Em defesa da Autodefesa1
O massacre de Nova Iguaçu/Queimados
e a Organização do Proletariado.
Comunicado nº 07 #
Abril de 2005 - UNIPA/ União Popular Anarquista
www.unipa.cjb.net
– unipa_net@yahoo.com.br
1 – Violência e Controle Social no Brasil.
No
dia 31 de março de 2005, nas cidades de Nova Iguaçu e Queimados, estado do Rio
de Janeiro (na região chamada de Baixada Fluminense), um massacre foi realizado
por um “grupo de extermínio”, composto por policiais militares, deixando 30
mortos. A razão: disputas de poder dentro do batalhão policial As vítimas:
membros da população pobre e trabalhadora que estava circulando nas ruas,
passando “no lugar errado, na hora errada”. Os “alvos” foram selecionados
aleatoriamente pelas ruas, bares e comércios em geral, onde havia movimento de
pessoas. Diversas crianças foram assassinadas no massacre.
Os massacres cometidos
por policiais militares, se tornaram práticas rotineiras no Brasil, tanto no
campo quanto na cidade: Carandiru (São Paulo, 1992), Vigário Geral (Rio de
Janeiro, 1993), El Dorado
dos Carajás (Pará, 1995), Corumbiara (Rondônia,
1996), e neste ano de 2005, Goiânia e Baixada Fluminense (Nova Iguaçu/Queimados). Somando as vítimas de todos estes
massacres, mais de 1000 vidas foram eliminadas pela tirania policial.
Esse mais recente
massacre perpetrado por forças para-militares no Brasil, no Estado do Rio de
Janeiro, exige um posicionamento firme dos revolucionários. Não uma condenação
genérica. Não apelos evasivos. Mas uma abordagem compreensiva da Questão
da violência, e sua relação com a Questão Social e o
problema do poder no Brasil.
2 – A Luta de Classes e os Esquadrões da
Morte.
Primeiramente,
devemos observar o caso do Rio de Janeiro, como um caso exemplar da autonomia
relativa do “campo repressivo” na sociedade brasileira. Esta autonomia relativa
é o produto de uma necessidade histórica da burguesia, e tem suas origens num
contexto bem definido: as décadas de 1950 e 1960 marcam o momento de surgimento
e proliferação dos “esquadrões da morte”.
Estes esquadrões da morte, hoje chamados grupos de extermínio, foram criados
nos aparelhos repressivos de Estado, por iniciativa informal de policiais, sob
argumento de “combate ao crime”. Desde o início, exerceram um forte controle
sobre a população pobre das favelas e das então áreas rurais da Baixada
Fluminense. Estiveram sempre vinculados também à disputa política local,
servindo como instrumento de força para eliminação de adversários.
Na
década de 1960, no entanto, este tipo organização
para-militar, criada para o exercício de um controle social difuso, se
tornou fundamental para o combate ao movimento popular
(operário-camponês-estudantil) e depois, às organizações revolucionárias que
lançaram a guerra de guerrilhas contra a ditadura. A defesa da propriedade
privada, da desigualdade econômico-social, e da hierarquia de poder, precisou
de maneira muito direta dos “esquadrões da morte” e da organização
para-militar.
A estrutura policial
repressiva criada durante a Ditadura (1964-1989), recebeu total aval para seus
crimes, e teve garantida sua impunidade com a “anistia
ampla, geral e irrestrita”, dada pelo Estado a seus funcionários responsáveis
por assassinatos, torturas e desaparecimentos. Isto significa que a
“impunidade” não se deve a falta de moralização do aparato policial, mas sim a
uma necessidade imposta pela dinâmica da luta de classes à burguesia. Ela
precisa deste aparato policial-repressivo, para defender a propriedade privada
e os interesses do capital. O caso do massacre de trabalhadores durante o
despejo de uma ocupação em Goiânia, e a impunidade dos policiais envolvidos, é
mais um exemplo que confirma isso.
A violência social
difusa, com ciclos de massacres como vemos testemunhando desde os anos 1990, é
um efeito colateral desta estratégia burguesa. É também uma estratégia de
controle micro-político e de fragmentação do proletariado. Devemos lembrar que
neste processo de crescimento da violência (promovida pela organização policial
e quadrilhas de crime organizado), 350 líderes comunitários foram assassinados
no Rio de Janeiro entre 1992 e 2001 (segundo dados da Comissão Contra a
Violência da Alerj).
Neste sentido, o
problema da violência, está diretamente vinculado ao problema do poder na
sociedade brasileira. Os altos índices de assassinatos, que afetam principal e
fundamentalmente a classe trabalhadora, são o produto da ação de grupos
para-militares, mas que só existem devido ao suporte logístico dos aparelhos
repressivos de Estado e às necessidades da burguesia defender seus privilégios.
Logo, não podemos observar estes massacres sem considerar seu significado
social e político.
Isto porque estes
mesmos “grupos de extermínio” serão utilizados (como já foram no passado e são
hoje) para desarticular e reprimir as organizações e as lutas da classe
trabalhadora. A questão da violência no Brasil está necessariamente vinculada à
luta de classes. E portanto, somente a luta de classes é capaz de resolvê-la.
3– Preparar a Autodefesa de Massas.
A solução postulada pela burguesia em todos os massacres se resume a uma
ladainha hipócrita em favor da “moralização da polícia” e do “controle civil”.
Estas soluções não se realizam, porque o problema da violência policial não tem
sua origem na moral, mas nos interesses de classe a que esta violência atende,
e na força material da organização repressiva. Logo, a impunidade e os
massacres irão continuar.
A única alternativa para os trabalhadores pobres, os negros e pardos, que são
as principais vítimas da violência policial, é a organização para
autodefesa. O proletariado precisa defender-se da violência, através da
formação de grupos de autodefesa que possam opor uma forte resistência à
violência policial nos seus locais de moradia, para evitar acontecimentos como
os de Nova Iguaçu e Queimados.
Os grupos de autodefesa contra a violência policial e também às quadrilhas de
criminosos, serão compostos por trabalhadores e trabalhadoras, organizados
localmente e controlados democraticamente. Estes grupos devem assumir a função
de defender a vida dos trabalhadores e os seus direitos civis (liberdade de
organização, expressão), que são tolhidos pela violência policial.
A punição dos culpados
pelos massacres e violências contra o povo, só será realizada pela pressão
popular, das famílias das vítimas e de todos os trabalhadores. Mas para que
esta organização seja possível, é preciso que os lideres comunitários tenham
uma real garantia de vida. Por isso a autodefesa se torna uma necessidade, e em
certos contextos, pode ser pré-condição
para a própria organização popular e luta
reivindicativa.
Logo, a formação de grupos de autodefesa, que atendam a uma necessidade
imediata, tem também uma função importantíssima na organização ampla do
proletariado, e na construção do poder popular. Por isso propomos, como ações
que visam solucionar, do ponto de vista proletário, a questão da violência, o
seguinte: 1) Formação de grupos para autodefesa do proletariado, para resistir
à violência dos aparelhos repressivos de Estado e grupos para-militares; 2)
Retaliação como política; a cada massacre realizado contra o povo deve-se
promover um ataque contra o direito de propriedade” (destruição
de ônibus, prédios, viaturas do Estado e etc); 3) Construção de organizações de
solidariedade e luta reivindicativa que tenham o papel de dirigir/orientar
os grupos de autodefesa; 4) Mobilização pela defesa dos direitos civis e
humanos e para a punição exemplar para todos os envolvidos nos massacres.
Mão estendida ao
Companheiro, Punho cerrado ao inimigo!
Classe Trabalhadora:
Defenda-se!!!
1 “Em defesa da
Autodefesa”, é também o título de um texto escrito em 1968, por HUEY NEWTON, um
dos líderes do Partido dos Panteras Negras para
Auto-defesa, organização de luta dos
trabalhadores negros dos EUA.