A Crise do Governismo e a Estratégia da Ação Direta
Análise de conjuntura
e posicionamento político
Comunicado Nº 01 - União Popular Anarquista
Rio de Janeiro, Julho de 2004
O ano de 2004 confirmou o processo de deterioração
moral do Partido dos Trabalhadores. Dizemos deterioração moral porque do ponto
de vista orgânico, o “partidão” quase não sofreu abalos sérios. A oposição
interna composta por parlamentares que passaram a ser chamados de “radicais”,
nascida durante o ano de 2003 (motivada pelas reformas, da previdência social
especialmente), não chegou a se tornar um trauma. Muita expectativa foi criada
em torno das figuras como a senadora Heloisa Helena, e os deputados federais
Luciana Genro e Babá mas ao final das contas foi só uma tempestade em copo
d´água que produziu o PSOL/Partido Socialismo e Liberdade (oposição das mais
moderadas).
Mas não podemos subestimar o efeito dos fatos que
vem se apresentando no cenário político, porque eles determinarão o futuro da
nossa sociedade. Enquanto anarquistas, socialistas revolucionários, devemos
estar atentos às mudanças na conjuntura, e saber como nos portarmos nela e
perante outras forças políticas atuantes. A história contada amanhã é a
história que se faz agora. Para que não sejamos navegantes de última hora na
enxurrada dos acontecimentos e profetizar fatos consumados, é importante ter
uma posição clara e guardar uma linha de coerência tática e ideológica entre as
ações e discursos que produzimos. Somente isto nos habilitará a ocupar um posto
mais relevante na luta de massas, hoje nosso principal objetivo enquanto
organização anarquista.
A oposição
ao Governo do PT e sua política liberal-imperialista abriu um momento de
“questionamento do reformismo petista”. Esta “crise do PT” se dá num momento de agravamento da crise
social e relativa retomada econômica (do
ponto de vista empresarial). É esta crise e seus possíveis efeitos sobre a
conjuntura que iremos analisar.
1 – A Crise do
Governismo, a Crise Social e o “Modelo agro-industrial exportador”.
A crise do PT, com a expulsão dos parlamentares
“radicais”, não chegou a comprometer a estrutura orgânica do PT. O Governo do
PT, Lula, José Dirceu e companhia, tem se sustentado politicamente sem muitos
problemas. Nem mesmo a corrupção do caso Waldomiro (a denúncia de que o
assessor do chefe da Casa Civil, José Dirceu, trabalhava para bicheiros e
mafiosos, em troca de propina e a mando do Partido) abalou profundamente o
governo. O fisiologismo da militância burocratizada do PT assimilou
tranqüilamente as denuncias de corrupção e as “traições”. E os banqueiros e
empresários não estão nem um pouco preocupados com isso.
A questão é: a crise do PT é uma crise do
reformismo? No nosso entendimento não. A crise do PT é multifacetada: ela se
apresenta antes de tudo, como crise do governismo, não do reformismo em si.
Tanto que a oposição interna do PT produziu um Partido que lembra muito o PT,
não dos anos 80 (seria radical demais para eles), mas dos anos 90 – já
devidamente domesticado pela democracia burguesa. Por outro lado, o
“governismo” atual está atrelado ao reformismo petista e sua traição (manifesta
na aplicação nua e crua das medidas mais favoráveis ao capital, ao latifúndio e
ao imperialismo), o que vem provocando um desgaste do modelo reformista, mas
que está ainda longe de ser sua crise ampla e generalizada.
Mesmo o governismo, devido a diversos fatores, se
mantém forte nos setores importantes do movimento sindical e popular. Por
exemplo, a CMS (Coordenação dos Movimentos Sociais, impulsionada pela CUT, UNE
e MST) é apenas um espaço de propaganda governista, que visa enfraquecer a
oposição séria ao governo Lula. A posição do MST, se do ponto de vista da
burocracia do seu movimento é acertada, do ponto de vista da causa do povo
(sem-terra e campesinato inclusive), é muito ruim.
Mas a crise do governismo serviu para desmoralizar e
desacreditar em parte o reformismo. Ela então favorece o debate
político-teórico e abre vias para a reflexão sobre a estratégia e tática da
luta popular, do ponto de vista revolucionário. Mas além da crise do governismo
e do seu efeito sobre as condições subjetivas de desenvolvimento da luta
popular, não é de se desprezar as possibilidades geradas pela crise social que
assola o Brasil, combinada com a retomada do desenvolvimento econômico, senão
global, pelo menos setorial.
A crise social é indicada pelo desemprego,
deterioração do poder de compra do trabalhador, agravados pelas políticas
macroeconômicas do governo (juros, câmbio, crédito), pelo aumento abusivo das
tarifas de serviços públicos (como telefone, luz e água), ou seja, pela
inflação, sempre acobertada nas estatísticas oficiais. Podemos ver isso pelos
seguintes dados: “Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística) apontam uma queda na renda do trabalhador de 14,2% entre julho
deste ano e julho de 2002. A maioria dos trabalhadores que perderam renda são
os do setor terciário, que dependem da renda de outras pessoas. Agora, o Grande
ABC, como as outras regiões, também depende da retomada da poder aquisitivo do
consumidor para reaquecer sua economia”, explicou Gonçalves. (in Faturamento das micro e pequenas do ABC cai 5,9%.
http://www.dgabc.com.br/Economia)
A crise social já crônica na sociedade brasileira,
agravada nos anos 90, vai se superpor agora com um momento de retomada
econômica: “De acordo com o economista José Roberto Mendonça de Barros, o
Brasil está vivendo um momento de retomada econômica concentrado em alguns
setores, mas que já se espalha para outros. O avanço das áreas de bens de
capital e de bens de consumo duráveis começa a se estender para outras áreas.
Segundo ele, o Brasil vem aumentando a produção com um aumento de exportação
extraordinário. Até agora, muitos esforços, disse, foram feitos com vistas ao
mercado interno, mas com o encolhimento da demanda nacional, nos últimos anos,
alguns setores tiveram de se voltar para o mercado externo. Isso reforça a
expectativa de que as exportações continuarão crescendo.” ("Sabe-se hoje que a estabilidade é necessária, mas não basta. É
preciso mais”, site da FIESP).
A crise ideológica do governismo, somadas a crise
social e ao crescimento econômico setorial da economia, possibilitado pela
expansão do modelo agroindustrial-exportador (os acordos comerciais com a China
para exportação de soja, são apenas um exemplo das vitórias do modelo)
constitui uma conjuntura propícia para o ascenso das lutas de massa. A demanda
por força de trabalho num momento de aumento da produtividade, com a
característica específica do Brasil de um modelo agro-industrial exportador,
faz aumentar a dependência do capital em relação ao trabalhador – o que
dificulta a repressão através das demissões em massa. Por outro lado, estes
trabalhadores estão perdendo a qualidade de vida e direitos, fato que irá
piorar com a reforma trabalhista.
O crescimento econômico com retração do mercando
interno é possível porque ele está baseado na expansão do mercado externo, que
permite o aumento da acumulação de capital simultaneamente a pauperização geral
no país. Tal situação (enquanto perdurar, já que depende de uma serie de flutuações
no mercado mundial) tende a gerar uma série de contradições objetivas na
sociedade brasileira, que conjugadas com as condições subjetivas criadas pelo
desgaste da idéia governista-reformista podem abrir no Brasil um momento de
acirramento da luta de classes, como não vemos talvez desde meados dos anos
oitenta.
Neste
ano de 2004 estamos vendo manifestações estudantis localizadas que estão
assumindo caráter radicalizado. As jornadas de lutas no Ceará e Santa
Catarina assumiram a feição radicalizada
típica dos movimentos gerados numa vontade de oposição e reivindicação
autênticas. A emergência das lutas estudantis pode ser um prelúdio, e esperamos
que seja, de um ascenso das lutas de massa no Brasil no segundo semestre de
2004 e inicio de 2005. Condições objetivas e subjetivas existem. Falta saber se
existem forças políticas com vontade e capacidade de agir e catalisar tais
condições.
2 – As Duas vias
hegemônicas hoje: o Oportunismo de Direita e o Oportunismo de Esquerda.
Tendo em mente uma tal conjuntura, e sabendo das
possibilidades que ela abre, precisamos saber como se configura a arena
política no Brasil. Podemos dizer que, do ponto de vista socialista, existem
hoje dois campos, dentro dos quais se formam as alternativas político-ideológicas,
as forças que poderiam intervir e explorar tal conjuntura. Um é o campo
reformista[i]
– consolidado e forte dentro do movimento popular, quando consideramos os
partidos em seu conjunto (tendências do PT, PC do B, PSB e etc) e movimentos e centrais
(CUT, UNE) Outro é o campo revolucionário, ainda incipiente no Brasil, composto
por grupos de orientação ideológica muito diversa (como anarquistas, maoístas e
trotskistas, sendo que o anarquismo conta com uma presença ainda muito débil).
Não podemos ter muitas ilusões. As forças políticas
que estarão se apresentando como alternativas globais e estarão disputando,
pelo menos num futuro próximo (um ou dois anos) a hegemonia do movimento
popular, sairão ainda do campo reformista. Mais um fato que demonstra que a
atual crise do governismo não pode ser tomada como uma crise do reformismo em
si. Dentro deste campo, duas tendências se enfrentarão, disputando a posição
que foi ocupada até há pouco pelos atuais governistas (a Articulação de Direita
do PT e adjacências): a primeira tendência é o oportunismo
de direita, a segunda é o oportunismo
de esquerda.
O oportunismo de direita é representado hoje pela
linha do PSOL. Sua disposição é, através de um vago discurso
“democrático-burguês”, capitalizar para
si o descontentamento com o governo Lula e eleger muitos deputados e vereadores
nas próximas eleições. A oposição do PSOL ao governo LULA é extremamente
superficial. Ele não critica o reformismo do PT, critica apenas sua faceta
política liberal. Se o PSOL hoje está na oposição, é porque o PT como um todo
deu uma vertiginosa guinada a direita. Mas falta ao PSOL a consistência
ideológica para se opor de forma firme ao Governo Lula (somente agora estão
começando a se pronunciar contra a reforma universitária).
Mas no entanto, uma outra alternativa vem se
colocando, e de maneira muito mais séria e articulada. É o oportunismo de
esquerda, representado hoje pelo PSTU. O PSTU, ao contrário dos primeiros dias
do ano, quando parecia que ia a ficar a reboque do PT e do “Novo Partido”,
optou pela ruptura com o governismo, especialmente a CUT, impulsionando uma
política de mobilização das bases, para a partir daí, do movimento estudantil e
sindical, fazer oposição ao governo Lula. A Marcha de Oposição a Lula realizada
no dia 16/06/2004 em Brasília com mais de 10 mil pessoas, demonstrou a
disposição do PSTU de estar impulsionando efetivamente as lutas.
No texto assinado por Eduardo Almeida publicado no
CMI, vemos formulações de uma nova retórica de legitimação do PSTU: “A domesticação do PT é uma das maiores
conquistas da burguesia. Como um partido, que nasceu das lutas do movimento
operário, pôde se transformar em um partido da ordem, que aplica, a partir do
governo federal, um programa neoliberal? Essa pergunta evidentemente, tem
muitas respostas. Mas, seguramente, a principal é a incorporação da estrutura
de quadros desse partido ao regime democrático-burguês, com seus cargos e
verbas. (...) Todo esse pessoal vive do aparelho de Estado, em geral, com
salários muito superiores aos que tinham antes. Sua maior preocupação é ver
como ganhar as próximas eleições para seguir recebendo seus salários, e não a
intervenção na luta de classes e na ação direta das massas.” (As armadilhas das
eleições burguesas e os revolucionários, 20/06/2004).
Depois de condenar a
política burguesa, ele no entanto fundamenta
a participação nas eleições burguesas, a partir de Lênin e Troski, da seguinte maneira: “Por esse motivo, os candidatos do PSTU são
metalúrgicos, professores, bancários, estudantes, que defendem um programa
revolucionário. Se eleitos, receberão um salário correspondente ao que ganhavam
antes. Isso é muito importante, porque é necessário que um parlamentar
revolucionário tenha, em essência, a mesma vida material de antes. Assim, é
possível apresentar uma alternativa revolucionária nas eleições, para disputar
o espaço de oposição ao governo Lula com a oposição burguesa. Vamos apresentar
uma alternativa de oposição de esquerda com o PSTU, um partido que pode
participar das eleições, sem se transformar em um novo PT.”
A política do
oportunismo de esquerda tem então duas facetas: 1º) denunciar a democracia
burguesa e apontar para a ação direta das massas como centro da estratégia
política, reconhecendo que as eleições são a principal forma de domesticação do
proletariado; 2º) no entanto querer instrumentalizar a política burguesa,
ocupando todos os postos políticos dentro da “legalidade”. Esta formulação
clássica do leninismo tem efeitos que não se pode desprezar, caso seja levada a
sério pelo PSTU em todo ou em parte.
Primeiramente,
significa mais um golpe ideológico na tese central do reformismo, de que o
Estado-burguês pode ser tomado e reformado pelo proletariado ou seus
“partidos”. Isto reforça o argumento revolucionário que condena a colaboração
com a política burguesa. Em segundo lugar, independentemente do oportunismo do
PSTU, se eles se usarem da estratégia da ação direta, de fato e não somente no
discurso, eles vão criar condições para o aumento da intensidade das lutas
populares no Brasil. O que é muito positivo.
A
pretensão do PSTU é ser uma nova direção do movimento sindical e estudantil. O
partido no ano de 2004 teve orientações reais neste sentido, procurando romper
com as entidades governistas, criando o CONLUTAS (Coordenação das Lutas,embrião
de uma nova Central Sindical Nacional) e CONLUTE (embrião de uma nova união
estudantil). Caso o oportunismo do PSTU seja realmente de esquerda, ele estará
capitalizando para si as simpatias de muitas entidades sindicais e estudantis.
Força para tal o partido tem.
Desta
maneira, o PSTU estará cumprindo, mesmo que involuntariamente, um papel
positivo no combate ao governismo-reformismo, se contribuir para elevar
efetivamente o nível das lutas (mesmo que seja para mais a frente tentar freia-las
e burocratiza-las), abrindo uma caixa de surpresas já que muitas lutas podem
sair do controle, criando assim condições para que os grupos do campo
revolucionário as capitalizem e se fortaleçam. A questão é saber se a alusão a
ação direta das massas vai ser só uma retórica pré-eleitoral ou se vai ser uma
prática, mesmo que conjuntural, a ser aplicada no movimento estudantil e
sindical. E não devemos subestimar nossos adversários. Eles podem ter
efetivamente uma estratégia “revolucionária” diferente da nossa, num estilo
“bolchevique-classico” (o que achamos difícil). Só a história dará a resposta.
Outro fato importante a reconhecer é que,
independentemente da estratégia, se um partido, mesmo no campo reformista como
o PSTU, se lança na ação direta das massas, ele constrói sua legitimidade e sua
força, moral e política, perante o povo.
O Oportunismo de esquerda, assim como o Oportunismo de Direita e o
Governismo, tem uma força real que deriva da sua presença política nas
entidades e movimentos populares. Ignorar isso é a morte, é se condenar ao
mundo do idealismo dos clubes de discussão inútil, onde se pode ter a pretensa
“arrogância” de (não fazendo nada) condenar tudo o que os outros fazem.
3 – Os Anarquistas
e as tarefas frente à conjuntura.
Tendo em mente tal análise da conjuntura, enquanto
anarquistas, devemos ter uma posição clara frente à ela e (sabendo das atuais
limitações impostas ao campo revolucionário) delimitar as principais tarefas.
Podemos dizer que antes de determinar tais tarefas, é preciso estabelecer o
critério fundamental que orienta os anarquistas e que deve orientar a ação de
todo militante sinceramente devotado a causa do povo.
As idéias são interesses, e os interesses são homens
concretos, disse Proudhon. Logo combater idéias é combater interesses e homens,
e defender idéias é defender interesses e homens. O primeiro critério que temos
em mente é que a ação anarquista se orienta necessariamente pelas questões
colocadas no campo da luta política. Qualquer crítica que tenhamos a
determinadas idéias (sejam governistas ou oportunistas) nunca pode nos colocar
do lado dos interesses da burguesia e contra os interesses do povo, ou seja,
não pode nos levar a fazer nada que enfraqueça os meios que o povo encontra de
se defender dos ataques da burguesia. No Brasil de hoje isso significa que
temos de saber nos posicionar no campo político contra as reformas do Governo
Lula (Sindical, Trabalhista e Universitária) e contra o reformismo, mas sem se
deixar confundir com a política burguesa e contra-revolucionária, qualquer que
seja sua retórica. Devemos apoiar incondicionalmente as greves, as ocupações
rurais e urbanas e as lutas estudantis, indígenas e etc.
Devemos ter em mente que o critério de avaliação de
uma força política, deve ser sempre sua presença junto ao povo (suas
organizações e lutas), da onde vem seu poder e legitimidade. Este critério é
aplicado a todos, inclusive aos anarquistas e demais revolucionários. Neste
sentido, devemos estabelecer nossas tarefas mantendo a intransigência
revolucionária, o que significa defender as conquistas e direitos materiais do
povo hoje sem abrir mão de nosso programa socialista revolucionário. Mas isso
sem incorrer em sectarismos: É como diz Fabbri: “Sempre que os socialistas
se empenham numa luta, ainda que parcial, contra o capitalismo e contra o
governo, por melhoras imediatas, por uma diminuição da exploração e da
opressão, por um aumento do bem estar e da liberdade, estão seguros da
solidariedade dos anarquistas no terreno da ação direta popular e proletária.
Tanto mais nos solidarizemos ao seu lado e a vanguarda, quanto mais cheguemos
ao terreno da luta em um conflito contra o capitalismo e o estado.” (Luigi
Fabbri, Ditadura e Revolução). Fabbri,
apesar de uma posição teórico-ideológica ecletista, soube perceber claramente
como os anarquistas deveriam se comportar diante do reformismo republicano e
socialista no início do Século XX. O mesmo raciocínio devemos aplicar hoje.
Podemos dizer que existem dois objetivos
fundamentais a serem cumpridos pelos revolucionários na atual conjuntura: 1)
destruir o governismo no movimento popular, ou pelo menos enfraquece-lo
bastante; 2) desgastar a via reformista, ampliando então os espaços de
influência do campo revolucionário, através da defesa da estratégia da ação
direta. Neste sentido, devemos promover no campo do movimento popular, a maior
unidade possível, no sentido de combater o governismo e desgastar o reformismo.
As principais tarefas que se colocam então são: 1)
combater o reformismo e o oportunismo de direita, sabendo diferencia-lo do oportunismo de esquerda. O
oportunismo de direita e oportunismo de esquerda são posições políticas
distintas. Pode ser que os partidos (PSOL, PSTU e outros) oscilem entre elas.
Mas a questão é que o oportunismo de esquerda estimula parcialmente a ação
direta e desgasta o reformismo, e combate mesmo que taticamente os patrões e o
governo. O oportunismo de direita apenas consagra o reformismo e sequer combate
com veemência o governismo. Logo, devemos apontar para a unidade na luta de
massas frente ao governismo e ao oportunismo de direita, na defesa dos direitos
do povo, mas apontando as contradições do oportunismo de esquerda, para quando
e se ele demonstrar sua face exclusivamente reformista, possamos desmascara-lo,
mas sem ter desertado das lutas populares; 2) fazer oposição intransigente as
centrais governistas e sua política (CUT, UNE,CMP); 3) disputar as entidades e
os movimentos pela base (locais de trabalho, moradia e estudo) quando possível
os sindicatos locais, diretórios
acadêmicos; 3) disputar onde for possível as entidades no plano de articulação
regional, fazendo oposição as suas direções quando subordinadas ao governismo.
Podemos dizer que enquanto anarquistas, temos uma
profunda diferença ideológica, teórica e programática (que não iremos discutir
aqui), já histórica, para com os Partidos Socialistas e Comunistas. Mas hoje as
principais tarefas que se colocam são destrutivas e não construtivas (e que não
são sequer as de destruição de um regime político, e nem de longe, do Estado).
E estas tarefas nos aproximam de alguns grupos revolucionários e faz com que um
posicionamento oportunista de esquerda aproxime alguns reformistas dos
revolucionários.
Aos revolucionários e militantes que se dedicam
sinceramente a defesa dos interesses do povo (e não duvidamos que eles existam
dentro do PSOL, do PSTU e de outros partidos reformistas), é preciso dizer que
devemos ter muito cuidado para (por falta de uma analise atenciosa da
realidade) não nos vermos trabalhando contra a causa que defendemos. Este texto
visa exatamente contribuir para o esclarecimento político destes militantes.
Aos muitos militantes independentes dizemos que é
importante também ao fazer a crítica do reformismo e da burocracia, não cair no
seu oposto, no espontaneísmo. A burocracia e o espontaneísmo são gêmeos
siameses; um surge onde outro é dominante. Ambos tem funções desorganizadoras e
favorecem o individualismo e o enfraquecimento da discussão, decisão e
mobilização coletiva. O anarquismo é a alternativa a burocracia e ao
espontaneísmo, ao reformismo e revolucionarismo autoritários e ao liberalismo
burguês.
Podemos dizer que hoje a estratégia é, mesmo em pequenos grupos
isolados, sabendo qual é nosso inimigo (e qual nosso objetivo principal no
momento e nossas forças para alcança-lo), ataca-lo e desgasta-lo
independentemente da existência de uma coordenação geral. A posição política
UNIPA pode ajudar tais grupos e indivíduos isolados a identificar e combater o
inimigo de hoje (o governismo) sem esquecer do inimigo principal (o
capitalismo) e sem se deixar levar para o campo do reformismo (pelas ilusões do
oportunismo de direita e esquerda) e do liberalismo (pelas ilusões do
espontaneísmo e individualismo pequeno-burguês).
4 - O Acirramento
da luta de classes no Brasil: possibilidades e limites.
Condições objetivas e subjetivas existem para o
acirramento da luta de classes no Brasil. A questão é que as forças políticas
existentes com maiores condições de explorar tal conjuntura podem não saber ou
querer explora-la: o oportunismo de esquerda e de direita. Por outro lado,
existe a possibilidade também de as forças contraditórias (que nós conhecemos e
desconhecemos) consigam desencadear tal processo: falamos de movimentos
realizados diretamente pelas organizações populares e sindicais (compreendendo
inclusive militantes dos partidos reformistas), que contrariando as orientações
hegemônicas, impulsione as lutas reivindicativas e a oposição ao governo Lula
pela base.
O acirramento da luta de classes no Brasil no atual
momento seria muito produtivo. A ação direta é o principal meio de educação
revolucionária do proletariado, e ela possibilitaria a formação de novas
organizações e a expansão do campo revolucionário. Mas dificilmente produzirá
uma revolução social. Isto por duas razões: primeira, a hegemonia do movimento
de massas está sendo disputada pelo governismo e reformismo, o que faz com que
o programa hegemônico nestes movimentos será governista ou reformista, e não
revolucionário. Predominando a oposição reformista haverá um grande esforço
para barrar, em algum momento, o acirramento das lutas, cumprindo o papel de
freio da mobilização popular; predominando a via governista, não haverá sequer
o acirramento das lutas; segunda razão, se o acirramento das lutas for
resultado de uma oposição espontânea das bases, ela não terá um programa e
estratégia que unifiquem todo o movimento, e logo não terá a força suficiente
para realizar uma revolução.
Dizemos isso
porque as mobilizações populares na América Latina de oposição ao
neo-liberalismo conseguiram derrubar governos. Isto produziu uma certa euforia
(alguns chamaram tais fatos, erroneamente, de revoluções) e difundiu a
esperança em torno da possibilidade de uma revolução, o que é muito positivo
para o movimento popular. Mas é preciso distinguir a derrubada de um governo de
uma revolução política (que implica a mudança do regime político). Alem disso,
se depois da queda de governos não há uma profunda luta ideológica e política
contra o reformismo, a construção de organizações populares de novo tipo e, a
partir disso, a formação de um movimento revolucionário de massas, o reformismo
e a contra-revolução ganharão terreno novamente. E com eles os regimes liberais
se estabilizarão.
Existe uma outra questão, no caso do Brasil, que
impediria a realização de uma revolução social. Éa teoria revolucionária
marxista. Os partidos políticos socialistas, coerentemente com a teoria
marxista, consideram que o campesinato é apenas uma força acessória, que deve ser dominada,
pelo operariado. O PSTU, por exemplo, quase não tem presença no campo. O MST
está hoje no campo do governismo. Assim, os Partidos Socialistas tem uma base
forte no proletariado industrial e no do proletariado do comércio e serviços. O
que restringe assim sua influência a uma minoria, importante, mas ainda sim uma
minoria, da sociedade brasileira. Além disso, outra fração importante do
proletariado, o proletariado marginal (os trabalhadores marginais em relação ao mercado
capitalista, desempregados, sub-empregados, biscateiros e etc., que o marxismo
chama de lumpemproletariado), está hoje a mercê do governismo.
E foram exatamente estes os seguimentos que deram
tanta força aos levantes populares do período 2000-2003 na América Latina (o
campesinato indígena, nos casos do Equador e Bolívia; proletariado marginal
urbano, no caso da Argentina). É importante notar que a atual estratégia do
Governo Lula visa exatamente jogar o proletariado marginal e o campesinato (os
segmentos mais pobres da população) contra o proletariado industrial e do
comercio e serviços, jogando os “pobres contra” os “privilégios” dos
trabalhadores. Isto significa jogar uma massa de mais de 60 milhões de pessoas
contra o movimento sindical. O programa “fome zero” faz parte desta estratégia.
Por isso, possivelmente um acirramento da luta de classes no Brasil, não
contará com a participação massiva de setores importantes do proletariado (que
terá inclusive contradições internas decorrentes desta situação) a não ser que
os Partidos e Movimentos tenham uma política para mudar estes fatos (mas quem
parece estar fazendo isso é o MST, através da criação do MTD – movimento dos
trabalhadores desempregados no Brasil; e o PSOL, que abarca o MTL – movimento
terra, trabalho e liberdade). Logo, são as forças governistas e oportunistas de
direita que estão atuando preventivamente neste campo. Sem a participação de
setores importantes de todas as frações do proletariado, não é possível uma
revolução social. Somente o operariado e o funcionalismo público não seriam
capazes de fazer uma revolução social no Brasil, fariam no máximo uma revolução
política, o que criaria uma outra estrutura de dominação e exploração.
Mas hoje um acirramento da luta de classes, mesmo
com suas limitações, é fundamental. Somente ela pode criar as bases materiais,
organizativas e ideológicas de um movimento popular, classista, combativo e
independente. Papel importantíssimo será jogado em tal conjuntura pelo proletariado
industrial, pelos operários em
especial, e pelo movimento sindical urbano (especialmente daqueles setores
vinculados aos grupos de atividade econômica em expansão, como o petrolífero, o
químico e o agro-industrial). O operariado e o movimento sindical poderão
desempenhar o papel de vanguarda nas lutas, ou seja, de iniciadores e
incentivadores das lutas populares (como aconteceu na Argentina, quando as
greves gerais foram o prelúdio da mobilização piqueteira).
Em caso de um acirramento da luta de classes, o mais
importante é desgastar o reformismo e incitar o povo a se separar da política
burguesa. Cumprindo esta missão, os revolucionários já terão conseguido uma
vitória importante. Não podemos nem superestimar nem subestimar as
possibilidades da conjuntura. Evitando ilusões, evitamos a derrota.
Sabemos que existem condições objetivas e subjetivas
para o aumento das lutas no Brasil. Mas elas sozinhas não são suficientes. É
preciso que forças políticas reais capitalizem tais condições a transformando
em fatos. Sabemos também que nossa própria análise tem limitações. O acirramento
das lutas pode não acontecer, ou mesmo ultrapassar os limites que entendemos
que existem. Mas não podemos ter ilusões. Isso é possível mas não é provável,
até onde os fatos conhecidos apontam . De toda forma, é fundamental estarmos
atentos a conjuntura e ter orientações políticas claras. Esperamos estar assim
contribuindo para o fortalecimento do movimento e das lutas populares.
Anarquismo é Luta !!! Ir ao Povo – Lutar para Organizar, Organizar para
Lutar!!!
[1] O campo reformista é composto por todos os Partidos
Legais, que conseqüentemente tem parte ou centro de sua estratégia, a
realização de reformas no capitalismo através da conquista do governo e da
colaboração com a burguesia