise social e método de intervenção política revolucionária.

         No que diz respeito à idéia de dialética, Bakunin, compreende que o conflito e a luta são elementos constantes e permanentes na sociedade. Em ruptura porém com a dialética hegeliana (e marxista) que aponta para a idéia de que a contradição entre tese e antítese é superada por uma síntese, Bakunin compreende que a tese, ou lado positivo, manifesta-se como quietude absoluta; e a antítese, ou lado negativo, elemento dinâmico da dialética, por natureza tende a caracterizar sua existência pela negação absoluta da tese não permitindo síntese harmônica .

As séries dialéticas de Proudhon onde os elementos estão em verdadeira interação conflitiva sem solução harmonizante, são incorporadas por Bakunin em seu pensamento, caracterizando o bakuninismo por quatro eixos principais: a dialética entre o indivíduo e sociedade, a dialética entre a política e a economia, a dialética entre a burguesia e o proletariado, e a dialética entre a ação e o pensamento.

         A dialética o individuo e a sociedade diz respeito à contínua inter-relação que se dá na vida social entre os indivíduos e a coletividade social. Em primeiro lugar, Bakunin investe contra o pensamento liberal afirmando que: Tudo que é humano no homem, e a liberdade mais do que qualquer outra coisa, é o produto de um trabalho social, coletivo[4]. Se Bakunin faz questão de, por um lado, demolir o indivíduo abstrato do idealismo liberal e burguês, também aponta suas baterias contra o determinismo simplista da coletividade social sobre o indivíduo, fundando este primeiro aspecto de sua concepção dialética: Todos os indivíduos, mesmo os mais inteligentes, os mais fortes, e sobretudo os inteligentes e fortes, são, em qualquer momento de sua vida, os produtores e os produtos da vontade e da ação das massas[5]

         A dialética entre a política e a economia surge no pensamento de Bakunin como um vigoroso avanço no conhecimento social de sua época nos marcos do proletariado em luta. Refutando o economicismo de Marx e a sua noção de que a “infra-estrutura” econômica da sociedade determina mecanicamente a “super-estrutura” política, jurídica e ideológica,  Bakunin vai propor uma perspectiva dialética para a compreensão das relações entre o político e o econômico:

 

O estado político de cada país ... é sempre o produto e a expressão fiel da sua situação econômica; para mudar o primeiro só é necessário transformar esta última. Todo o segredo das evoluções históricas,  segundo o Sr. Marx, está lá. Ele não toma em consideração os outros elementos da história, tais como a reação contudo evidente, das instituições políticas, jurídicas e religiosas sobre a situação econômica. Ele diz: “A miséria produz a escravatura política, o Estado”; mas não se atreve a revirar esta frase e dizer: “A escravatura política, o Estado, reproduz por sua vez e mantém a miséria, como uma condição de sua existência; de modo que para destruir a miséria, é preciso destruir o Estado[6].

 

         A dialética entre a burguesia e o proletariado tal como afirmada por Bakunin fundamenta que o estado presente de uma determinada conjuntura histórica da sociedade capitalista é o resultado de uma correlação de forças na luta entre a classe proletária e a burguesia:

 

“Compreendeste que entre o proletariado e a burguesia existe um antagonismo que é irreconciliável, pois que é conseqüência necessária de suas posições respectivas? Que a prosperidade da classe burguesa é incompatível com o bem-estar e a liberdade dos trabalhadores, porque esta prosperidade exclusiva não é nem pode ser fundada senão na exploração e na escravidão do seu trabalho, e que,pela mesma razão, a prosperidade e a dignidade humana das massas operarias exigem absolutamente a abolição da burguesia como classe autônoma? Que por conseguinte a guerra entre o proletariado e a burguesia é fatal, e só pode acabar através da destruição desta ultima? (Política da Internacional, p. 53)

Quanto a estas causas[causas da criação de fatos novos na sociedade], é preciso procurá-las no desenvolvimento ascendente das necessidades econômicas e das forças organizadas e ativas, não ideais mas reais, da sociedade[7].

 

Também será exclusivamente a partir da luta de classes que Bakunin entende o avanço da sociedade. A concepção dialética da relação entre as classes sociais leva Bakunin a buscar a transformação radical da sociedade capitalista nos termos da dialética tal como ele a defende (com a antítese suprimindo e não acomodando-se com a tese em um novo arranjo): A revolução é a guerra, e quem diz guerra diz destruição dos homens e das coisas. Sem dúvida que é uma pena que a humanidade ainda não tenha inventado um meio mais pacífico de progresso, mas até hoje qualquer passo novo na história só foi realizado na realidade depois de ter recebido o batismo de sangue[8]

A dialética entre a ação e o pensamento expressa a concepção de Bakunin que fundamenta sua radical perspectiva materialista. Para Bakunin, o pensamento e a vida (o plano da ação) não podem nunca ser redutíveis uma ao outro ou vice-versa: “Como seres vivos, discernimos e sentimos esta realidade, ela envolve-nos e nós sofremo-la e exercemo-la nós próprios, muitas vezes sem o sabermos, a todo momento. Como seres pensantes, abstraímo-nos forçosamente dela, pois o nosso próprio pensamento só começa com esta abstração e por ela”[9]. O pensamento é a abstração da vida, incluindo aqui a ciência, a vida – a realidade material – é, ela sim, a totalidade, e não é passível de ser apreendida diretamente, sem a mediação da abstração,  pela racionalização e pela ciência. “Tudo o que puderem dizer sobre uma coisa para a caracterizar, todas as propriedades que lhe atribuam ou que lhe encontrem serão determinações gerais, aplicáveis em graus diferentes e numa quantidade inumerável de diferentes combinações,  a muitas outras coisas. (...) A individualidade de uma coisa não se exprime[10].

Apesar de estabelecer este limite à razão, Bakunin está longe de se posicionar ao lado do irracionalismo e de atacar a ciência:

 

“Nós respeitamos inteiramente a ciência e consideramo-la como um dos mais preciosos tesouros, como uma das glórias mais puras da humanidade. Por sua causa o homem distingue-se do animal ,hoje seu irmão mais novo, outrora seu antepassado, e torna-se capaz de liberdade. Portanto também é necessário reconhecer os limites da ciência e de lhe lembrar que não é o todo,  é só uma parte, e que o todo é a vida ...[11].

 

Bakunin é, no entanto, um inimigo ferrenho do cientificismo e de sua obra social tanto no aspecto mais amplo quanto no interior da luta proletária. O cientificismo nasce com a dominação burguesa: “Ela [a burguesia] sabe muito bem que a principal base, e até se poderia dizer a única, da sua força política atual,  é a sua riqueza; mas, não querendo nem podendo confessá-lo, ela procura explicar esta força pela superioridade da sua inteligência,  não natural mas científica; para governar os homens, acha ela, é preciso saber muito e hoje só ela é que sabe””[12].

Pondo os devidos freios às pretensões do governo dos homens de ciência, Bakunin igualmente ataca as pretensões de hegemonia “científica” de Marx, seus partidários e seu programa no interior do movimento operário e na construção do socialismo, ao apontar para a sociedade socialista sob poder dos trabalhadores, diz Bakunin:

 

O trabalhoem geral” não é senão uma idéia abstrata que não encontra a sua “realidade” senão numa imensa diversidade de indústrias especiais, em que cada uma tem a sua natureza própria, as suas próprias condições, que não se podem adivinhar e muito menos determinar pelo pensamento abstrato, mas que, só se manifestando pelo fato de seu desenvolvimento real, podem determinar sozinho o seu equilíbrio particular, as suas relações e o seu lugar na organização geral do trabalho, - organização que, como toda as coisas gerais, tem de ser a representante sempre reproduzida de novo pela combinação viva e real de todas as indústrias particulares e não o seu princípio abstrato, imposto violenta e doutrinariamente, como o queriam os comunistas alemães,  partidários do Estado Popular[13].

 

O movimento dialético, segundo Bakunin, entre o pensamento e a vida, se apresenta ao fim das contas como a determinação da ação concreta sobre o pensamento, mas este pensamento estando igualmente inserido no complexo conjunto de elementos materiais que constituem a ação e a vida. . Todo o movimento do conhecimento racional, científico e de sua relação dialética com a vida e a ação encontra-se expressa numa breve frase do revolucionário russo: A abstração científica, já tenho dito, é uma abstração racional, verdadeira na sua essência, necessária à vida da qual ela é a representação teórica, a consciência. Ela pode, deve ser absorvida e dirigida pela vida[14]

Tendo assim caracterizado o bakuninismo é importante destacar que o anarquismo é o produto e, simultaneamente, o produtor do bakuninismo, pois é o eixo ideológico condutor do trabalho intelectual de Bakunin. Por outro lado, o bakuninismo é o solo fértil de onde brota o anarquismo  além de ser sua explicação última.

O anarquismo é a ideologia bakuninista e o bakuninismo é o pensamento anarquista. Anarquismo e bakuninismo encontram-se indissociavelmente fundidos em uma poderosa unidade, e a melhor prova para tal é o fato de que ambos desenvolvem-se historicamente juntos, construindo-se mútua e dialeticamente ao longo da trajetória política e revolucionária de Bakunin.

A tentativa de divorciar o anarquismo do bakuninismo provou historicamente, através da revisão promovida por Malatesta e seu anarquismo comunista, que enquanto fraude, só pode degenerar em revisionismo e reação, ou na melhor das hipóteses, em confusão e hesitação. A teoria, o programa, e a estratégia  gerais do anarquismo encontram sentido no interior do conjunto da formulação bakuninista e fora daí tendem a desembocar no idealismo pequeno-burguês e no humanitarismo reacionário e conservador.

Ao afirmarmos que o bakuninismo pensamento-guia da organização, afirmamos que encontramos no conjunto da obra de Bakunin a base fundamental para o desenvolvimento de nossa produção teórica, programática e estratégica.

Entendemos que ao pensamento-guia podemos acrescentar contribuições complementares e que desempenhem um papel de aprofundamento com relação às suas concepções, porém rechaçamos toda e qualquer revisão nos postulados básicos do bakuninismo e denunciamos toda tentativa de desvencilhar o anarquismo de sua base filosófica bakuninista como revisionismo e traição à causa anarquista. A unidade indissociável entre bakuninismo e anarquismo é a chave para o rearmamento ideológico, teórico e político do socialismo revolucionário anarquista e conseqüentemente do proletariado em sua luta de emancipação.

 

II - a dialética da organização política com a organização de massas (O Corpo)

 

Esta parte do texto visa realizar a o aprofundamento teórico acerca da nossa linha política. Neste sentido, pretendemos analisar os elementos que determinam o funcionamento interno e a ação da organização política revolucionária anarquista.

A nossa linha política define:

 

“Tendo por base a ideologia anarquista, podemos afirmar que ela toma a luta e organização como pressupostos, o que significa que: 1) existe a necessidade de organização, tanto dos anarquistas em organização revolucionária como da massa em movimentos reivindicativos. Além disso, para fins operacionais, podemos classificar as idéias e aspirações da ideologia no que chamaremos aqui de Estratégia e Programa Geral Permanentes, porque compõem a ideologia anarquista, logo, não são passíveis de revisão.

A Estratégia Permanente é 1) Revolucionária, o que significa que ela supõe o uso da força para a mudança da sociedade; 2) Anti-colaboracionista, pois ela boicota o sistema político burguês e leva a separação de seus grupos e partidos. Esta estratégia exige: 1) que os anarquistas sustentem as organizações populares e façam propaganda dentro delas; 2) que o partido recrute/forme líderes populares, para que estes apliquem sua política revolucionária dentro dos seus respectivos movimentos e lhes dêem uma direção revolucionária. Esta Estratégia está subordinada e é o meio principal de alcançar o Objetivo Final da Ideologia, ou seu Programa Permanente, que é o estabelecimento de um sistema socialista, que supõe a destruição do Estado burguês e do Capitalismo.

 

Os pilares da Organização Anarquista não são somente idéias, mas práticas e relações que evolvem formas concretas de distribuição do poder e de organização da tomada de decisões. “Qualquer coisa não é senão que ela faz”, dizia Bakunin. Entendendo a centralidade da ideologia, e os quatro princípios ideológicos (socialismo e liberdade, luta e organização), devemos ter consciência entretanto que uma organização não se apóia somente sobre valores e aspirações.

Uma organização se apóia sobre princípios organizativos que não se reduzem nem se confundem com os princípios ideológicos. Os princípios organizativos visam exatamente dar forma concreta e mecanismos explícitos de regulação da ação. Nossa Linha Política se pauta em sete pontos fundamentais, que estruturam nossa organização:

 

“1º a organização se apóia sobre quatro princípios: unidade teórica, unidade tática, responsabilidade coletiva e federalismo.

2º a função da organização é preparar e dirigir a luta revolucionária pelo socialismo, através da inserção na luta política de massas, amparado num planejamento estratégico harmônico global;

3º a estratégia geral permanente da organização supõe: a realização de uma revolução social, ou a mudança do sistema social pela força coletiva do povo; o anti-colaboracionismo; 

4º o programa geral permanente, seu objetivo finalista, é o socialismo;

5º a organização mobilizará diferentes sujeitos sociais existentes no país, dos campos e das cidades, no desenvolvimento da luta revolucionária. Estes sujeitos são as massas exploradas/oprimidas política e economicamente, urbanas e rurais, ou seja, o proletariado de nosso país;

6º o caráter da violência revolucionaria, é reativo (uma vez que é uma reação legítima à violência da burguesia) e libertador (garantir a emancipação das massas e seu protagonismo no processo revolucionário);

7º o caráter violento da revolução exige a formação de organizações armadas revolucionárias”

.

Discutiremos inicialmente a diferença entre organização dos anarquistas (organização política revolucionária) e a organização das massas (e sua relação dialética). Esta temática é fundamental para lançarmos as bases do anarquismo enquanto ideologia revolucionária que funde uma organização política num movimento popular.

Depois trataremos dos quatro princípios organizativos: 1) unidade teórica, 2) unidade tática, 3) responsabilidade coletiva e 4) federalismo. O objetivo desta discussão é criar melhores condições para entendimento do funcionamento da organização anarquista, de tudo que faz de uma organização o anarquismo em carne e osso.

 

1 - O que é a organização política revolucionária anarquista

 

Devemos saber claramente o que é uma organização política revolucionária anarquista. O centro da organização é a ideologia anarquista. Esta ideologia, como vimos antes, é um sistema determinado de idéias, valores e aspirações, manifestos numa prática política. São estes valores e aspirações que motivam e governam sua ação política.

         A organização política revolucionária anarquista tem sua missão: construir o socialismo através da revolução social. Mas o que, em termos práticos, caracteriza esta organização? Primeiramente podemos dizer que organização política revolucionária anarquista tem o caráter de minoria ativa. O que isto quer dizer? A noção de minoria se relaciona diretamente a formulação acerca da relação entre organização revolucionária e massas populares. 

Qual será a distinção entre organização específica e organizações de massa? Como distinguir seus papéis e objetivos, se é que são distinguíveis? Estas são questões pertinentes e das respostas a elas dependerá a aplicação correta da linha política e da linha de massas.

O nosso parâmetro histórico é dado pela relação entre a “Aliança dos Socialistas Revolucionários” e a AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores). Mikhail Bakunin teoriza e define a correta relação entre “partido e massas”, ao debater a relação entre a Aliança e a AIT:

 

“A quem nos perguntar para que serve a existência da Aliança quando existe a Internacional, nós respondemos: a Internacional é, sem dúvida, uma magnífica instituição, é incontestavelmente a mais bela, a mais útil, a mais benéfica criação deste século. Ela criou a base da solidariedade dos trabalhadores de todo o mundo. Ela deu-lhe um começo de organização através da fronteira de todos os estados e fora do mundo dos exploradores e privilegiados. Ela fez mais, já contem hoje os primeiros germes da organização da unidade que há de existir e ao mesmo tempo deu ao proletariado de todo o mundo o sentimento de sua própria força. Estamos certos também do grande serviço que ela prestou a grande causa da revolução universal e social.  Mas ela não é uma instituição suficiente para organizar e dirigir esta revolução.” (Bakunin, op.cit, p.72).

 

Por que Bakunin afirma esta insuficiência da organização das massas? Vejamos:

 

“A Internacional aceita no seu seio, abstraindo-se completamente de todas as diferenças de crenças políticas e religiosas, todos os trabalhadores honestos, com todas as suas conseqüências a solidariedade da luta dos trabalhadores contra o capital burguês explorador do trabalho. Esta é uma condição positiva, suficiente para separar o mundo dos trabalhadores do mundo dos privilegiados, mas insuficiente para dar aos primeiro uma direção revolucionária. ... os fundadores da Associação Internacional agiram com grande sabedoria eliminando primeiramente do programa desta Associação todas as questões políticas e religiosas. Sem dúvida, de modo nenhum lhes faltou opiniões políticas, nem opiniões anti-religiosas bem marcadas; mas abstiveram-se de as emitir neste programa, porque o seu principal objetivo, em primeiro lugar, era unir as massas operárias de todo o mundo civilizado numa ação comum. Necessariamente que tiveram de procurar uma base comum, uma série de princípios simples sobre os quais os operários, sejam quais forem assuas aberrações políticas e religiosas,por pouco que sejam sérios, isto é, homens duramente explorados e sofredores, estão e tem de estar de acordo”.  (Bakunin, op.cit, p. 72-73).

 

A organização de massas, para poder incorporar uma grande e crescente quantidade de pessoas, tem de ser flexível, no sentido de que só se coloca como pré-requisito o caráter proletário e a disposição para a luta e organização coletiva. Logo, para poder ser ampla, mobilizar milhões, a organização de massas não consegue cumprir todas as tarefas necessárias a luta revolucionária.

         É por isso que se faz necessária uma organização política que tem por função dar o direcionamento revolucionário a organização de massas. A relação entre organização específica e organização de massas é assim de complementaridade. Bakunin fala que:

 

 “A aliança é o complemento necessário da Internacional ... Mas a Internacional e a Aliança, tendendo para o mesmo objetivo final, perseguem objetivos diferentes. Uma tem por missão reunir as massas operarias, os milhões de trabalhadores, através das diferenças das nações e dos países, através das fronteiras de todos os estados, em um só corpo imenso e compacto; a outra, a Aliança, tem por missão dar as massas uma direção verdadeiramente revolucionária. Os programas de uma e outra, sem serem opostos em nada, são diferentes pelo próprio grau de desenvolvimento respectivo. O da Internacional, se os tomarmos a sério, também é em germe, mas só em germe, todo o programa da Aliança. O programa da Aliança, é a explicação última do da Internacional.” (Bakunin, op.cit, p. 72-73).

 

A organização anarquista e a organização de massas mantêm uma relação dialética. Mas existem diferenças fundamentais entre ambas: o Caráter e o Programa.

A organização anarquista tem o caráter de minoria, a pretensão de aglutinar apenas os militantes de vanguarda do proletariado, e porta o programa máximo, o socialismo e a estratégia revolucionária; a organização de massas, por sua vez, tem o caráter de maiorias, o objetivo de aglutinar em grande número as massas, e para isso tem como programa melhorar as condições materiais de vida dos trabalhadores. Este programa não contradiz o programa revolucionário, caminha em direção a ele, mas não é igual a ele.

 

2 – A Plataforma Organizacional:

Unidade Teórica, Unidade Tática, Responsabilidade Coletiva e Federalismo.

 

Os quatro princípios organizacionais (Unidade Teórica, Unidade Tática, Responsabilidade Coletiva e Federalismo) sobre os quais a nossa organização política revolucionária se apóia, foram formulados no documento intitulado “A Plataforma Organizacional”, publicado em 1926, pelo Grupo Dielo Trouda[15]. È preciso então discuti-los, saber que idéias expressam e que conseqüências práticas trazem.

Os quatro princípios organizacionais são apresentados na “Seção Organizacional”, em que se fala da proposta da União Geral dos Anarquistas. Segundo a Plataforma:

 

“A teoria representa a força que orienta a atividade de pessoas e organizações por uma trilha definida e direcionada a um objetivo determinado. Naturalmente, ela deve ser comum a todas as pessoas e organizações aderentes à União Geral. Qualquer atividade realizada pela União Geral, tanto no global quanto em seus detalhes, deve estar em perfeita concórdia com os princípios teóricos professados pelo coletivo.

2. Unidade Tática ou o Método Coletivo de Ação

Da mesma forma, os métodos táticos aplicados pelos membros e grupos isolados dentro da União devem ser unitários, ou seja, estar em concórdia rigorosa tanto entre si quanto com a teoria e a tática da União.

Uma linha tática comum no movimento é de importância decisiva para a existência da organização e para todo o movimento: ela elimina o efeito desastroso de várias táticas que se opõem entre si, concentra as forças do movimento, oferece à elas uma direção em comum levando, portanto, a um objetivo fixo.

3. Responsabilidade Coletiva

A prática de agir sob a responsabilidade de um indivíduo deve ser decididamente condenada e rejeitada nos postos do movimento anarquista. As áreas da vida revolucionária, sociais e políticas, são, acima de tudo, profundamente coletivas por natureza. A atividade social revolucionária nesta áreas não pode ser baseada na responsabilidade de indivíduos militantes.

O órgão executivo do movimento anarquista geral, a União Anarquista, ao tomar uma posição definitiva contra a tática de individualismo irresponsável, introduz em seus postos o princípio de responsabilidade coletiva: a União toda será responsável pela atividade política e revolucionária de cada membro; da mesma forma, cada membro será responsável pela atividade política e revolucionária de União como um todo.

4. Federalismo

O anarquismo sempre negou o conceito de organização centralizada, tanto na área da vida social das massas quanto na sua ação política. O sistema centralizado depende na diminuição do espírito crítico, iniciativa e independência de cada indivíduo e na submissão cega das massas ao 'centro'. As conseqüências naturais e inevitáveis deste sistema são a escravidão e a mecanização da vida social e da vida da organização.

Sendo contra a centralização, o anarquismo sempre professou e defendeu o princípio de federalismo, que concilia a independência e a iniciativa dos indivíduos e da organização que servem à causa comum.

Ao conciliar a idéia de independência e alto grau dos direitos de cada indivíduo com o serviço das carências e necessidades sociais, o federalismo abre as portas para toda manifestação saudável das faculdades de todo indivíduo.

Mas, freqüentemente, o principio federalista tem sido deformado nos postos anarquistas: ele tem sido interpretado como o direito, acima de tudo, de manifestar o 'ego' de alguém, sem a obrigação de arcar com os deveres para com a organização,

Esta falsa interpretação já desorganizou nosso movimento no passado. Está na hora de pôr um fim a isso de uma forma firme e irreversível.

A federação significa a concordância livre entre indivíduos e organizações a trabalhar coletivamente em rumo a um objetivo comum.

Contudo, tal acordo e federação, que é baseada nele, só poderão se tornar realidade, ao invés de ficção ou ilusão, sob as condições essenciais de que todos os participantes do acordo e a União cumpram completamente os deveres assumidos, e conforme as decisões compartilhadas. Em se tratando de um projeto social, independente de quão vasta seja a base federalista na qual é construído, não podem haver decisões que não sejam executadas. É ainda menos admissível em uma organização anarquista, que assume exclusivamente obrigações relacionadas aos trabalhadores e sua revolução social.

Consequentemente, o tipo federalista de organização anarquista, ao mesmo tempo que reconhece os direitos de independência, opinião livre, liberdade individual e iniciativa de cada membro, requer deles que assumam deveres organizacionais fixos, e exige a execução de decisões compartilhadas.

Somente com esta condição o princípio federalista terá vida, e a organização anarquista funcionará corretamente, e se guiará em direção do objetivo definido.

A idéia da União Geral dos Anarquistas expõe o problema de coordenação e concordância das atividades de todas as forças do movimento anarquista.

Cada organização aderente à União representa uma célula vital do organismo todo. Cada célula deve ter seu secretariado, executando e guiando teoricamente o trabalho político e técnico da organização.

Visando a coordenação da atividade de todas as organizações aderentes da União, um órgão especial será criado: o comitê executivo da União. O comitê será responsável pelas seguintes funções: a execução das decisões tomadas pela União com as quais são confiados; a orientação teórica e organizacional da atividade de organizações isoladas consistente com as posições teóricas e a linha geral tática da União; a monitoração do estado geral do movimento; a manutenção das relações de trabalho e organizacionais entre todas as organizações da União; e com outras organizações.

Os direitos, responsabilidades e tarefas efetivas do comitê executivo são fixados pelo congresso da União. A União Geral dos Anarquistas tem uma meta concreta e determinada. Em nome do sucesso da revolução social ela deve, acima de tudo, atrair e absorver os elementos mais revolucionários e altamente críticos dos operários e camponeses.

Exaltando a revolução social, e mais ainda, sendo uma organização anti-autoritária que aspira à abolição da sociedade de classes, a União Geral dos Anarquistas depende igualmente da duas classes fundamentais da sociedade: os operários e os camponeses. Ela põe peso igual sob o trabalho de emancipação destas duas classes.

Quanto aos sindicatos dos trabalhadores e as organizações revolucionárias das cidades, a União Geral dos Anarquistas terá de dedicar todos os seus esforços para ser seu pioneiro e guia teórico.

Ela assume a mesma tarefa em relação às massas exploradas de camponeses. Assim como pretende ter o mesmo papel que o sindicato revolucionário dos trabalhadores, a União se esforça por efetivar a criação de uma rede de organizações econômicas revolucionárias dos camponeses, além disso, uma união específica de camponeses, fundada a partir de princípios anti-autoritários.

Nascida da massa de pessoas trabalhadoras, a União Geral deve tomar parte de todas as manifestações de suas vidas, levando a eles o espírito de organização, perseverança e ofensiva em todas as ocasiões. Somente desta forma ela poderá concretizar sua tarefa, sua missão teórica e histórica na revolução social dos trabalhadores, e se tornar a vanguarda organizada do seu processo de emancipação.  (Anarquia e Organização, p. 27).

 

Vemos que existe um encadeamento entre os quatro princípios, e que eles se traduzem numa determinada estrutura organizacional. Os pontos de maior polêmica, nas críticas movidas a plataforma, foram em relação à responsabilidade coletiva e sua interpretação do federalismo. Por isso é importante discutir as definições e questões de fundo.

         A responsabilidade coletiva é um princípio organizativo plenamente coerente com a ideologia anarquista e o pensamento guia, o Bakuninismo. Este princípio indica a relação dialética entre  indivíduo-organização, a necessidade de um controle recíproco, de uma disciplina bem determinada. Seu objetivo é garantir a coerência e harmonia das ações da organização. Bakunin formula com precisão a mesma questão:

 

“A fim de estabelecer uma certa coordenação na ação, coordenação necessária, creio eu, entre as pessoas que tendem para o mesmo objetivo, impõe-se determinadas condições: um certo número de regras ligando cada um a todos, determinados pactos e acordos renovados frequentemente – se falta tudo isto, se cada um trabalha como lhe apetece as pessoas mais sérias se encontrarão elas próprias numa situação em que os esforços de um serão neutralizados pelos de outros. Disso resultará a desarmonia e não a harmonia e a confiança serena para a qual nós tendemos.

Eu quero que no nosso trabalho haja ordem e uma confiança serena, e que nem uma nem outra sejam os resultados de ordens de uma única vontade, mas da vontade coletiva, da vontade bem organizada de numerosos companheiros disseminados em numerosos países.

 

Por muito inimigo que seja daquilo que na França se chama de disciplina, no entanto reconheço que uma certa disciplina, não automática, mas voluntária e refletida, estando perfeitamente de acordo com a vontade dos indivíduos, continua a ser e sempre será necessária, todas as vezes que vários indivíduos, livremente unidos, empreenderam um trabalho ou uma ação coletiva qualquer. Esta disciplina não é senão a concordância voluntária e refletida de todos os esforços individuais para um objetivo comum. No momento da ação, nomeio da luta, os papéis dividem-se naturalmente, segundo as aptidões de cada um, apreciados e julgados por toda a coletividade: uns dirigem e coordenam, outros executam as ordens. Mas nenhuma função se petrifica, se fixa e fica irrevogavelmente ligada a nenhuma entidade ou pessoa. A ordem e a promoção hierárquica não existem, de modo que o comandante de ontem pode tornar-se o subalterno de hoje. Ninguém se eleva acima dos outros, ou se se eleva, não é senão para cair logo a seguir, como as ondas do mar, voltando sempre ao nível salutar da igualdade.”(Bakunin, 2002, p. 60).

         A temática da responsabilidade coletiva se relaciona diretamente a questão do federalismo. O federalismo é uma formulação política e teórica central no anarquismo. É importante saber o que o federalismo significa em termos práticos.

         P.J. Proudhon dá uma definição do princípio federativo:

 

“Federação, do latim foedus, genitivo foederis, quer dizer pacto, contrato, tratado, convenção, aliança, é uma convenção pela qual um ou mais chefes de família, uma ou mais comunas, um ou mais grupos de comunas ou estados, obrigam-se recíproca e igualmente uns em relação aos outros para um ou mais objetos particulares, cuja carga incumbe especial e exclusivamente aos delegados da federação. (Proudhon, Do Princípio Federativo, p.90)

Em resumo, o sistema federativo é o oposto da hierarquia ou centralização administrativa e governamental a qual distingue, ex aequo, as democracias imperiais, as monarquias constitucionais e as repúblicas unitárias. A sua lei fundamental, característica, é esta: na federação, os atributos da autoridade central especializam-se, restringem-se, diminuem de número, de intermediários, e se ouso assim dizer, de intensidade ...(Proudhon, Do Princípio Federativo, p.91)

 

O princípio federativo, enquanto fórmula de contrato político, tem duas características, segundo Proudhon: ele é sinalagmático ou bilateral, implicando obrigação recíproca; é comutativo, já que as partes se comprometem em dar coisas equivalentes as que recebem.

Assim, o princípio federativo coloca o equilíbrio de poder e obrigações iguais na base das relações políticas. Isto não significa a inexistência de organismo centrais, muito pelo contrário, exige eles; a diferença é que a relação de poder entre os organismos centrais ou federais e locais e intermediários é equilibrada. Proudhon afirma que a função dos organismos federais é essencialmente iniciadora[16].

         O Catecismo Revolucionário, documento programático da Aliança, apresenta também algumas questões relativas ao federalismo:

 

“J. A divisão de um país em regiões, províncias, distritos, e comunas, como na França, dependerá naturalmente das tradições, das circunstancias específicas, e da natureza particular de cada país. Nós podemos indicar aqui somente os dois fundamentais e indispensáveis princípios que precisam ser postos em prática  por um país que esteja seriamente tentando organizar uma sociedade livre. Primeiro: todo organização precisa proceder por meio da federação da base para o topo, da comuna a associação coordenada do país ou nação. Segundo: é preciso existir no mínimo um corpo intermediário autônomo entre a comuna e o país, o departamento, a região, ou a província. Sem um tal corpo intermediário autônomo, a comuna (no estrito sentido do termo) seria isolada e também fraca para ser capaz de resistir a pressão centralística e despótica do estado, que irá inevitavelmente (como aconteceu duas vezes na França) restaurar o poder regime monárquico. O despotimo se origina mais in organização centralizada do Estado, do que na natureza despótica dos Reis.”

K. A unidade básica de toda a organização política em cada país precisa ser a comuna completamente autônoma, constituída pelo voto da maioria dos adultos de ambos os sexos. Ninguém terá quer o poder quer o direito de interferir na vida interna da comuna. A comuna elege todos os funcionários, legisladores, e juizes. Ela administra a propriedade comunal e finanças. Toda comuna teria o direito incontestável de criar, sem sanção superior, sua própria constituição e legislação. Mas na ordem de liga-la e torna-la uma parte integral da federação da provincia, a comuna precisa conformar sua própria carta constituinte particular aos princípios fundamentais da constituição provincial e ser aceita pelo parlamento da província. A comuna precisa também aceitar os julgamentos do tribunal provincial e quaisquer medidas ordenadas pela administração da província. (Todas as medidas da administração provincial precisam ser ratificadas pelo parlamento provincial) A Comuna recusando aceitar as leis provinciais não terá direito a seus benefícios. (Catecismo Revolucionário, p. 7).

 

         Podemos visualizar então que o federalismo é uma determinada forma de organização política da sociedade e também um princípio organizativo. O fundamental é que o federalismo significa a inclusão das unidades locais em unidades amplas; por isso a comuna se ajusta as regras da província e esta as regras da organização política nacional.

         No entanto é preciso distinguir o princípio federativo, enquanto formulação política anarquista inserida na sua concepção global de sociedade, da federação enquanto fato social. Como vimos, o princípio federativo anarquista significa bilateralidade, participação de várias partes e comutatividade, equivalência, igualdade; a federação é a compartimentalização igualitária (administrativa e territorial) das funções políticas.

Entretanto, existem federações na sociedade capitalista (o Brasil é uma república federativa), mas que se reduzem ao aspecto administrativo. O princípio, a relação política que a ordena é baseado no estatismo, em relações de dominação. O princípio federativo anarquista é uma relação igualitária de poder, que se expressa em uma administração federada, mas que é mais que isso.

         Podemos dizer assim que a Plataforma, conscientemente ou não, resgata o verdadeiro sentido, político e social, das formulações que já estavam devidamente acabadas no pensamento guia: em Bakunin e Proudhon. O federalismo não exclui instancias concretas de coordenação central, muito pelo contrário, as exige; o papel delas é iniciar, regular e zelar pelos acordos coletivos. O Poder máximo no entanto reside nas bases.  

A noção de que a União geral é composta por células (organismos locais), que por sua vez tem um núcleo dinamizador (o secretariado), e que existirá um Comitê Geral, responsável pela observação das decisões tomadas e pela função de iniciar e orientar o trabalho coletivo é simplesmente a afirmação, e não a negação, do federalismo. A Articulação coerente entre os organismos locais numa estrutura que funcione de baixo para cima, e da circunferência para o centro (mas que possui um “cima” e um “centro”) e o funcionamento efetivo da política revolucionária, são exatamente o cerne do federalismo.

 

3 – O lugar da Organização Política

 

A organização política revolucionária ocupa um lugar central no processo revolucionário, no sentido que ela tem o papel de iniciador, vanguarda e guardião. Este elemento, desenvolvido por Bakunin, é retomado pelo Grupo Dielo Trouda (causa dos trabalhadores) nos anos 20 do século XX, pela Agrupação Amigos de Durruti nos anos de 1936-1937, e pela FAU nos anos 1960/70. Em todos estes casos se veria a reprodução da distinção da organização dos anarquistas e das massas. 

A Organização Política Revolucionária Anarquista tem um papel central a cumprir. Isto porque dada as condições da luta revolucionária – as exigências de mobilização do proletariado e a repressão burguesa – o movimento de massas não tem condições de cumprir todas as tarefas da luta revolucionária.

A Organização tem assim a missão de guiar teoricamente, de dar o exemplo, de tomar a iniciativa da luta, ser a vanguarda popular, em todos os momentos do processo, como afirma corretamente a plataforma. A formulação da FAU nos anos 70 do século XX, durante a luta contra a ditadura vai na mesma direção:

 

“Mas a transformação de fundo do sistema somente se pode alcançar na medida em que exista uma organização especificamente política, capaz de disputar o poder com as classes dominantes. E para isso são necessárias formas de organização e métodos de ação que somente uma organização ideologicamente homogênea e apta para atuar  em todos os terrenos, pode dar-se.  (Cartas de FAU, in Acion Direta Anarquista, p. 192).

O problema do poder, decisivo em uma mudança social profunda, só pode resolver-se a nível político, através da luta política. E esta requer uma forma específica de organização: a organização política revolucionária. Somente através de sua ação, enraizada nas massas, pode lograr-se a destruição do aparato estatal burguês e sua substituição por mecanismos de poder popular. (...)

A atividade de uma organização política supõe uma previsão do devir possível dos acontecimentos durante um lapso mais ou menos prolongado, previsão que inclui a linha de ação a ser adotada pela organização frente estes acontecimentos de maneira a influir sobre eles no sentido mais eficaz e adequado.(Cartas de FAU, in Acion Direta Anarquista, p. 194 e 196).

 

Em última instância, como afirmava Bakunin, a organização tem o dever de preparar as condições para a vitória revolucionária das massas, obtida através de uma prolongada preparação. É preciso ficar claro que a organização política revolucionária ocupa um lugar central na concepção bakuninista de revolução. Sem organização política revolucionária anarquista, não há revolução social. Exatamente como indicado pela FAU.

 

4 – A Organização de Massas

 

Iremos discutir agora a correta concepção anarquista da relação da organização política revolucionária com os movimentos de massa, ou dizendo de outra forma, as organizações e entidades proletárias e populares. Temos como objetivo esclarecer orientações teóricas a serem adotadas, para que possamos visualizar com mais precisão o porque de determinadas fórmulas práticas empregadas no trabalho político.

Iremos então detalhar como a organização de massas se constitui, como ela deve trabalhar, como ela se organiza internamente para poder ao mesmo tempo incorporar massas populares com opiniões diversas, contraditórias e preconceitos burgueses para lutar por melhorias imediatas, e ao mesmo transforma-las em sujeitos cada vez mais conscientes e aderentes ao programa socialista revolucionário. A nossa Linha de Massas determina:

 

1) construir organizações de massa com “caráter de tendência”, ou seja, que combinem em seu interior a luta reivindicativa e a orientação revolucionária, mesmo que em estado embrionário;

2) a partir daí construir/sustentar organismos representativos (sindicatos, associações de moradores e etc)

3) o conjunto das organizações de tendência construídas/dirigidas pela organização específica, e que seguem sua linha, serão chamadas de Braço de Massas.

4)  o objetivo do Braço de massas é fazer a luta reivindicativa com uma orientação revolucionária, mas seu programa não se confunde com o programa da organização. O Braço de Massas é o elo da organização específica com a vida cotidiana do povo e seus problemas materiais; sua função é lutar para resolve-los e aprofundar o grau de desenvolvimento ideológico das massas em direção ao socialismo, sempre começando da realidade material e concreta.

 

Fundamentaremos teoricamente, a seguir, as orientações práticas da nossa linha de massas.

 

5 - O que é a Organização de Massas ...

 

De acordo com a concepção bakuninista, a organização de massas tem uma função bem determinada: é fazer a luta política pela melhoria das condições de vida do povo. O seu programa e as suas exigências são direcionadas para a aglutinação dos trabalhadores para a luta, colocando somente este critério como central para o ingresso na organização. Vejamos o que diz Bakunin, num artigo chamado “A Dupla Greve de Genebra”:

 

“Mas ,como chegar, do abismo da ignorância, da miséria, da escravatura em que vivem os proletários dos campos e das cidades, a este paraíso, a esta realização da justiça e de humanidade sobre a terra? Para tal, os trabalhadores tem apenas um meio: a associação. Através da associação, instruem-se,esclarecem-se mutuamente e põem fim, por si próprios, a esta fatal ignorância que é uma das principais causas da sua escravatura. Através da associação, aprendem a se ajudarem, a se conhecerem, a se apoiarem mutuamente, e acabarão por criar um poder muito maior que o de todos os capitais burgueses e poderes políticos juntos. (...)

Se a Internacional conspira, o faz a luz do dia, e diz a quem quiser ouvir. E que diz? Que exige? A justiça, nada mais que justiça, o direito da humanidade e o direito ao trabalho para todos. (...)

É uma obra revolucionária? Sim e não. É revolucionária no sentido em que pretende substituir uma sociedade fundada sobre a corrupção, sobre a exploração da imensa maioria dos homens por uma minoria opressora, sobre o privilégio, sobre a ociosidade e sobre uma autoridade que protege tudo isso, por uma sociedade fundada sobre a justiça igual para todos e sobre a liberdade de todos. (...)

A Associação Internacional é revolucionária no sentido de querer chegar a destruição violenta da ordem política atualmente existente na Europa? Não. Pouco se preocupa com esta política, melhor, nada se preocupa com esta política.(Bakunin, L´égalite 1869 ,in O Socialismo Libertário, p. 7-8).      

 

Vemos que a organização de massas tem como objetivo lutar pela garantia dos direitos dos trabalhadores. Mas devido a situação concreta do proletariado, ela não pode exigir que estes assumam um programa revolucionário como exigência de sua adesão, pois isto faria com que a organização fosse impossível. Mas assim mesmo a organização de massas cumpre funções necessárias a política revolucionária; separar os trabalhadores da política burguesa, gerar a força coletiva, o poder dos trabalhadores. 

A função principal da organização de massas (e que define o seu caráter), fica ainda mais explícita, quando Bakunin discute as instâncias internas da AIT e sua importância. A AIT tinha pelo menos dois tipos de seções, as centrais e as de ofício:

 

 “Se só houvesse havido, na Internacional, seções centrais, provavelmente elas já teriam conseguido formar conspirações populares para inversão da ordem atual das coisas, conspirações de intenção, mas muito fracas para atingir seus fins, porque elas nunca poderiam arrastar e receber no seu seio, senão um pequeníssimo número de operários.,os mais inteligentes, os´mais enérgicos, os mais convencidos e os mais dedicados. A imensa maioria, os milhões de  proletários ficaria de fora e, para inverter e destruir a ordem política e social que hoje nos esmaga, é preciso a concorrência destes milhões.(Bakunin, op.cit, p. 68).

 

Apesar de não ser pré-requisito para a ação revolucionária, a quantidade é fator indispensável para vitória da revolução. A Revolução Social é uma revolução das massas, das maiorias. A função da organização de massas é aglutinar estas maiorias para o exercício prática da solidariedade e da luta. Esta organização é que gera o poder necessário a revolução.

 

6 - O Método Materialista de Mobilização do Proletariado.

 

         Para organizar as amplas massas é preciso, no entanto chegar até elas e convence-las de organizarem-se. Para isto Bakunin indicou o método correto a ser seguido pelos socialistas revolucionários. É o método político materialista:

 

“Os fundadores da Associação Internacional dos Trabalhadores agiram com extraordinária sensatez ao evitar assentar em princípios políticos e filosóficos, como base dessa associação, e ao fundar-se primeiramente apenas na luta exclusivamente econômica do trabalho contra o capital, pois estavam certos de que, a partir do momento em que um operário se coloca neste campo, a partir do momento em que ganhando confiança nos seus direitos e na sua força numérica, se insere com os seus companheiros de trabalho numa luta solidária contra a exploração burguesa, será necessariamente levado, pela própria força das coisas, e pelo desenvolvimento dessa luta, a reconhecer rapidamente todos os princípios políticos socialistas e filosóficos da Internacional, princípios que não são mais, com efeito, que a justa expressão de seu ponto de partida, do seu fim.” (Bakunin, A Política da Internacional 1869, in O Socialismo Libertário, p. 57).

 

Este critério de recrutamento, que coloca como pressuposto a luta e a organização popular, sem exigir mais nada dos aderentes, conduzirá pela dinâmica política da luta de classes, a um aprofundamento cada vez maior em direção uma consciência de classe socialista. È a prática de luta e organização imediata (e lembramos que toda prática compreende certas idéias) que deve ser o ponto de partida, a adesão consciente ao programa máximo socialista revolucionário é o ponto de chegada.

A exclusão das “idéias políticas e religiosas” dos critérios de adesão de massas, e seu centramento na reivindicação,  é o único meio de aglutinar as maiorias, como indica Bakunin:

 

“Portanto, para interessar e para arrastar todo o proletariado na obra da Internacional,era e é preciso aproximar-se dele não com idéias gerais e abstratas, mas com a compreensão real e viva dos seus males reais;e os seus males do dia a dia, ainda que apresentem um caráter geral para o pensador, e ainda que sejam na realidade efeitos particulares de causas gerais e permanentes, são infinitamente diversos, tomando uma multiplicidade de aspectos diferentes, produzidos por uma variedade de causas passageiras e reais. (...)

Então, para tomar o coração e conquistar a confiança, o consentimento, a adesão,a afluência do proletário ... é preciso começar por falar-lhe, não dos males gerais de todo o proletariado internacional, nem das causas gerais que lhe dão nascença, mas dos seus males particulares, quotidianos privados. É preciso falar-lhe da sua profissão, das condições do seu trabalho precisamente na localidade em que habita; da duração e da grande extensão do seu trabalho cotidiano, da insuficiência do seu salário, da maldade do seu patrão, da carestia dos víveres e da sua impossibilidade de nutrir e de instruir convenientemente sua família. E propondo-lhes meios de combater os seus males e para melhorar sua posição, não é preciso falar-lhe logo dos objetivos gerais e revolucionários que constituem neste momento o programa da Associação Internacional dos Trabalhadores (...) provavelmente ele não compreenderia nada destes objetivos, e poderia mesmo acontecer que, estando influenciado pelas idéias religiosas, políticas e sociais que os governos e os padres procuram inculcar-lhe, repelisse com desconfiança o propagandista imprudente que quisesse converte-lo com esses argumentos. Não, primeiramente só é preciso propor-lhes objetivos que o seu bom senso natural e sua experiência quotidiana não possam ignorar a utilidade, nem repeli-los  (Bakunin, o Conceito de Liberdade, p.144-145).

 

O ponto de partida exigido para a adesão a organização de massas é a luta pela melhoria das condições materiais de vida. Este ponto de partida é o centro do método político materialista de mobilização. É ele que permite a aglutinação massiva de pessoas, consciência socialista e revolucionária é um desdobramento advindo da experiência que esta organização de massas gera.

Mas como então garantir a adesão das massas a política revolucionária através da experiência de luta? Na verdade esta garantia se dá porque dentro da organização de massas existem também os revolucionários, que vêem a luta imediata como parte de uma luta de longo prazo pela libertação proletária. A organização da AIT possuía na sua estrutura, como já vimos, pelo menos duas instancias fundamentais: a Seção Central e Seção de Ofício. Vejamos qual o papel de cada uma delas.

 

7 - A Estrutura da Internacional: Seções Centrais e Seções de Ofício

 

Dentro de algumas formulações anarquistas, veremos quase sempre ser mencionada a relação dos pequenos grupos que normalmente dão início a alguma ação com os amplos movimentos que podem ser, e que efetivamente são, gerados no correr do processo de luta. Assim vemos Bakunin analisar o surgimento e desenvolvimento da AIT:

 

“A seção central, já dissemos, foi o primeiro germe, o primeiro corpo constituinte da Associação Internacional em Genebra; ela deveria, continuar a ser sua alma, a sua inspiradora e propagandista permanente. É neste sentido, sem dúvida, que muitas vezes se lhe chamou deSeção da Iniciativa. Ela criou a Internacional em Genebra, deveria conservar e desenvolver seu espírito. Sendo todas as outras seções corporativas,os operários estão aí reunidos e organizados não pela idéia, mas pelo fato e pelas próprias necessidade de seu trabalho idêntico.  Este fato econômico, o de uma indústria especial e de condições particulares de exploração desta indústria pelo capital, a solidariedade íntima e particularmente os interesses, as necessidades, os sofrimentos, a situação e as aspirações que existem entre todos os operários que fazem parte da mesma seção corporativa, tudo isso forma a base real da sua associação. A idéia vem depois, como explicação ou como explicação equivalente  do desenvolvimento e da consciência coletiva e refletida deste fato (Bakunin, 2002, p. 66).

 

Esta indicação inicial nos permite fazer uma série de inferências importantes, que permitirão uma melhor visualização da questão. Vemos que há uma distinção entre as seções centrais e seções corporativas. Mesmo nas organizações de massa, existe uma distinção entre os núcleos geradores que devem ser também os núcleos duros dos movimentos de massa.

Isto é importante porque contraria certas visões socialistas reformistas e autoritárias, principalmente social-democratas, de que as organizações de massa têm simplesmente caráter reivindicativo (sindicalista ou trade-unionista na linguagem leninista). Na verdade, é possível, e historicamente provado, que a ideologias revolucionárias nascem e se organizam dentro das organizações proletárias e populares. O anarquismo é o melhor exemplo disso.

As seções centrais reuniam exatamente os militantes de vanguarda do proletariado, aqueles que já tinham desenvolvido uma sólida consciência socialista. Vejamos o que mais diz Bakunin sobre as seções centrais:

 

“As seções centrais são os centros ativos e vivos onde se conserva, se desenvolve e se explica a nova fé. Lá ninguém entra como operário especial desta ou daquela profissão; lá entram todos unicamente como trabalhadores em geral, com o fim da emancipação e da organização geral do trabalho e do novo mundo social baseado no trabalho, em todos os países. Os operários que fazem parte dela deixando à entrada sua qualidade de operários especiais ou reais, no sentido de especialidade, apresentam-se lá como trabalhadores em geral. Trabalhadores de que? Trabalhadores da idéia, da propaganda e da organização do poder tanto econômico como militante da Internacional: Trabalhadores da Revolução Social” (Bakunin, o Conceito de Liberdade, p. 142). 

 

Em primeiro lugar, eles deviam dirigir-se as massas em nome de sua emancipação econômica e não da política; primeiro em nome de seus interesses materiais, para chegar mais tarde a seus interesses morais, sendo os segundos interesses coletivos, unicamente a expressão e conseqüência lógica dos primeiros. Eles não podiam esperar que as massas  viessem  procurá-los, tinham de ir procura-las onde elas estão,na sua realidade quotidiana, e esta realidade é o trabalho cotidiano, especializado e dividido em corporações de profissões, já mais ou menos organizado pelas necessidades do trabalho coletivo, em cada industria particular,  para que eles aderissem ao objetivo econômico, a ação comum da grande Associação dos Trabalhadores de todos os paises ...(..) O que quer dizer que a primeira coisa que eles deviam fazer, e efetivamente fizeram, foi organizar, em volta de cada organização central, tantas seções de profissão quantas industrias diferentes existissem.(Bakunin, o Conceito de Liberdade, p. 147-148). 

 

As seções centrais eram compostas de “trabalhadores revolucionários”, ou seja, proletários já adeptos de um projeto revolucionário, aglutinados em tornos de idéias e aspirações determinadas. São estes os que dão inicio a organização de massas. Mas esta organização exige do aderente que ele seja a princípio, trabalhador e não revolucionário. A organização de massas comporta assim em seu interior os núcleos iniciadores que iniciam o trabalhado político de organização e as maiorias que vão aderindo a ela pela luta.

         No entanto existe uma relação dialética entre as seções centrais e as seções de oficio. Uma complementa a outra, e separada elas perdem igualmente sua força revolucionária. Bakunin diz:

 

“Se a Associação Internacional dos Trabalhadores fosse composta somente de seções centrais, ela nunca teria reunido nem mesmo um centésimo do poder que ela agora pode se orgulhar. As seções centrais teriam sido meras sociedades onde se debateria todo tipo de questão social, incluindo naturalmente aquela da organização dos trabalhadores ... (...) A imensa tarefa que a AIT tem se dedicado não é somente econômica ou puramente material. Ela tem, ao mesmo tempo e no mesmo grau, um objetivo social, filosófico e moral. Longe de dissolver-se, as seções centrais precisam perseguir este objetivo e continuar a propagar a nova filosofia social, teoreticamente inspirada pela ciência real -  experimental e racional - baseada nos princípios humanísticos e na harmonia com os eternos instintos de igualdade, liberdade e solidariedade social.(Bakunin, in On Program of the Alliance).

 

Vemos assim que a estrutura orgânica da AIT se expressava em dois pólos antinômicos unidos dialeticamente: a relação contínua de interação entre os dois pólos é que fazia com que a organização de massas não se desviasse da realidade do povo e se esvaziasse e nem que se tornasse uma mera organização corporativa, exclusivamente interessada em melhorias econômicas.

O método materialista de mobilização do proletariado conjugado com uma organização de massas com esta estrutura faz com que o povo eduque a si próprio pela prática. E que através dela desenvolva uma consciência socialista, o que é indispensável para a revolução:

 

“O trabalhador aprende mais a partir de sua própria experiência pessoal do que da explicação verbal dos trabalhadores da mesma categoria, explicações que são confirmadas pela sua própria experiência e pelas experiências de todos os membros de sua seção. (...)

Está claro que somente as seções de ofício podem dar uma educação prática a seus membros e que estas somente podem conduzir a organização das massas proletárias na Internacional, sem a qual a poderosa participação a Revolução Social nunca será realizada.” (Bakunin, in On Program of the Alliance).

 

Tendo agora uma compreensão correta da organização de massas e sua forma de ação e organização, precisamos entender o lugar desta organização na luta revolucionária.

 

8 – O Lugar da Organização de Massas

 

A organização das massas é pré-condição para a política revolucionária. Na concepção bakuninista, a revolução social – o programa da organização política revolucionaria anarquista – só pode ser alcançada pela participação massiva do proletariado. Mas o mesmo método que possibilita a mobilização massiva do proletariado faz com que esta organização não possa cumprir todas as tarefas necessárias a uma revolução.

A Plataforma formula com precisão os contornos fundamentais desta concepção:

 

“A concepção anarquista do papel das massas na revolução social e na construção do socialismo difere-se tipicamente daquele dos partidos estadistas. Enquanto o bolchevismo e tendências afins consideram que as massas possuem somente instintos destrutivos e revolucionários, sendo incapazes de realizar atividades criativas e construtivas - a principal razão pela qual a última atividade deve concentrar-se nas mãos dos homens que formam o governo do Estado do Comitê Central do partido - os anarquistas, pelo contrário, acham que as massas trabalhadoras possuem enormes possibilidades criativas e construtivas inerentes, e os anarquistas desejam suprimir os obstáculos que impedem a manifestação destas possibilidades.

Os anarquistas consideram o Estado o principal obstáculo, que usurpa os direitos das massas e retira delas todas as funções da vida econômica e social. O Estado deve perecer, não "em algum dia" na sociedade vindoura, mas sim imediatamente. Deve ser destruído pelos trabalhadores no primeiro dia de sua vitória, e jamais deverá ser reconstituído usando qualquer outro tipo de falsa aparência. O Estado será substituído por um sistema federalista de organizações dos trabalhadores de produção e consumo, unidas federalmente e autogestionadas. Este sistema exclui tanto as organizações autoritárias quanto a ditadura de um determinado partido, qualquer que seja ele.

A Revolução Russa de 1917 demonstra precisamente esta orientação do processo de emancipação social através da criação do sistema de soviets de operários e camponeses e os comitês de fábrica. Seu triste erro foi não ter liquidado, em um momento oportuno, a organização de poder do estado: inicialmente do governo provisório, e em seguida do poder bolchevista. Os bolchevistas, aproveitando-se da confiança dos trabalhadores e dos camponeses, reorganizaram o estado burguês de acordo com as circunstâncias do momento e, consequentemente, mataram a atividade criativa das massas, através do apoio e da manutenção do estado: que sufocou o regime livre dos soviets e dos comitês de fábrica, o que havia representado o primeiro passo em direção à construção de uma sociedade socialista não-estatal.(A Plataforma, p. 15).

 

Mas se as massas são a força revolucionária, como dissemos, sua organização e método de mobilização possui limitações. Para aglutinar muita gente, é preciso afrouxar os laços ideológicos e “conspirar a luz do dia”, como indicou Bakunin. Isto faz com que somente uma organização política revolucionaria, com coesão ideológica e teórica e capacidade de ocultação seja capaz de dar conta das tarefas revolucionárias publicas e clandestinas tão essenciais.

Na concepção bakuninista, as massas cumprem um duplo papel; elas são a principal força destrutiva da revolução, a essência do poder que destrói o Estado Burguês e o Capitalismo; mas elas são também a principal força construtiva, pois são os organismos de mobilização de massa (soviets, comitês de fabrica e etc) o centro de estruturação dos organismos de poder da nova sociedade. Assim, as massas são o único soberano da sociedade socialista. Estas duas faces, destrutiva e construtiva, são indissociáveis. Por isso a prática política anarquista é indissociável da luta de massas.

 É fundamental distinguir ainda a relação entre determinada organização de massas e a organização política, que acima falamos e delineamos a estrutura, da organização das massas em geral. A FAU formula a distinção entre o que chama de organização de tipo sindical e a organização de tipo de tendência:

 

“Em primeiro lugar convém ter sempre presente que a organização de tendência não equivale a organização gremial, sindical ...

Não há sindicato que possa subsistir muito tempo se abandona a defesa do grêmio que agrupa. Defesa do grêmio em geral e de seus interesses em particular, frente aos patrões e autoridades.

O sindicato está aberto a todos. Entre seus membros há habitualmente as mais diversas opiniões e orientações políticas e ideológicas e é correto que assim seja. Estas distintas opiniões se confrontam dentro da vida sindical e se o grêmio tem – como deve ser – um tipo de organização que reflita com fidelidade a opinião de seus membros, será a orientação majoritária que expressará a opinião do sindicato. É necessário e lógico que nos sindicatos se tratem de temas que vão além da preocupação salarial, da luta econômica. Mas na medida que vão – e vem – mais longe surgem as discrepâncias. Sobre métodos, sobre formas de atuar, e as vezes, inclusive, sobre programas. E todo isto é normal. (...)

O sindicato não pode por isso, ser um alicerce suficientemente sólido para construir, a partir dele,um movimento revolucionário.

Por isso se se quer levar firmemente adiante uma linha conseqüente de ação combativa a nível de massas, além de atuar sindicalmente, é preciso agrupar-se como tendência, o que implica já um primeiro grau de definição, maior que o sindical. (...)

Os sindicatos significam um nível, primário e geral, de ação de massas. As agrupações de tendências coordenadas entre si e enraizadas no conjunto dos setores mais combativos do povo, nos bairros,são um nível superior ao anterior.” (Mechoso,Acion Direta Anarquista, p. 189-192).

 

A organização de tendência é uma organização de massa, mas distinta das organizações de tipo representativo (como os sindicatos). A organização de tendência supõe a aceitação de determinados  métodos de luta, o que as faz mais coesas ideologicamente que as demais. Porém elas são ainda insuficientes. Elas só fazem esta separação necessária de setores das massas da política reformista e reacionária, e dão maior consistência ideológica aos seus membros.

         A organização política revolucionária anarquista precisa gerar um movimento revolucionário. Como é impossível gerar este movimento a partir de organizações de tipo sindical, a organização política tem de agrupar organizações de massa sob a forma de tendência. A organização de massas, de tipo de tendência orientada pela organização anarquista, é o que chamamos de braço de massas[17]. 

A unidade dialética da organização política revolucionária com a organização de massas, se dá através de um continuo processo político, que gera luta e organização, que permite a incorporação progressiva do povo, devido ao seu método materialista e ainda desenvolve a consciência socialista.

 

União Popular Anarquista - UNIPA



[1] Entendemos que esta afirmação á válida tanto para o anarquismo e Bakunin como para a própria história  de Marx e da ideologia comunista por ele desenvolvida. Não pode ser obscurecido o fato de Marx produziu todo o seu pensamento do interior do contexto da luta operária do século XIX e todo o seu pensamento correspondia a demandas colocadas no interior da luta de classes e no interior das lutas de Marx e seus correligionários contra seus adversários no interior do movimento operário. (como o anarquismo, por exemplo).

[2] Bakunin, M. O Conceito de Liberdade. P. 19

[3] Bakunin, M. O Conceito de Liberdade. P. 20

[4] Idem. P. 24

[5] Idem. P. 17

[6] Idem. P 92

[7] Idem. P. 90

[8] Idem. P. 202

[9] Idem. P. 43

[10] Idem. P. 41

[11] Bakunin, Mikhail. O Conceito de Liberdade. P. 45

[12] Idem. P. 51

[13] Idem. P. 144.

[14] Idem. P. 47

[15] O debate em torno da organização anarquista, sua estrutura e funcionamento, teve seus momentos mais importantes e críticos, assim nos parece, nas décadas de 20 e 30, com a polêmica, hoje famosa, entre Nestor Makhno, Piotr Arshinov e Errico Malatesta sobre a “A Plataforma Organizacional”. É preciso contextualizar esta discussão, e vê-la também a luz do desdobramento dos fatos históricos.  Isto é necessário para que não nos deixemos equivocar nas discussões, confundindo a crítica da estrutura interna da organização anarquista, com a crítica da proposta de organização em si. È preciso analisar também as insuficiências e vacilações que contribuíram, num momento decisivo, para a não superação de problemas teóricos e práticos  do anarquismo e da revolução.

O debate em torno da Plataforma Organizacional se inicia com a carta de Malatesta a Makhno, em que comenta e faz uma série de críticas a noção central da Plataforma Organizacional, responsabilidade coletiva. Makhno e o grupo organizado em torno da revista Dielo Trouda respondem a carta, não sem surpresa, diante das críticas feitas por Malatesta e a sua recusa em aceitar a idéia de responsabilidade coletiva. 

 

[16] “Em lugar de absorver os Estados federados ou autoridades provinciais e municipais em uma autoridade central, reduzir as atribuições desta a um simples papel de iniciativa geral, de garantia mútua e de vigilância ...” (Proudhon, Do Princípio Federativo, p.102)

[17] Existem organizações de tipo de tendência independentes ou vinculadas a outras organizações políticas. A noção de braço de massas indica assim a vinculação da organização anarquista a determinadas organizações de massas que seguem sua orientação.