Causa do Povo

Jornal da União Popular Anarquista – UNIPA  Nº 09 # Dezembro - 2003 /Janeiro -2004


 

 

 

ALCA e o aumento da miséria

 

ALCA é a sigla para Área de Livre Comércio das Américas, um acordo que visa criar um bloco comercial de livre circulação de bens, serviços e capitais em todo continente americano. A ALCA será uma extensão do NAFTA, o Tratado de Livre Comércio da América do Norte assinado em 1994 entre os Estados Unidos, México e Canadá. A trágica experiência do NAFTA, que já era esperada, só vem afirmar o que a ALCA significará para os povos da América Latina.

Com o NAFTA o número de mexicanos vivendo na pobreza cresceu 7%de 1994 a 1998 (segundo o Banco Mundial). Sem falar que mais da metade dos empregados do país  vive com baixíssimos salários e sem direito à aposentadoria. Nos Estados Unidos o resultado  foi o desemprego em massa, cerca de 766 mil desempregados entre 1994 e 2000. Os trabalhadores americanos são constantemente ameaçados pelas empresas que usam como argumento a possibilidade de deixar o país  e transferir as indústrias para o México, onde a mão-de-obra é mais barata. Assim esses trabalhadores são desestimulados e perseguidos na luta por seus direitos e na organização sindical séria e combativa.  Mas ao instalarem suas indústrias em território mexicano quem realmente lucra são os grandes empresários norte-americanos e não o povo mexicano porque são pagos baixíssimos salários e as garantias trabalhistas são nenhuma.

Assim como no NAFTA, quem perde nessa história de ALCA são os trabalhadores e a população pobre de todo o continente americano. O que os Estados Unidos fazem para que os governos dos países latino-americanos aceitem os acordos  é a mais pura chantagem. Usam  como argumento a famosa dívida externa que foi gerada pela classe dominante dos países endividados e já foi paga ao longo dos anos com o sangue e suor dos trabalhadores desses países. Em virtude das altas taxas de juros que não acabam nunca, vivemos de forma servil, pagando eternamente a conta. Para se tentar conseguir novos empréstimos e pagar os juros da dívida, os governos  aceitam as imposições dos países ricos, cortando gastos sociais. E quem sai prejudicado somos nós: a população pobre que necessita de serviços públicos como saúde e educação já tão precários e que tendem a piorar caso a ALCA seja implantada.

Por isso devemos nos mobilizar, resistir à implantação dessa Área de Livre Comércio e construir comitês de luta contra a ALCA. Não podemos esperar que governo algum mude de posição porque não vai mudar, inclusive o governo Lula que vem defendendo uma ALCA mascarada, mais “leve”, com uma base mínima, mas com flexibilidade para que os países possam optar pelo grau de comprometimento que assumiriam. Isso é realmente mascarar a ALCA, pois a base mínima que vai gerar demissões em massa, mais privatização e destruição dos serviços públicos será mantida.

No ano passado foi realizado um plebiscito em que a população disse não a ALCA, mas agora os partidos eleitorais e os movimentos reformistas querem pedir ao governo que realize um plebiscito oficial. Ora, será que as pessoas estavam apenas brincando quando participaram do plebiscito? e as pessoas que assinaram, foi dito a elas que aquilo era um ensaio, um aquecimento e que agora seria pra valer porque um governante autorizou? Nós pelo menos não estamos para brincadeira! O povo merece respeito! E é esse povo que através de sua mobilização e ação direta poderá barrar a ALCA. Por isso devemos nos organizar pelos nossos locais de trabalho, de moradia e de estudo para lutar não apenas contra a ALCA, mas contra o capitalismo e pela construção da Frente dos Oprimidos, que é o povo pobre organizado, resistindo na luta por uma vida digna, por um mundo sem opressão, sem o poder dos de cima. Isso só é possível através da organização autônoma do povo, que constrói coletivamente seu próprio poder, poder real de mudança e de transformação da sociedade.

 

Viva o Anarquismo!

Pelo Poder Popular!

Pela Frente dos Oprimidos!

 

 

O Movimento Indígena e a Luta de Classes no Brasil

 

O ano de 2003, primeiro ano do governo Lula, foi trágico para povo brasileiro e em especial para os povos indígenas. Foram cerca de 23 indígenas assassinados em todo o país. A violência promovida pela burguesia rural, cresceu em resposta ao avanço das lutas indígenas e contou com a cumplicidade do Governo Lula. A cada dia que passa, obrigados pela necessidade, os índios ocupam terras tradicionais, roubadas pelos latifundiários.

A primeira vítima de 2003 foi Aldo Makuxi, na terra indígena Raposa Serra do Sol em Roraima. Ele foi covardemente assassinado, no dia 2 de janeiro, por invasores da terra indígena. Logo em seguida tombaram Marcos Veron Guarani Kaiowá, Leopoldo Kaingang, Josenilson José dos Santos Atikum, José Admilson Barbosa da Silva Xukuru. No primeiro ano do Governo Lula morreram mais indígenas que em 2002, quando foram registrados sete assassinatos.

O ano de 2004 se iniciou igualmente com a emergência de sérios conflitos no Norte do país, em Roraima, devido a homologação da terra indígena  Raposa Terra do Sol (que na prática significará a retirada dos latifundiários da área). Foi o estopim de uma série de ações coordenadas pela burguesia rural local contra os índios. No dia 06 de janeiro, um grupo a mando desta burguesia (plantadores de arroz) invadiu a missão Surumu, destruiu um posto de saúde e uma escola e seqüestraram três missionários (que só foram libertados dia 09).

À tarde a ação do grupo se estendeu com a tomada das sedes locais da Fundação Nacional do Índio e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Simultaneamente dezenas de tratores, carretas e caminhões foram posicionados nas principais vias de acesso e saída do Estado e da capital, Boa Vista. Convocaram manifestações em frente à Catedral do Cristo Redentor (Praça do Centro Cívico) e fizeram pichações em carros e outros espaços com inscrições: “Fora Igreja!” e “Fora Índios!”.

É importante ver como o Governo do PT, no qual uma grande parte do povo depositou esperanças, age  como lacaio de uma política que beneficia o latifúndio. O Governo  barganhou terras indígenas (o governador de Roraima entrou para o PT com a condição do governo dificultar a devolução da terra aos índios no estado) como a Raposa Serra do Sol (que só foi homologada por conta da pressão do movimento indígena), promoveu a redução de terras indígenas como a Baú (no Pará) e insinuou realizar a transferência de índios Kaingang e Guarani de seus territórios tradicionais para outras terras.

Para completar, essa situação foi agravada com o jogo sujo da Casa Civil da Presidência da República,  gerenciado por José Dirceu, que submeteu a demarcação das terras indígenas às instâncias como o Conselho de Defesa Nacional (ou seja, aos militares, que normalmente massacram indígenas no interior do país), numa clara intenção de dificulta-las. O que mostra claramente a deliberada política antiindígena e antipopular do governo Lula.

Hoje existem no país diversas organizações indígenas locais e regionais - como a COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), o CIR (Conselho Indígena de Roraima), APOINME (Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo) que estão em luta pelos direitos indígenas. Como resposta a atual situação, algumas as organizações indígenas romperam formalmente com o Governo Lula no final de 2003, quando numa manifestação em Manaus, Amazonas, queimaram a “Carta compromisso de Lula”, assinada antes das eleições.

Os fatos narrados acima, apesar de estarrecedores, não nos surpreendem. Já havíamos indicado (na revista ruptura nº 05) estes desdobramentos para o governo Lula. Cabe agora aos movimentos populares darem uma firme reposta a esta situação desesperadora. Autonomia total frente ao governo, organização de uma ampla aliança entre os diversos setores do povo: trabalhadores, aposentados, servidores públicos, indígenas, todos devemos nos agrupar para fazer avançar a luta de classes.

A classe trabalhadora (indígenas, operários, trabalhadores rurais) deve avançar na mobilização, ocupando as ruas e através da ação direta garantir seus direitos. A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.

Conclamamos o povo a se juntar numa ampla Frente dos Oprimidos, que reunindo todos aqueles que vem sendo massacrados pela política neoliberal de Lula, possa barrar as reformas e garantir a defesa dos direitos do povo brasileiro.

 

 

Avante o Poder Popular ! Anarquismo é Luta !