35 Anos sem Marighella
Comunicado Nº 04 - União Popular Anarquista - Rio de janeiro, 04 de novembro de 2004
Sabemos e estamos convictos
que a memória histórica também é um importante campo onde se trava a luta de
classes, e por isto, também é dever dos revolucionários saber intervir e
disputar neste campo com a burguesia, pois, como já foi dito por historiadores
pertencentes ao campo do socialismo: "quem controla o passado, controla o
futuro". Aquilo que conhecemos a respeito do nosso passado, e a forma pela
qual o conhecemos influencia diretamente naquilo que entendemos que podemos
construir em nosso futuro, e para todos os socialistas revolucionários não
existe melhor aprendizado para as presentes e futuras batalhas contra a
burguesia que aquele que nos fornece a história das lutas passadas dos
trabalhadores pela sua libertação.
Dia 04 de novembro de 1969, Alameda Casa Branca, cidade de São Paulo. Neste dia
e neste local era assassinado pelos comandos da repressão política da ditadura
militar-burguesa o revolucionário e combatente Carlos Marighella.
O "terrorista" - como era norma qualificar os revolucionários em
armas, e como voltou a ser hoje em dia - havia sido capturado numa trama
policial que envolveu todo o arsenal disponível para a guerra suja, tendo como
seu instrumento maior a prática generalizada da tortura como método de extração
de informações. Tal era o terror que os revolucionários em geral, e Marighella em particular, inspiravam nos agentes
repressores da burguesia que no cerco que levou à morte de Marighella
registrou-se o fato de os policiais balearam-se entre si tomados pelo
nervosismo.
Carlos Marighella, filho de uma negra baiana e de um operário
imigrante italiano, nasceu no seio da classe a qual iria
servir - não sem contradições, fique claro - entregando neste serviço sua vida
e sua morte. A trajetória política deste revolucionário remonta à década de 30,
quando já atuava no interior do Partido Comunista. Com a repressão varguista generalizada contra os militantes de esquerda, é
preso durante todo o Estado Novo saindo às ruas na Anistia de 1945, elegendo-se
deputado pelo mesmo Partido Comunista para a Assembléia Constituinte. Milita
durante toda a década de 1950 neste partido e em 64 recusa-se a seguir a
definição do Comitê Central do PCB que exige que seus militantes entreguem-se à
repressão reacionária dos golpistas militar-burgueses. Esta atitude, que lhe causou
alguns ferimentos à bala quando foi descoberto pela polícia em um cinema onde
se escondia, já demonstra uma grave ruptura com a linha política dos
colaboracionistas do PC que haviam neglicenciado
toda e qualquer resistência popular ao golpe e que agora propunham entregar,
cabeças baixas, os militantes do povo nas mãos da repressão, nos marcos da
adoção da linha da "oposição democrática" à ditadura.
Marighella vai consolidar seu
posicionamento contra a linha do PCB ditada diretamente por Moscou no âmbito da
política da "coexistência pacífica" com o mundo capitalista, durante
a reunião da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS) em Cuba, onde
apontava-se - ao contrário - no caminho da difusão da luta armada em todo o
continente. Marighella defende contra o Comitê
Central do PCB a política da OLAS e é expulso do
partido, não porém, sem antes articular um enorme "racha" no
"Partidão" que iria originar a Ação
Libertadora Nacional, a maior organização revolucionária político-miltar
que atuou no país nas décadas de 60 e 70. Ao contrário do que mente a
"história oficial" da burguesia, os camaradas da ALN e das diversas
organizações revolucionárias que atuaram neste período, como a Vanguarda
Popular Revolucionária, o Movimento Revolucionário 8
de Outubro, a Vanguarda Armada Revolucionária - Palmares, entre outras, foram
não grupos de aventureiros juvenis irresponsáveis, mas a melhor expressão dos
operários, estudantes e camponeses organizados na esquerda revolucionária que
souberam ousar lutar contra a reação burguesa e contra o reformismo burocrático
da esquerda colaboracionista, procurando seus caminhos, tortuosos e incertos,
porém, caminhos e não imobilismo.
Longe de nós a tarefa
de criação de mitos, ou a promoção de celebrações acríticas
e estéreis de personagens da história da luta revolucionária de nosso povo. Os
equívocos, e não somente os acertos, de Marighella e
de todos os combatentes revolucionários do passado, são uma vasta fonte de
aprendizado para nós, todos os militantes revolucionários do presente, e por
isto não é nossa intenção ignorá-los, mas sim apresentá-los criticamente. A
princípio é preciso deixar claro que Marighella, a
vida toda identificou-se e baseou sua prática política
nos ensinamentos do marxismo-leninismo, que como a história demonstrou na
Rússia e em outras situações revolucionárias, se por um lado apresentou uma
relativa eficácia no que diz respeito às tarefas destrutivas da revolução, por
outro lado, apresentou-se funesta no que diz respeito às tarefas da construção
socialista, tendo guiado em todas as partes, mais cedo ou mais tarde, no
sentido da burocratização e da restauração capitalista. Sem nos determos no
óbvio equívoco que representa toda a atuação do PCB ao longo da história da
luta de classes em nosso país, é importante ressaltar a adoção e defesa por
parte de Marighella da estratégia foquista
para a luta revolucionária a partir da década de 60, que foi a orientação
principal da ALN por ele dirigida.
A crítica anarquista
ao foquismo enquanto estratégia revolucionária
socialista foi exposta primeiramente pela Federação Anarquista Uruguaia
histórica em 1972 em seu documento intitulado "Copei", produzido no
calor mesmo da luta armada desenvolvida, sob outra estratégia, por esta
organização em seu país. O fundamento desta nossa crítica ao foquismo diz respeito fundamentalmente ao papel das massas
e ao papel da organização especificamente política no processo revolucionário.
Para a realização de uma revolução social vitoriosa, que
efetivamente seja capaz de expropriar e desalojar do poder a burguesia e
implantar o Poder Popular construindo o socialismo, é necessário ter como
sujeito deste processo importantes setores da massa trabalhadora ativamente
organizados e mobilizados, para este fim. A criação de tais condições é tarefa
de organizações revolucionárias especificamente políticas que sejam capazes de
dirigir a luta dos trabalhadores nos seus mais diversos níveis, inclusive e
fundamentalmente a nível de massas, tarefa esta que
não pode ser substituída pela ação exclusivamente armada de um foco
guerrilheiro tal como preconizado pela teoria do foquismo,
que historicamente contribuiu decisivamente para levar os revolucionários à
derrota em nosso continente e em nosso país.
Para além destes
equívocos apresentados em relação à trajetória militante de Marighella,
achamos importante ressaltar o seu exemplo de combatividade, perseverança e
intransigência revolucionária, que o conduziu não aos altos postos ministeriais
fornecidos pela colaboração com a burguesia, mas ao digno lugar reservado
àqueles que tombam em defesa do povo e de seus mais preciosos direitos. Marighella representa acima de tudo a negação do reformismo
burocrático e a afirmação da ação revolucionária como princípio. Marighella é a expressão de tudo aquilo que a burguesia
brasileira e seus serviçais colaboracionistas no governo federal querem apagar
ou deformar em nossa história. Em um momento histórico em que ex-guerrilheiros
arrependidos, como José Dirceu e Dilma Roussef, transformam-se em ministros da burguesia, em que
convictos reacionários, como José Genoíno, posam como
heróis de uma "resistência democrática" que nunca existiu. Neste
momento em que Lula e o PT decidem pela manutenção em segredo dos arquivos da
ditadura, e em que a grande maioria dos setores populares
organizados foram tragados para dentro deste governo neoliberal
francamente pró-imperialista, é fundamental manter erguida alta a memória de
nossos combatentes. Em relação à nossa história, toda a burguesia e todos os
colaboracionistas, na prática, engrossam as fileiras dos ditadores, enquanto
nós, as dos combatentes revolucionários. Não há meio termo.
Entendemos que
lembrar e homenagear a memória do camarada Carlos Marighella
é não somente um ato de justiça, mas antes de tudo uma tarefa política. O
legado dos revolucionários da década de 60 e 70 em nosso país não foi apenas
abandonado, ele é, pela burguesia e seus serviçais políticos e intelectuais,
sistematicamente deformado, ridicularizado, pervertido, de uma maneira que não
possa ser resgatado. Existe um abismo no que diz respeito à memória social da
luta de classes em nosso país, e este abismo consiste exatamente no que diz
respeito ao período da ação revolucionária das organizações político-militares
que combateram a ditadura dos capitalista fardados e
paisanos. É fundamental ter clareza que a "Nova República" e a
"consolidação democrática" sob a qual vivemos e sofremos é uma
realidade que não teria se estabilizado se não fosse a aceitação pela esquerda
colaboracionista em contribuir para o permanente trabalho de separar o exemplo
revolucionário dos combatentes dos anos 60 e 70 da memória de nosso povo e do
referencial de suas organizações. Ao PT e seus cúmplices só foi permitido pela
burguesia atingir os altos postos governamentais graças aos grandiosos serviços
contra-revolucionários prestados, inclusive o achincalhe da memória de nossos
mártires. Homenagear Marighella é tomar posição em
favor da verdade em favor da história de luta de nosso povo, e sendo assim, a
maior homenagem que podemos prestar a este revolucionário é prosseguir e
avançar sua luta que hoje passa necessariamente por fortalecer a organização
dos trabalhadores nos bairros, fábricas, escolas, favelas e campos,
amadurecendo aí uma firme perspectiva revolucionária, derrotando o governismo, e combatendo as perspectivas reformistas.
Marighella?? PRESENTE!!!!!
Ousar
Lutar, Ousar vencer!
Pelo
Socialismo e Pela Liberdade!