Carta aos Revolucionários Anarquistas
Comunicado Nº 02 -
União Popular Anarquista - Rio de Janeiro, agosto de 2004
Em primeiro lugar queremos deixar claro
que esta carta é um documento público, no qual explicitamos uma série de
questões sobre as quais consideramos relevante nos posicionarmos. Porém, como o
próprio título do documento indica, temos a preocupação de direcionar esta
discussão com um certo privilegiamento aos revolucionários anarquistas. Longe
de nós, acreditar ou defender que a definição de revolucionário anarquista
esteja clara e inequivocamente estabelecida na sociedade em geral e no campo da
esquerda em particular, por isto, entendemos que devemos iniciar com a
clarificação do que entendemos como revolucionários anarquistas, ou seja, para
quem estamos nos dirigindo prioritariamente com este documento.
Por revolucionários anarquistas
entendemos aqueles homens e aquelas mulheres que, partindo de uma indignação
contra a opressão, a injustiça e o sofrimento ao qual são submetidas as massas
populares pela organização política e econômica da sociedade capitalista,
devotam-se a trabalhar ativamente pela transformação radical desta situação.
Conhecendo o fato de que a sociedade
capitalista, com todas as suas iniqüidades, é energicamente defendida pela
classe econômica e politicamente privilegiada, a qual faz uso de todos os
mecanismo legais e ilegais de força para garantir a sua dominação, estes homens
e mulheres amantes da justiça e da igualdade humana se fazem revolucionários,
ou seja, passam a trabalhar e lutar pela destruição da estrutura de poder da
classe dominante, construindo o poder das massas populares, única maneira de
garantir a transformação desta sociedade.
Não buscando outro objetivo senão a
libertação dos explorados e oprimidos em uma sociedade onde os direitos e os
deveres sejam iguais para todos, pois ao longo dos séculos todas as
justificativas para a desigualdade e a opressão entre as pessoas foram
demolidas pela razão humana, estes mesmos homens e mulheres tornados
revolucionários não estão dispostos a aceitar nenhum outro fundamento para a
organização social que não aquele de uma sociedade de trabalhadores livres,
possibilitada pela igualdade real e pela solidariedade prática entre os seres
humanos, e assim tornam-se, além de revolucionários, anarquistas.
Desta maneira fica claro que nos
dirigimos prioritariamente neste documento àqueles companheiros e companheiras
anônimas – ou não - que, lado a lado, com os mais diversos segmentos populares
explorados e oprimidos pelo capitalismo buscam construir com base na luta e na
organização as condições para a transformação revolucionária deste mundo de
injustiça em uma sociedade livre e igualitária. Sabemos que vários outros tipos
de pessoa também reivindicam para si o título de revolucionários anarquistas,
entre eles temos os caluniadores irresponsáveis, os ociosos pedantes, os
reacionários disfarçados e os oportunistas incuráveis. Estes a história já
desmascarou – basta querer enxergar – e ela saberá deles se encarregar no
futuro. Quanto a nós, nunca terão nossa tolerância ou nossa complacência.
O bakuninismo: por quê?
Muito tem se escrito e falado
ultimamente a respeito do quanto seria imprópria a postura de nossa Organização
ao assumir o bakuninismo enquanto eixo fundamental de nossa formulação teórica,
e de nossa definição programática e estratégica. Infelizmente, a imensa maioria
das críticas e ataques à nossa posição, por um lado, não se revestem do mínimo
de maturidade resumindo-se a um amontoado de manifestações tão histéricas
quanto vazias, e por outro lado, outro imenso volume de críticas e ataques, ao
buscar seus fundamentos, colocam-se tão claramente no plano do pensamento
liberal da burguesia, que do nosso ponto de vista desmoralizam-se e
esterilizam-se por si próprias. No entanto, há também o questionamento lúcido e
a crítica responsável, embora extremamente minoritária.
Apesar de já havermos deixado claros os
fundamentos do bakuninismo em outros documentos anteriores, entendemos ser
agora importante esclarecer o porque de assumirmos o bakuninismo e como a ele
chegamos. Se por um lado, historicamente, cita-se muito Bakunin, sua prática e
sua obra, no interior daquilo que convencionou-se – não por nós – chamar de
“campo libertário” ou “movimento anarquista” , pouquíssimo se investigou,
pesquisou e estudo a sério a seu respeito ao longo das décadas, o que tem por
conseqüência o fato de pouco se conhecer a seu respeito. No entanto, mesmo
havendo pouquíssimo conhecimento a respeito de Bakunin e do bakuninismo no
interior do chamado “movimento anarquista”, não faltam aí afirmações
categóricas e definitivas sobre nossa postura com relação a este tema. Saindo
do campo das acusações fáceis e irresponsáveis, queremos deixar claro o modo
pelo qual chegamos à compreensão que hoje temos sobre esta questão.
O século XX foi um período
importantíssimo para todos aqueles envolvidos de uma maneira ou de outra no
campo das lutas sociais do proletariado e no campo do pensamento socialista.
Pela primeira vez na história deu-se a vitória, não de uma, mas de várias
revoluções proletárias contra a dominação burguesa capitalista ao redor do
mundo: Rússia, China, Cuba, Vietnã entre outras. Não faltaram também derrotas.
Pela primeira vez desde a fundação da Associação Internacional dos
Trabalhadores em 1864, a disputa no campo do socialismo entre anarquistas
(socialistas revolucionários) e marxistas (comunistas) deslocou-se
completamente a favor dos segundos.
Responsáveis pela supremacia marxista
foram: os próprios marxistas, por um lado, ao demonstrar êxito em ganhar as
massas para seu programa nas situações revolucionárias que se apresentaram, e
por outro lado, foi também responsável por este fenômeno, o estabelecimento do
ambiente de licenciosidade e diletantismo no âmbito do “movimento anarquista”
quando do abandono das premissas revolucionárias fundadas por Bakunin, que teve
por conseqüência a quase completa esterilização deste “anarquismo” para as
lutas revolucionárias do proletariado, que só não foi completa graças aos
esforços dos resolutos revolucionários anarquistas que recusaram-se a se deixar
tragar pelo ambiente sufocante da capitulação, mas disto já falamos em outros
documentos.
Aos revolucionários anarquistas ao
longo do século XX foram terríveis as experiências de assistir a derrota da
Makhnovitschina, e com ela do socialismo de conselhos, no processo
revolucionário russo que conduziu a triunfante vitória do burocratismo estatal.
Mais terrível ainda foi testemunhar a vergonhosa capitulação da CNT-FAI na
guerra civil espanhola, ao trair o proletariado e cerrar fileiras junto à
burguesia republicana e aos contra-revolucionários stalinistas, entregando assim
o poder ao Inimigo de Classe. À conseqüente desmoralização de tudo o que se
relacionava a idéia de anarquismo no campo da esquerda revolucionária foi
necessário opor vigorosa e contundente ação criadora por parte dos
revolucionários anarquistas, cada vez mais minoritários no interior do cada vez
mais decrépito e acomodado “movimento anarquista”.
A preocupação com uma clarificação dos
aspectos teóricos da ideologia revolucionária anarquista que pudesse conduzir a
uma coerente e eficaz definição programática e estratégica para a ação política
foi central ao longo do século XX para aqueles que, ainda que instintivamente,
viam no anarquismo a alternativa capaz de levar os trabalhadores à sua
libertação definitiva. Grupos e organizações como o Dielo Truda (1927-1937), os
Amigos de Durruti (1937-1939) e a Federação Anarquista Uruguaia histórica
(1964-1976) realizaram nestes respectivos períodos uma intensa produção teórica
que buscou caminhar no sentido da resolução destas questões.
Assim como as experiências acima
citadas, também a UNIPA é fruto de um processo político de lutas, processo este
levado a cabo por revolucionários anarquistas há aproximadamente uma década no
contexto da luta de classes travada no Brasil. Nos posicionamos enquanto
herdeiros diretos destas experiências do passado e, assim, encaramos como um
dever a retomada e o aprofundamento das tarefas assumidas por estes camaradas,
entre elas, a clarificação teórica e a conseqüente definição programática e
estratégica para a ação política dos revolucionários anarquistas. Assim sendo,
o estudo sério e a pesquisa atenta tem sido grandes preocupações que a UNIPA,
enquanto organização política revolucionária, tem se colocado, lado a lado, com
o trabalho diário no interior das lutas de massa. Compartilhamos da compreensão
dos Amigos de Durruti que afirmavam que: “sem teoria revolucionária não há
revolução”, e a constatação do fato de que no interior do campo revolucionário
anarquista não se manuseia, efetivamente, uma teoria revolucionária clara e bem
definida é notória.
O estudo e a pesquisa criaram as
condições para que hoje, após intensas e prolongadas discussões, a UNIPA possa
afirmar categoricamente que manuseia e instrumentaliza a teoria dos
revolucionários anarquistas: o bakuninismo. A adoção do bakuninismo como eixo
de nossas formulações teóricas, programáticas e estratégicas, não é nenhuma
espécie de capricho ou excentricidade, é fruto de um longo e intenso processo
de estudo e pesquisa orientado no sentido de dotar os revolucionários
anarquistas de um marco teórico preciso e coerente que possa nos dar condições
de intervir na luta de classes com um programa e uma estratégia claramente
ancoradas em uma precisa e coerente interpretação da realidade. Fazemos coro
com históricos companheiros como Nestor Makhno, Jaime Balius e Gerardo Gatti no
sentido de afirmar que a clareza e a coerência teórica são requisitos
indispensáveis para qualquer ideologia revolucionária que pretenda contribuir
para uma decisiva vitória do proletariado na luta contra seus inimigos.
De “dogmatismos” e “sectarismos”– Nossa posição e nossos argumentos.
Queremos deixar claro que temos como
indispensável para qualquer organização política revolucionária, portar uma
teoria – um sistema de conceitos – capaz de dar conta de uma adequada e
coerente compreensão da realidade e que funcione como base fundamental de um
determinado programa e de uma precisa estratégia. Toda organização política
revolucionária socialista deve estar pronta para analisar a realidade onde
atua, avaliar as correlações de força no campo da luta de classes, conhecer os
diversos sujeitos sociais, seu potencial revolucionário e a dinâmica de sua
prática concreta, além de ser capaz de elaborar um programa claro que expresse
seus objetivos finalistas e que possa servir de horizonte para a luta das
massas populares. Para tudo isto é imprescindível a existência de um conjunto
coerentemente articulado de conceitos que sirvam como ferramentas deste
trabalho intelectual, ou seja, é imprescindível a existência de uma teoria
revolucionária.
A UNIPA, como já afirmamos, ancora o
desenvolvimento de sua produção teórica sobre alicerces e sobre um método
formulado por Mikhail Bakunin, o grande revolucionário russo fundador do
anarquismo. O pensamento de Bakunin, extremamente mais profundo e vasto do que
costuma se supor, não só nos fornece os alicerces e o método para nossa
produção teórica, como, avança bastante no apontamento de uma diretriz
programática e estratégica para a ação política dos revolucionários anarquistas
– tais como ele mesmo foi. Antes de mais nada, é preciso afirmar que o método e
os alicerces teóricos de Bakunin estão íntima e indissociavelmente vinculados
com sua discussão programática e estratégica, como também não poderia deixar de
ser, já que esta produção teórica se realizou com um fim voltado à aplicação
prática e não a serviço da diletância ociosa.
Entre aqueles que atacam a orientação
bakuninista de nossa Organização, e ainda assim reivindicam para si o
anarquismo, podemos distinguir dois grupos fundamentais. O primeiro, composto
em sua grande maioria por personalidades extravagantes e idiossincráticas,
pouco preocupadas com o desenvolvimento real da luta de classes e tendo em seu
“anarquismo” basicamente um adorno para uma determinada prática comportamental
e retórica, lança ataques contra a necessidade de uma definição teórica, acusa
a afirmação desta necessidade como uma afirmação “dogmática”, já que, para este
grupo, o “anarquismo” deve ser o reino das sensações, dos impulsos sensuais e
da “libertação pessoal”. Por seu próprio caráter não nos deteremos no debate
com este grupo, apartado por si próprio de toda e qualquer referência no
proletariado e no socialismo, inclusive – em alguns casos – a ambos se opondo
vigorosamente, constituindo-se em francos reacionários, e por isso, inimigos do
anarquismo.
O segundo grupo, é composto por
indivíduos, coletivos e organizações que buscam de uma ou outra maneira
construir uma ligação com a classe trabalhadora e suas lutas, e ainda
reconhecem a necessidade de construção de uma definição teórica. Este grupo,
mesmo sendo alvo de aberta hostilidade por parte dos setores liberais
travestidos de anarquistas que infestam o chamado “campo libertário”, assume
para si a tarefa de salvaguardar e defender, até o último esforço se for
necessário, a “unidade” e a “harmonia” na “diversidade” do fantasmagórico
“movimento anarquista”, lançando-se vigorosamente contra a nossa adoção do
bakuninismo e contra o fato de não reconhecermos como anarquismo certos setores
deste “movimento anarquista”.
Este mito do “movimento anarquista”
construído ao longo das décadas como resultado do progressivo abandono dos
pressupostos estabelecidos por Bakunin - e sistematizado teoricamente por Volin
e Sebastien Faure na década de 1920 - tornou possível que “anarquistas”
pregassem a Revolução Social enquanto saudavam um Kropotkin que defendia o Czar
e, posteriormente,o governo de Kerenski. Tornou possível que a experiência de
lutas e o projeto organizativo do revolucionário anarquista que mais firmemente
combateu a ditadura bolchevique na Revolução Russa – Nestor Makhno - fosse
descartada e amaldiçoada pela maioria dos “anarquistas” como algo
demasiadamente... bolchevique. Tornou possível também que “anarquistas” que
brandiam contra o Estado e pela liberdade popular, cerrassem fileiras em defesa
da política ministerialista burguesa da CNT-FAI durante a Guerra Civil
Espanhola, e ainda acusassem os que a isto se opunham – tais como os Amigos de
Durruti – de “jacobinos” e “trotskistas”.
O mito do “movimento anarquista”, que
seria “diverso” e “plural” na sua unidade é um dogma cristalizado pela tradição
e que não é capaz de resistir a mais simples contestação racional, como vem
demonstrando a irada e fanática reação de seus defensores aos nossos
argumentos. Aos que nos acusam de “dogmáticos” e “sectários” por não rezarmos o
catecismo do “movimento anarquista” e não reconhecer aí mais do que um
amontoado artificial de expressões ideológicas e políticas tão díspares quanto
contraditórias, lançamos um desafio: se não podemos definir o que é ou não
anarquismo com base em uma referência histórica concreta –Bakunin e o
bakuninismo – e devemos ter por dado inquestionável da realidade a
auto-enunciação, então estamos todos obrigados a ver, por exemplo, nas
imperialistas e agressoras Tropas de Paz da ONU, os paladinos da paz entre os
seres humanos, já que assim eles se auto-enunciam. Visto desta maneira o
argumento de nossos acusadores revela-se em todo seu absurdo caráter dogmático,
já que a crítica e análise dos dados auto-enunciados da realidade é
automaticamente tachada de autoritária e descartada como ...”sectarismo”.
Gostaríamos de propor um outro desafio
aos opositores do bakuninismo que adotamos enquanto referencial teórico e
político: se a adoção do bakuninismo é uma opção “sectária” que ignoraria
outras “legítimas” expressões teóricas do “movimento anarquista” tais como o
pensamento de Piotr Kropotkin, propomos que se arrisquem a utilizar o método e
a base teórica evolucionista biológica de Kropotkin para a análise da realidade
social e lancem-se voluntariamente no ridículo e no descrédito absoluto. O
ecletismo teórico, determinado pela necessidade política de salvaguardar a
sacrossanta “unidade” e “harmonia” no “movimento anarquista”, é estéril e
confusionista, visto que aqueles que o defendem retoricamente têm sido
incapazes de produzir qualquer reflexão teórica, ou tem servido-se do marxismo
enquanto referencial, ao mesmo tempo que condenam a firmeza de nossa defesa do
bakuninismo.
Nós, que somos revolucionários,
entendemos que defender uma posição é exatamente nosso traço característico e,
além do mais, nosso dever, caso contrário, poderíamos defender o capitalismo ou
o socialismo dependendo da circunstância ou do debatedor, oportunismo que
combatemos com veemência. Temos nossa posição e nos apoiamos em argumentos, que
são públicos, e os quais estão expostos à crítica e à refutação. Aqueles que
entendem que nos equivocamos devem, por sua vez, igualmente munir-se de
argumentos e confrontá-los com os nossos, caso contrário, se manterão no limite
da gritaria estéril exigindo que retiremos nossos argumentos em nome da
“unidade” no interior do chamado “movimento anarquista”. A isto respondemos com
um categórico NÃO, pois nosso dever é para com o proletariado e sua libertação
e não com o conforto existencial daqueles que querem desfrutar das relações
pessoais disponíveis no interior do “Clube Libertário”, tão harmônico e unido
quanto inútil para a luta dos trabalhadores.
Esperamos poder haver esclarecido nossa
posição em relação aos ataques que se seguiram à publicação de vários de nossos
documentos teóricos e políticos, e nos mantemos abertos à discussão. Aos
camaradas revolucionários anarquistas: ergamos a cabeça! É o momento de assumir
a responsabilidade junto à nossa classe e não esmorecer frente aos obstáculos
no caminho. Devemos manter a firmeza ideológica em um ambiente hostil
determinado pela supremacia arrasadora da burguesia na correlação de forças
entre as classes em luta. Saibamos honrar as iniciativas heróicas do passado
tais como aquelas de Bakunin, da Aliança, do Dielo Truda, dos Amigos de Durruti
e da FAU histórica e não nos deixemos arrastar para a lama do conformismo e da
covardia. O futuro será do socialismo e da liberdade, cumpramos com nosso
dever.
Saudações revolucionárias!