A Ineficácia do “Pacifismo” Reformista

A experiência da Greve dos SPF de 2005

União Popular Anarquista – UNIPA #  Comunicado n º11 – Rio de Janeiro, Janeiro de 2006.

 

         Desde que o Governo Lula/PT foi eleito se tornou gerente da política do liberalismo econômico. As direções das entidades e o movimento sindical-popular em seu conjunto então passam por uma crise. Esta crise tem suas origens em duas raízes históricas: uma é o sindicalismo de estado ou corporativista; outra é o método de luta implementada pelas direções (que se ajustam aos ditames político-ideológicos do sindicalismo de estado e da política de colaboração de classes).

As análises das greves deflagradas no ano de 2005 ajudam a comprovar estas afirmações. Elas foram caracterizadas por entraves, derivados de elementos conjunturais (a ação das forças governistas, CSC, Tribo, DS e outras) dentro dos sindicatos e movimentos, mas também estruturais (o sindicalismo corporativista e: o método de luta “pacifista” das direções sindicais hegemonizadas pelo PSOL e pelo PSTU) .

            A greve da educação federal, liderada pela Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior- Sindicato Nacional (ANDES-SN), Federação dos Trabalhadores das Universidades Brasileiras (FASUBRA) e Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica e Profissional (SINASEFE) durou mais de 90 dias. O movimento grevista, no entanto, não conseguiu construir uma greve unificada e apostou nas negociações em separado com o governo federal. É necessário destacar que as direções sindicais, no ANDES-SN hegemonizada pelo PSOL apostaram claramente nas negociações com o governo, uma vez que o Sindicato já vinha negociando com o MEC. A FASUBRA rachada em dois campos o Governista (Tribo-PT, CSC-PCdoB) e o anti-governista, também seguiu um caminho parecido. O Setor Governista apostou na negociação, que não levou ao reajuste, lembrando que em 2004, a FASUBRA saiu de greve depois de uma negociação com o governo que não cumpriu o acordo. Em 2005, a oposição (Vamos a Luta/PSTU) encampou a Greve, sustentada pela base mesmo com a sabotagem dos governistas, após longo meses de greve e brigas internas na  Federação, foi aceito a proposta do MEC de apenas implementar a 2º fase do Plano de Carreiras, deixando o aumento linear de lado. A postura da FASUBRA acabou prejudicando os servidores técnicos administrativos da base do SINASEFE, uma vez que os professores receberão os 12,5% de aumento no salário base e os técnicos administrativos ficaram sem esse aumento.

            As direções sindicais apostaram em uma greve pacifica e diplomática. O PSTU, que poderia aplicar um método de luta radicalizado não o faz por sua política de aliança com o PSOL, em razão desta sua política de frente eleitoral com o PSOL (o que é utilizado pelo PSTU como argumento para dizer que não há condições para atos radicalizados), mas os problemas são de suas concepções e estratégias políticas, de maneira que a luta fica emperrada e as greves presas a contradições internas.

No primeiro semestre de 2005, o Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica e Profissional(SINASEFE) indicou na plenária da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Serviço Público Federal o indicativo de construção de uma greve unificada dos Servidores Públicos Federais.  A FENASPS lançou uma greve isolada em junho desse ano. Com 80% da categoria em greve[1], aceitou depois de 60 dias uma proposta rebaixada do governo que não garantia a reestruturação do plano de carreira e muito menos o aumento reivindicado. Apesar de apoiar uma greve unificada a Plenária Nacional da FENASPS[2] decidiu por uma greve isolada para conquista do plano de carreira, no acordo com o ministério do planejamento, o plano de carreira vai ser discutido em um GT e começara, caso aprovado, em 2007.

O que ficou evidente dentro em diversos momentos foi à aposta do movimento grevista em uma “greve pacifica” (salvo ações violentas, mas isoladas, como piquetes dentro da greve e ocupações de reitoria, geralmente a revelia das direções sindicais). Há três meses se aposta em um “desgaste do governo” e um “apoio da mídia”, que não traz resultados objetivos.

As ações defendidas pelas direções sindicais, no ANDES-SN, o PSOL, na FASUBRA a oposição Vamos a Luta, privilegiam a ação pacífica e legalista. Nas análises nos comunicados de greve dos sindicatos, não só da educação como de outros setores, as ações privilegiadas são: negociações com parlamentares, acampamentos, vigílias, panfletagens e audiência públicas. Segundo o Dieese[3] das 302 greves que ocorreram em 2004, em apenas 20% foram empregados atos públicos, ocupações, acampamentos, vigílias, passeatas e piquetes.  As direções sindicais e partidos reformistas como PSOL e PSTU vem apostando na mídia para conquistar seus objetivos, ou seja, as ações são direcionadas para os jornais e canais de televisão e não para conquista dos objetivos dos trabalhadores.     

Enquanto pela América Latina, os “piqueteros” no argentinazo de 2001e a COB na Bolívia em 2005, os imigrantes nos subúrbios da França e o próprio MST no Brasil dos anos 90, utilizavam ações diretas (bloqueios de ruas e rodovias, ocupação de prédios públicos durante dias com retenção de autoridades, enfrentamento com os aparelhos repressivos de Estado; manifestações de rua radicalizadas, queima de carros, ônibus e estações de trem) as direções e oposições sindicais, como PSOL e PSTU, apostam nas negociações e condenam essas práticas aqui, mostrando como são apenas retóricas suas exaltações a Argentina, Bolívia e agora a França.

Na última década as perdas do proletariado foram significativas.  O aumento do Proletariado Marginal e sua crescente pauperização são evidentes, o setor “informal” da economia, camelôs, ambulantes, trabalhadores sem nenhum direito trabalhista representam quase 50% da força de trabalho no Brasil. Afetados pelo desemprego, resultado da liberalização da economia brasileira, desde do Governo Collor, e pela burocratização da CUT, basta lembrar que o último “ensaio de greve geral” no Brasil foi em 1989. De 1992 a 1997, o desemprego aumentou e houve redução no número de trabalhadores com carteira assinada, segundo dados do IBGE[4]. Nas regiões metropolitanas, como Belo Horizonte, o índice de desemprego no mês de outubro desse ano chega aos 16%, em Recife chega aos 22%.[5]

Em 2004 o serviço público federal fez 185 greves, 61% do total no Brasil. Dessas, apenas 6,5% tiveram suas reivindicações integralmente atendidas.[6] Não se conseguiu fazer uma greve unificada e a negação do método da ação direta violenta aliada aos problemas estruturais do sindicalismo no Brasil explica este processo, e provam a total falência do pacifismo reformista. O aumento do desemprego, do número de trabalhadores informais e a defasagem salarial de várias categorias, como o Comércio em Belo Horizonte.[7] O proletariado brasileiro vive um momento de retrocesso das suas conquistas.

O método pacifista de luta aplicado nas greves é uma das causas das constantes derrotas que são impostas aos movimentos grevistas. O que o patrão, o governo e empresário tem a perder com greve pacificas, diplomáticas, que não afetam a propriedade privada e a produção/circulação de capital? Essas greves trazem poucas conquistas para as categorias (normalmente, conquistas salariais localizadas) e quase nenhuma para o proletariado em seu conjunto (já que as bandeiras como a redução da jornada de trabalho, para ampliar a oferta de emprego não tem sido encaminhada).

O Sindicalismo Corporativista ou de Estado pode ser identificado como um problema da estrutura organizativa. O “pacifismo” é o método que mais se ajusta a esta estrutura organizativa. A  defesa quase que religiosa da “diplomacia com patrões” e aparelhos repressivos de Estado (na resolução dos conflitos da classe trabalhadora) é uma característica desse tipo de sindicalismo. O pacifismo reformista mostra sua total ineficácia, não leva adiante a luta de classes dentro das categorias e impede um movimento mais forte e unificado. Somente a violência das massas como método de luta é capaz de mudar esse panorama.

Para construir uma alternativa para a classe trabalhadora brasileira, é preciso optar entre duas vias: a da estratégia da ação direta (da qual o centro é a luta dos trabalhadores) ou a estratégia da ação pacifica e legalista (que subordina a luta dos trabalhadores a ação dos Partidos dentro da Democracia Burguesa).  E nesta opção estratégia pelo movimento sindical-popular reside os destinos da classe trabalhadora no Brasil.

A ação direta exige um sindicalismo classista (em termos de consciência e que se materializa um tipo de estrutura organizativa, a organização de baixo para cima  sem regulação estatal); mas exige também um método combativo (ou seja, que postule como centro a violência de massas). Assim, a mesma crítica feita a estrutura do movimento sindical, ou seja, ao seu corporativismo ligado à estrutura sindical varguista (o Sindicalismo de Estado), deve ser feita aos métodos de ação sindical.

A “ação direta” exaltada no plano do discurso será anulada pela estrutura corporativista do sindicalismo e pelo método pacifista aplicado pelas direções (e façamos uma critica justa, acatado quase que sem contestações pelas bases). Quando não se aponta para um novo tipo de estrutura e organização sindical e métodos de luta das massas, a “ação direta” não passará de uma retórica vazia.Assim está mais do que na hora de fazermos uma opção real: ou adotamos a estratégia da ação direta como forma de resistência as reformas liberais de Lula e para luta por vitórias maiores ou teremos de nos contentar com as rebaixadas conquistas corporativas. A Argentina e Bolívia dão o exemplo de que a estratégia da ação direta é única e eficaz.

 

LUTAR PARA ORGANIZAR! ORGANIZAR PARA LUTAR! TODO PODER AO POVO!



[1] Nota do Comando Nacional de Greve da FENASPS, no site: www.fenasps.org.br

[2] A FENASPS, nas resoluções da plenária do dia 23 de abrial de 2005  indica: “1 – A FENASPS está empenhada prioritariamente na construção da Campanha Salarial Unificada dos Servidores Federais organizada pela CNESF e realizará todos os esforços necessários para forjar a unidade;” no entanto três pontos abaixo indica  “A FENASPS, em relação ao Plano de Lutas defenderá a realização de um ou dois dias de mobilização de todos os federais no mês de maio e o indicativo de greve por tempo indeterminado a partir do dia 02 de junho de 2005;
2. - No entanto, considerando a hipótese de não ocorrer um movimento dos federais, capaz de estabelecer uma negociação de conjunto com o governo, a FENASPS trabalhará pela construção da campanha dos trabalhadores da seguridade Social, hierarquizada pela conquista de um plano de carreira;”

[3] - Dados referentes ao Estudo  “Movimento Grevista 2004” realizado pelo DIEESE.

[4] - Dados referentes a pesquisa do IBGE “ Mapa do Mercado de Trabalho no Brasil”, encontrado no site www.ibge.gov.br

[5] Dados referentes a pesquisa mensal de emprego do DIEESE.

[6] - Dados referentes ao Estudo  “Movimento Grevista 2004” realizado pelo DIEESE.

[7] Dados referentes a pesquisa Mensal de Emprego do DIEESE.