Balanço
Político da Conjuntura
O II Encontro da CONLUTAS
e o processo de reorganização do proletariado no Brasil
Comunicado
da União Popular Anarquista UNIPA # n º09 – Rio de Janeiro, Setembro de 2005
1 – A Crise do Governo: nem golpe de direita, nem crise
moral.
Este texto visa fazer um balanço
político da conjuntura brasileira, levando em conta principalmente o processo
de reorganização do proletariado brasileiro, entendido como os esforços de
romper com as entidades e a política geral atrelada ao “governismo”,
ou seja, as forças hegemonizadas pelo PT/CUT e outros setores com as mesmas propostas
programáticas.
Neste sentido, iremos analisar
rapidamente a crise do “Governo Lula” (iniciada pelas denúncias de corrupção
conhecidas como “Mensalão”) e a Marcha e II Encontro
da Conlutas, realizadas em Brasília respectivamente
nos dias 17 e 18 de agosto de 2005. É dentro desta conjuntura que se desenrolam
fatos e tendências fundamentais para os destinos da sociedade brasileira, e em
especial do proletariado.
Primeiramente, devemos caracterizar
a situação política no Brasil: o conjunto do movimento sindical-popular
encontra-se dividido em dois grandes campos: o campo governista,
compreendido pela CUT, UNE, CMS e PT (e outros partidos, como o PC do B), que
defendem a política global do governo (incluindo as reformas sindical,
trabalhista, universitária e etc) e o campo anti-governista,
composto principalmente por partidos reformistas, o PSTU e o PSOL, e com
presença muito minoritária, pelos grupos que se consideram – e podem ser
considerados em um sentido – como revolucionários. Este campo anti-governista é heterogêneo, mas é hegemonizado
pelo PSTU, seguido em influencia, pelo PSOL. Como parte da luta contra o
Governo, foi proposta à nível de massas, a formação da
CONLUTAS (Coordenação Nacional de Lutas), que realizou dois encontros nacionais
em 2005 (janeiro e agosto).
A atual “crise do Governo Lula”, eclodiu então em meio a um processo embrionário de ruptura
com as entidades e a política global do governismo do PT. Esta crise foi interpretada,
principalmente, de duas maneiras: 1) como um “golpe das elites”, interpretação gestada no interior do Governo como estratégia de defesa e
sustentada pelos setores governistas do movimento
sindical-popular; 2) como uma “crise exclusiva do Governo Lula”, interpretação
sustentada basicamente pela “oposição burguesa”.
Na verdade, tal crise deve ser
entendida fundamentalmente como um processo de luta intra-classes,
ou seja, uma luta entre diferentes setores da burguesia, por espaços de
poder dentro do aparelho de Estado. Este é o entendimento da UNIPA (ver Tese ao II Encontro da CONLUTAS), de
maneira que tanto a tese do “golpe de direita” dos governistas quanto à tese da
“crise do Governo Lula” da oposição burguesa, não se sustentam na realidade,
servindo apenas aos interesses dos Partidos na luta pela sucessão presidencial
que já se iniciou.
No entanto, a crise enquanto
acontecimento, precipitou reações no campo anti-governista.
O PSTU, força hegemônica no CONLUTAS, antecipou a Marcha do CONLUTAS (prevista
para setembro de 2005) para agosto, colocando em seu eixo além da luta contra
as reformas, a luta contra a corrupção. O II Encontro do CONLUTAS foi realizado
dentro deste momento histórico.
A realização da Marcha contra “a corrupção, as reformas e a política
econômica do Governo Lula”, e o II Encontro do CONLUTAS realizadas em
Brasília, merecem ser considerados a luz do seu significado histórico. A Marcha
contou com a presença de cerca de 15.000 pessoas (trabalhadores, principalmente
funcionalismo público, estudantes e jovens, e alguns movimentos populares)
segundo a imprensa, e 30.000
segundo estimativas dos organizadores (ANDES, SINASEFE, CONLUTAS,
FENAFISCO, FENAFISP, FENAL, FENASPS, FNTIG, FSDMG, MTL, VAMOS À LUTA/FASUBRA). A concentração foi realizada às 10hs da
manhã, na Catedral de Brasília, próxima a esplanada dos ministérios, e partiu
por volta das 11hs da manhã. Estavam presentes na marcha também alguns Partidos
Burgueses (PPS, PDT, e PRONA, estes dois últimos, inclusive, com carros de
som).
O “II Encontro da CONLUTAS” realizado dia 18 de agosto, teve como
pauta a avaliação da Marcha/Conjuntura na parte da
manhã e I Congresso (incluindo critérios para tirada de delegados, local e
etc), na parte da tarde. Contou com a presença de 1.700 pessoas, cerca de 80
entidades sindicais, 15 oposições sindicais, e pouco menos de 10 “movimentos
sociais”. Durante o Encontro, foi feita uma avaliação da Marcha e foram discutidos
os critérios para o I Congresso do CONLUTAS (que será realizado em abril de
2006). A realização da Marcha e do Encontro, marcam a
efetivação do processo de ruptura com as entidades governistas (CUT e UNE,
especialmente). Do ponto de vista organizativo, a CONLUTAS é a única
alternativa real colocada até agora. A questão é, qual o caráter da CONLUTAS?
Qual o seu destino? Que tarefas poderá cumprir? Qual
as contradições objetivas e subjetivas do seu processo de constituição? Qual o
significado histórico que a CONLUTAS tem e pode ter para as lutas do
proletariado brasileiro?
2 - Os
Destinos da CONLUTAS e do movimento sindical-popular
É importante analisar
o significado da Marcha e do Encontro a luz de alguns
fatos e processos. Em primeiro lugar, Marcha e o Encontro marcam a afirmação
de uma proposta nacional de alternativa ao governismo.
A CONLUTAS começa a se firmar enquanto uma proposta de ruptura com o governismo. Mas é importante indicar que a CUT não está
“morta”. A disputa está apenas começando. Ficou nítido também que fora do
âmbito do CONLUTAS, não existe nenhuma proposta de organização ampla do
proletariado que aponte para a ruptura com o governismo
(se fala em uma Assembléia Nacional Popular, convocada por
setores da “Igreja Católica”).
Do ponto de vista
histórico, a importância deste momento é exatamente a consolidação de uma
proposta de alternativa de reorganização do proletariado. O debate político nas
bases do movimento sindical-popular, a crítica prática das reformas do Governo
Lula e dos métodos e via reformista, é um elemento fundamental deste processo,
assim como o objetivo de aumentar a intensidade da luta de classes no país. Mas
é preciso fazer uma consideração realista sobre este processo, indicando suas
possibilidades e limites. Iremos indicar aqui algumas contradições fundamentais
que irão marcar o desenvolvimento do processo de construção do CONLUTAS.
Num primeiro nível,
podemos indicar que existe uma primeira contradição entre o
discurso que anima a formação da CONLUTAS e aspectos práticos fundamentais. A
contradição entre a proposta de não reproduzir “a CUT”, e as formas adotadas
para a construção do CONLUTAS.
Uma primeira
contradição fundamental reside entre o “discurso que aponta para a construção
de uma central de sindicatos e movimentos populares”, e a real composição do
encontro. Segundo os dados, foram oitenta sindicatos, uma
dezena de oposições sindicais, somados a menos de dez movimentos
populares, tendo cerca de 1.700 inscritos segundo dados da CONLUTAS. Logo,
apesar de se apontar para uma “Central Geral”, na prática o
que ocorreu foi um encontro majoritariamente “sindical”, com poucos estudantes
(já que o CONLUTE fez seu encontro em separado), e especialmente, de entidades
sindicais do funcionalismo público. Do ponto de vista “partidário”,
aproximadamente 70% dos presentes no Encontro estavam na órbita do PSTU,
25% do PSOL e os 5% restantes, na dos “independentes, revolucionários e outras
tendências”.
Uma segunda contradição, diz respeito ao
discurso acerca da “estratégia central a ser adotada como base de estruturação
do CONLUTAS” e os meios efetivos empregados. O PSTU trabalhou durante bastante
tempo à adesão do PSOL e suas bases ao CONLUTAS. De fato o PSOL (ou alguns de
seus setores) aderiram ao CONLUTAS, mas ao mesmo tempo, levando para dentro
dela a idéia de que “a via reformista” ainda deve ser a principal, ou seja, que se “deve
investir nas eleições burguesas, na convocação do impeachment de Lula e coisas
afins”, por exemplo. O PSTU, apesar de anunciar a critica da “democracia
burguesa” e conclamar a “ação direta das massas”, teve posições ambíguas em
diferentes momentos ao longo do ano (como no 1º de Maio no Rio de Janeiro,
quando abriu mão do ato classista para “compor” com o PC do B uma frente contra
a reforma sindical, que não durou pouco; e articulação da participação do PPS,
PDT e PRONA na Marcha da CONLUTAS). Estas articulações “táticas” afetam
diretamente a composição interna do CONLUTAS, levando forças que tem uma clara estratégia reformista, pautada na disputa dentro
dos marcos da democracia burguesa. O “estado de espírito” é então um estado de
espírito extremamente “legalista”, como foi visto durante a Marcha (um exemplo
foi a declaração de um representante de uma entidade no carro de som,que afirmou que violência e radicalização seria atos de
“provcadores”) .
O PSTU também tem
priorizado as ações de cúpula (ações da Coordenação Nacional) da CONLUTAS,
desrespeitando inclusive deliberações do Encontro de Rio Grande do Sul. Isto
marca um contraste entre o “discurso” e a prática. Ou seja, se quer construir
um “movimento de base” mas se toma métodos de cúpula,
e se indica o privilegiamento da ação direta, mas os
critérios para eleição de delegados de Congresso priorizam mais as entidades
que a classe em luta. É interessante que
a proposta de critérios para eleição de delegados para o
Congresso apresentada pelo PSTU (que dá mais peso a direções de
sindicatos que a oposições sindicais), é muito parecida com uma proposta que a Articulação/PT, apresentou e aprovou no III Congresso da
CUT em 1988, marco inicial da burocratização desta central). Apesar de critica
a “democracia burguesa”, o PSTU investiu bastante na aliança com o PSOL, que
tem um projeto claramente “eleitoreiro”, e visa subordinar a luta de massas a
esta estratégia reformista. Além disso, a priorização das articulações pela
cúpula (na construção da CONLUTAS pela Coordenação Nacional) sem uma construção
efetiva das CELUTAS (as estaduais da CONLUTAS), já demarca um perigo de “verticalização” da CONLUTAS ainda no nascedouro.
O setor majoritário e
hegemônico do CONLUTAS desta maneira se move sobre algumas contradições (ambas
simultaneamente objetivas e subjetivas), que é a contradição entre a idéia de
uma central de classe que reúna diversos setores do proletariado e sua
composição social real, e outra, que é o discurso da “ação direta” a composição
na prática com setores que investem prioritariamente na democracia burguesa,
por exemplo. E como diz a teoria bakuninista, a ação
faz o ser; qualquer coisa não é senão o que ela faz; sem uma prática da ação
direta e da mobilização de baixo para cima, não se estará rompendo efetivamente
com o modelo corporativista de mobilização.
Uma terceira contradição é a do “campo revolucionário”,
que compreende as organizações que se auto-definem
como revolucionárias, e que corresponde ao setor “minoritário” do encontro,
composto por grupos marxistas e trotskistas em sua maioria. Este campo
heterogêneo, não teve mínimas condições de se articular e apresentar uma
proposta de contraposição realista as propostas do setor majoritário.
Apresentaram diversos erros de “método de intervenção” (obstruindo falações,
atropelando a pauta, abusando de “questões de ordem e encaminhamento” para fazer
defesa de posições políticas), “quebra de ética na discussão” (fazendo
acusações graves sem apresentar fundamentações em provas), problemas de
concepção política que se traduziam em posições políticas “vanguardistas, voluntaristas e irrealistas”, como a defesa da
realização de uma “greve geral” imediatamente, que vários grupos sustentaram.
Nenhum destes grupos realizou uma análise concreta da realidade, das condições
de luta, da composição real do encontro, de sua força e debilidade efetiva. Ou
seja, o “campo minoritário” não teve
maturidade para formular e apresentar nenhuma proposta alternativa ao “campo majoritário”. As poucas
organizações que tinham uma análise mais ponderada do processo não tiveram
condições de intervir decisivamente no rumo dos acontecimentos devido à
correlação de forças (como a UNIPA e o CPR).
Estas Contradições
irão marcar o destino do CONLUTAS. É preciso dizer que os traços fundamentais
do processo já estão basicamente delineados. A hegemonia do PSTU, tanto na
direção dos aparelhos quanto na
base, implica que a direção histórica do movimento proletário está nas mãos de
um partido que está no campo reformista, em composição com outro partido, o
PSOL, também reformista. Por outro lado, os grupos revolucionários precisam se
constituir enquanto alternativa real em meio a este processo, o que não foram,
no II Encontro do CONLUTAS.
Podemos dizer que a
partir destas considerações, é possível indicar algumas tendências possíveis
para o processo de reorganização do proletariado e de formação do CONLUTAS.
Podemos dizer o momento compreendido entre o II Encontro
(agosto de 2005) e o I Congresso (abril de 2006) será decisivo.
1º) a CONLUTAS será possivelmente, uma alternativa para romper com o governismo, mas não se constituirá numa central de tipo
sindicalista revolucionária, ou seja, que rompa com o modelo corporativista.
A composição real do I Encontro da CONLUTAS e as forças políticas
hegemônicas nele, indicam exatamente isso. A CONLUTAS
representará uma ruptura com o governismo, mas não
representará uma ruptura com modelo reformista de luta de massas.
2º) a CONLUTAS será possivelmente, uma Central Sindical, mesmo que aberta
formalmente, a movimentos populares. Isto porque, para que ela se
tornasse isso, seria fundamental investir num trabalho de base junto a tais
movimentos, e também um trabalho no campo, junto ao movimento camponês.
3º) a CONLUTAS cumprirá possivelmente, a tarefa de desgastar parcialmente o
modelo reformista, e criar um meio sindical menos atrelado ao governismo e a política burguesa, impulsionando as
lutas contra as reformas liberais e o modelo econômico.
Isto significa que os
destinos, o caráter e as tarefas da CONLUTAS no processo de reorganização do
proletariado brasileiro, vigentes em meio a
contradição histórica entre “governismo X anti-governismo”, já estão basicamente delineados.
Porém, é possível ainda que hajam alterações devido a quatro fatores: 1) a
mudança global de orientação dos Partidos (PSTU e PSOL); 2) a lutas internas
dentro dos Partidos (entre “direção e base” ou entre tendências que possam ir
mais a esquerda que a linha oficial); 3) a emergência de novos atores e fatos
sociais, como a eclosão de mobilizações e lutas “espontâneas”, que confluam
para dentro do CONLUTAS; 4) a intervenção e trabalho político localizado de
forças políticas minoritárias, desde que estas tenham propostas realistas e uma
ação conseqüente.
A UNIPA entende que a
CONLUTAS neste momento, pode ser ainda uma ferramenta
fundamental para a re-organização do proletariado brasileiro, mesmo com as
contradições indicadas acima. E exatamente por existirem estas contradições,
existe ainda um espaço de disputa (propaganda e agitação) a ser explorado pelos
revolucionários. A ação da UNIPA neste contexto tem como objetivo: 1)
fortalecer as lutas contra o governismo e
liberalismo; 2) desgastar a via reformista; 3) se fortalecer enquanto
organização e dar visibilidade a sua proposta política. Neste sentido,
entendemos que é preciso neste momento: 1) intervir no processo de construção
do CONLUTAS, através da Construção da CONLUTAS pela base; as
Coordenações Estaduais, e dentro desta, a organização por local de trabalho,
estudo e moradia; 2) apontar que sem a destruição do sindicalismo de estado/corporativista, sem a qual é impossível criar no
médio prazo uma alternativa real para os trabalhadores. Isto significa que
antes de tudo, a estratégia adotada deve ser a ação direta das massas, e
processo democrático, de baixo para cima, e não de cima parabaixo.
Com relação as nossas propostas para o CONLUTAS, elas estão mais desenvolvidas
no texto “As Reformas do Governo Lula e as Tarefas do Proletariado”. È preciso dizer que este apoio a UNIPA a CONLUTAS se pauta
na analise de que de ela pode cumprir determinadas tarefas históricas (como o
aumento do nível da luta de classes), e é somente enquanto esta proposta puder
cumprir tais tarefas, iremos apoiá-la.
É preciso fazer uma
profunda reflexão sobre as causas e a responsabilidade dos trabalhadores no
processo de degeneração da CUT e do PT (que os levou a serem um instrumento
servil nas mãos da burguesia). Por isso, conclamamos todos os sinceros
ativistas em sindicatos, partidos políticos e movimentos sociais a pesar estas
reflexões. É fundamental não permitirmos a burocratização e introdução da
política burguesa em nosso meio sindical-popular, como aconteceu no passado,
sob pena de paralisar as lutas do proletariado nesta conjuntura tão grave.
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