Lutar Contra o Imperialismo e o Reformismo:
os primeiros passos para
a construção da revolução socialista
Comunicado nº 05 –
fevereiro de 2005 – UNIPA – União Popular Anarquista – www.unipa.cjb.net
# unipa_net@yahoo.com.br
Carta
aberta a todos os povos que lutam.
O ano de 2004
foi marcado pela consolidação de dois mecanismos fundamentais para a manutenção
da dominação burguesa em escala global: o Imperialismo das potências
centrais e o Reformismo em países periféricos. As invasões do
Afeganistão e do Iraque pelas forças imperialistas, os planos militares dos
Estados Unidos para a América Latina e Caribe são provas de que a violência é a
regra na defesa dos interesses da burguesia. Por sua vez, a proliferação de
governos de partidos reformistas de base operária e popular na América Latina
mostra que as forças burguesas optaram por um novo (no que diz respeito às
experiências latino-americanas) mecanismo de dominação. É imprescindível para
as organizações revolucionárias o entendimento das relações de
complementaridade existentes entre o Imperialismo e o Reformismo na
recomposição da ordem mundial capitalista.
Não há dúvidas de que a história do
desenvolvimento capitalista é a história da expansão da dominação imperialista,
desde o processo de colonização do final do século XV até a globalização
econômica do início do século XIX. Com o processo de descolonização africana e
asiática, com a “redemocratização” da América Latina e, principalmente, com o
fim da Guerra Fria, muitos analistas, de forma precipitada ou
ideologicamente orientados, afirmaram que a globalização do sistema
capitalistas atingiu um nível de desenvolvimento onde o uso de exércitos
invasores não se fazia mais necessário. Esses intelectuais deslumbrados com a
globalização defendiam a tese de que a dominação migrou exclusivamente para o
campo econômico; como se fosse possível separar domínio econômico da violência
física.
A invasão do
Afeganistão e posteriormente a invasão do Iraque pelos exércitos burgueses,
liderados por George W. Busch e seus aliados, jogaram por terra as teses de um sistema de dominação que
dispense o uso de força militar. Chega ser infantil os esforços de explicar os
conflitos em termos de “choques de civilizações”. Uma simples análise dos
números que o Oriente Médio é responsável por 64% das reservas mundiais de
petróleo, enquanto a soma das reservas da América do Norte e da Europa
Ocidental representa apenas 5% da reservas; entretanto os dois últimos consumem
juntos 44% do petróleo produzido (Fonte: SIEE - Sistema de Información Econômica Energética, 2002). Diante desses
números ficam nítidos os interesses econômicos das potências capitalistas sobre
o Oriente Médio.
O peso econômico
da região é ampliado quando se destaca o projeto para interliga-la com outras regiões igualmente ricas em
petróleo e gás: a Ásia Central e o Cáucaso, em especial os países da bacia do
Cáspio (Azerbaijão, Irã, Cazaquistão e Turcomenistão).
As maiores empresas petrolíferas norte-americanas, como a Texaco
e a Chevron, exploraram o petróleo e o gás dos países
dessas regiões através de acordos econômicos que favorecem apenas as primeiras.
O Irã é exceção na região.
Se George W. Busch
e a extrema direita estadunidense utilizaram como pretexto os ataques ao World Trade Center
para as invasões do Afeganistão e do Iraque, os votos de 59 milhões de
norte-americanos (51% dos eleitores daquele país) garantem a W. Busch a legitimidade necessária para continuar com sua
escalada militarista. Com as ações militares no Oriente Médio W. Busch consegue se tornar o grande nome da burguesia
internacional. Agora, de posse de um importante capital político: o apoio
maciço do conservadorismo estadunidense, ele irá direcionar suas baionetas para
outras regiões e países como deixou explícito em seu discurso de posse. Agora o
discurso não a “luta contra o terrorismo”, as próximas invasões e massacres
serão feitos em nome da “defesa da liberdade”. Se nos séculos XIX e XX a expansão
imperialista neocolonial era legitimada pelo falso discurso de “levar a
civilização aos povos selvagens da África e da Ásia”, hoje a expansão neoimperialismo é mascarada pela “luta contra a tirania”.
No Oriente Médio o Irã é, certamente, o próximo alvo das forças
imperialistas. Entretanto, antes do ataque ao governo dos yatolas,
a “pacificação” do Iraque, a partir da eleição do presidente fantoche Iyad Allawi, tal qual o Hamid Karzai (atual representante
dos EUA no Afeganistão), e a destruição das forças de resistência, é a
prioridade número um de Busch. Entretanto, os
esforços de “pacificação” são inúteis, o povo iraquiano, mesmo em pequenos
grupos, continuará resistindo às tropas invasoras.
Ainda no que diz respeito aos interesses da burguesia sobre o
Oriente Médio, é importante destacar a guerra entre os palestinos e o Estado de
Israel, pois a questão palestina é central para a instabilidade política da
região. Por isso, os EUA e a UE se esforçaram em minimizar os efeitos da morte
de Yasser Arafat, que muito provavelmente foi
assassinado por envenenamento pelo governo israelense. Do mesmo modo todo o esforço necessário foi
feito para a eleição do moderado Mahmoud Abbas para o cargo de presidente da Autoridade Nacional
Palestina. Mahmoud Abbas e Ahmed Qorei mostraram-se
alinhados aos EUA e a Israel quando condenaram as ações armadas dos grupos
guerrilheiros Hamas, Jihad
Islâmica, Resistência Popular Palestina, entre outros. O objetivo de homens
como Abbas e Qorei é a
construção de um país independente com o beneplácito dos Estados Unidos, para
que eles se tornem elite burguesa local.
É importante lembrar que a Rússia e a União Européia (UE) também
têm interesses na região da bacia do Cáspio e, por extensão, no Oriente Médio. Às
vezes os interesses das potências imperialistas entram em choque, por isso,
Rússia, UE e EUA têm disputas pontuais na região. Dois exemplos ilustram
algumas dessas divergências: primeiro as invasões estadunidenses diminuíram a
influência de França e Alemanha no Oriente Médio; o segundo exemplo foi a
recente disputa eleitoral na Ucrânia, onde Viktor Yanukovych, candidato governista apoiado por Moscou, foi
derrotado por Viktor Yuschenko,
candidato liberal de oposição apoiado pela UE.
A vitória de Yuschenko na Ucrânia
significou mais um importante passo na expansão imperialista da UE no Leste
Europeu (o primeiro foi a incorporação de dez novos
países no Bloco Econômico). Assim, além da garantia de mão-de-obra barata, as
potências européias mantêm na sua órbita um corredor que une a Europa Ocidental
ao Oriente Médio e à Ásia Central.
No projeto burguês, democratizar é
igual a manter as nações sob o controle das potências imperialistas a partir da
invasão militar; escolher um governo é atribuir legitimidade a um fantoche das
potências imperialistas. O jogo “democrático eleitoral” não passa de uma farsa
para mascarar as arbitrariedades, a exploração e a opressão a que estão
submetidos os povos do Hemisfério Sul.
Voltando nossos olhares a América Latina, não podemos esquecer
que nosso continente encontra-se na lista de prioridades da burguesia
estadunidense. No atual sistema-mundo, o continente latino-americano é um
grande fornecedor de recursos minerais e fósseis, de matérias primas, de
gêneros agropecuários, de bens industrializados de baixa tecnologia, de
mão-de-obra barata e de mercado consumidor. O que não faltam são motivos
econômicos para a exploração da América Latina.
Se na segunda metade do século XX o povo latino-americano sofreu
com a ascensão de ditaduras militares orquestradas pelos EUA, no início
do século XXI a ascensão de governos reformistas alinhados com os
ianques é a regra geral. As ditaduras militares tiveram um papel fundamental de
destruir as forças revolucionárias latino-americanas no período da Guerra Fria,
garantindo o controle político-econômico sobre a região. As ditaduras criaram
as condições para a introdução das políticas neoliberais que produziram um
agravamento da miséria e das desigualdades sociais na América Latina.
Conseqüentemente, houve um aumento da instabilidade política e social,
entretanto, os levantes indígenas do Equador e da Bolívia e o Movimento Piquetero da Argentina não conseguiram superar as barreiras
criadas pelos partidos reformistas.
As décadas de repressão foram eficientes, por isso, as revoltas
populares desse início de século estão carentes de um direcionamento
revolucionário. Os organismos populares são pressas fáceis para a cooptação reformista. Assim, diante da crise social,
governos de Lucio Gutierrez (Equador), Tabaré Vázquez (Uruguai), Carlos Mesa (Bolívia), Luís Inácio Lula
da Silva (Brasil), Nestor Kirchner (Argentina),
tornaram-se as melhores opções para a sustentação do capitalismo na América
Latina, pois os reformistas atraem os movimentos sociais para a burocracia
estatal. A estratégia reformista está conseguindo acorrentar as forças
populares, garantindo a manutenção e consolidação das reformas neoliberais.
Portanto, o reformismo é um instrumento de colaboração de classes, isto é,
possibilita o colaboracionismo entre os trabalhadores e a burguesia, pois as
entidades representativas dos primeiros são atraídas para o posto de
co-gestoras do sistema capitalista. Na prática, o reformismo torna os
trabalhadores participes na gestão do sistema que os explora.
O desejo de explorar o povo e as riquezas latino-americanas
provoca disputas entre as potências imperialistas. É o que observamos nos
esforços da União Européia e da China para consolidar acordos econômicos com os
países da América Latina. Acordos obviamente que beneficiam apenas os
primeiros.
A invasão militar imperialista na América Latina está mascarada
pelo Projeto Iniciativa Andina, ou seja, ações militares nos países andinos e
na Amazônia Internacional com o pretexto de combater o tráfico de narcóticos.
Mas todos sabem os reais objetivos da Iniciativa Andina: combater as forças
guerrilheiras colombianas, reprimir possíveis levantes armados na região e
tencionar conflitos com a Venezuela. Em relação a esse último país, o maior
produtor de petróleo da América Latina, a tentativa de autonomia na
comercialização do combustível fóssil pleiteada pelo grupo burguês representada
por Chávez atrai as garras imperialistas para o país,
por isso, novas tentativas de golpe e/ou invasões
militares são muito prováveis. Outra preocupação é a situação do povo cubano,
pois George W. Busch já grunhiu aos quatro ventos sua
intenção de invadir a ilha.
O reformismo também serve para fazer o trabalho sujo das
potências imperialistas: o governo Lula, buscando realizar o
antigo sonho dos militares de 64, cumpri seu papel sub-imperialista
invadindo o Haiti. Com a ação militar no Haiti o reformismo petista não deixa
dúvidas da sua continuidade do projeto iniciado em 64, não só de alinhamento
com as potências capitalistas, mas também de converter o Brasil em potência
imperialista.
Se, em escala nacional, o reformismo é um mecanismo implementação
do colaboracionismo, em escala internacional o reformismo estabelece o
alinhamento, a colaboração, entre os países periféricos e as potências
imperialistas. Não há dúvidas de que o reformismo e os governos fantoches
perpetuam a dominação econômica imperialista. Portanto, esses dois mecanismos
cumprem a mesma função das ditaduras militares que os precederam: garantir a
manutenção do sistema de dominação da burguesia internacional.
Mesmo com a utilização dos partidos reformistas e das operações
militares, as tensões sociais não param, afinal de contas, as condições
materiais de existência do povo não se alteraram, mas se agravam a cada dia.
Entretanto as ações populares enfrentam a atual fragmentação da classe
trabalhadora, a falta de direcionamento revolucionário, a cooptação reformista
e a violenta repressão burguesa. Obstáculos que podem ser
superados com unidade, organização e um projeto explicito de destruição
do capital e do Estado.
O ano de 2005 será fundamental para o rompimento com o governismo e com o reformismo, pré-condições para enfrentar
o imperialismo. É imprescindível a unidade das organizações revolucionárias em
torno de um programa reivindicativo que destrua as bases do capitalismo e
aponte para a ruptura socialista. Os movimentos populares precisão construir
novas entidades que avancem para além do reformismo e das velhas entidades
burocratizadas. Os revolucionários têm o dever de atuar na construção de novas
entidades da classe trabalhadora, de propor a ação direta com instrumento de
luta, de denunciar os oportunistas e de apontar intransigentemente para o
socialismo.
Os povos que lutam devem ter a certeza que derrotar um exército
invasor e construir uma nova nação é não o objetivo final, mas sim o primeiro
passo para a construção de uma nação justa e igualitária; devem ter a certeza
que a luta não é só contra as forças burguesas locais, mas sim contra todo o
sistema capitalista mundial.
Avante os que lutam !!!
Morte ao Estado e à Burguesia !!!
Viva à Revolução Socialista !!!