Jornal
da União Popular Anarquista – UNIPA Nº 07 # Outubro – 2003
Contra o neoliberalismo petista: “novo partido” ou Frente dos
Oprimidos?
Após o governo petista
de Lula completar nove meses, deixando clara a sua política de continuismo e
radicalização neoliberal, os setores organizados da luta popular e o conjunto da
militância socialista não podem mais enganar os outros (ou a si mesmos)
assumindo uma postura de defesa – mais ou menos explícita – deste governo, sem
estar praticando um grave crime contra as massas trabalhadoras do país. Após a
Reforma da Previdência, a defesa da ALCA, o apoio discreto à
criminalização dos movimentos sociais no campo e na cidade entre outros ataques
contra o povo, fica muito difícil para amplos setores de base do PT, e de
partidos e organizações populares que giram ao seu redor, manter-se vinculados
ao governo federal e à sua política. A partir deste quadro, desenvolvem-se
movimentações que apontam para a construção de alternativas
ao desastre que o governo Lula vem representando para o setor majoritário das
organizações populares e militantes partidários da esquerda que tem depositado
no projeto político do PT, seus últimos 20 anos.
Apesar de a maioria dos setores
organizados do Movimento Popular (quase em sua totalidade compostos por
aparatos burocráticos domesticados pela burguesia), estar sob a tutela (sob o
controle) do colaboracionismo petista, o povo vem encontrando sua forma de
construir a luta e a resistência contra o avanço devastador dos interesses
capitalistas: no Rio, em Salvador e em João Pessoa os estudantes dão prova de firmeza
na luta contra as empresas de transporte; no campo e nas cidades o povo pobre e trabalhador se vale da ação direta para
conquistar terra e moradia; também vários povos indígenas lançam sua ofensiva
pelo resgate de suas terras que estão nas mãos do latifúndio. Enquanto isso, começa a ganhar força o debate pela construção de um novo
partido político que teria a função de – agora sim – conduzir o povo à vitória
contra o capitalismo e a burguesia, ao menos este é o discurso que tem sido
lançado aos militantes de base. Como anarquistas temos algo a dizer sobre este
tema.
Sempre denunciamos o erro (na melhor
das hipóteses) e o oportunismo (na pior) que representa para a causa da
libertação das massas trabalhadoras, a participação nas eleições burguesas e no
sistema político da Classe Dominante. Por isto, o resultado da eleição de Lula
não nos surpreende, ao contrário, confirma o que já dizíamos: “a libertação dos
trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”, e não de deputados,
senadores ou presidentes de nenhuma espécie. Lamentavelmente a proposta na qual
importantes setores da militância de base socialista começam a se engajar – a
construção do “novo partido” – se mantém aprisionada à concepção eleitoralista
e reformista, por mais que se use de maneira repetitiva o nome da revolução. É
hora de determinar com clareza a quem se confia a obra
de libertação popular: ao partido eleitoral ou ao povo organizado em luta? Como
revolucionários organizados politicamente somente confiamos para a libertação
das massas em quem sempre realizou as revoluções na história: as próprias
massas. Sabemos que os revolucionários organizados devem contribuir com as
lutas e os avanços populares – e a isso nos lançamos – mas nunca podem querer
substituir ou subordinar as massas, pois esta é a própria morte da revolução.
Assim, diante da impossibilidade
explícita da estratégia eleitoral e reformista para se conquistar dignidade e
justiça para o povo, convidamos as organizações populares e os militantes
socialistas sinceros a não apostar novamente neste erro que só pode levar a
luta popular a novas derrotas. Convocamos todos os filhos e filhas do povo a
construir uma verdadeira alternativa revolucionária popular, de massas e
socialista. Convocamos todos: estudantes, operários, desempregados, camponeses
a organizar uma ampla Frente dos Oprimidos que possa articular a partir das
ruas, das fábricas, das escolas e dos campos e a partir da pluralidade política
e ideológica que representamos um forte organismo revolucionário que faça avançar
a construção do Poder Popular, combatendo com autonomia desde o nosso campo o
Inimigo e marchando rumo a um Socialismo com Liberdade.
A Mão estendida ao
companheiro, o punho fechado ao inimigo !!!
Pela Frente dos Oprimidos !!!
Se não nos deixam falar, que nos ouçam gritar.
É bem comum ouvirmos dizer que o brasileiro é
um povo muito passivo, aceita tudo calado e de cabeça baixa. Na verdade, a todo
o momento os setores oprimidos provam o contrário, seja na história de
Palmares, Cabanagem e Canudos, seja hoje em dia, nas ocupações de terras,
prédios públicos, manifestações de rua e na luta cotidiana pela sobrevivência.
Há nove anos, os movimentos sociais como, MST,
sindicatos, comunidades de base da Igreja católica, entidades estudantis, etc.
buscam romper o silêncio imposto pelos órgãos de repressão e de comunicação em
massa, fazendo ecoar o grito dos que não tem ouvida sua fala.
O povo trabalhador, que por muito que
trabalhe, não consegue terra, teto, escolarização... respeito,
justiça, continua excluído dos benefícios sociais construídos com seu próprio
suor. Suor este, roubado pelos patrões que pagam salários de fome, e pelos
representantes dos poderes constituídos (presidente, deputados, senadores,
juízes...) sustentados com os impostos abusivos que pesam mais sobre a
população de menor renda.
Sete de setembro, data escolhida para a
manifestação do grito dos excluídos mostra bem as contradições entre o povo e
os poderosos. A comemoração da independência, esse ano como nos outros, foi
cheia de pompa militar e honras de estado, porém, a recepção com vaias aos
governadores do Rio, Rosinha Garotinho, e de São Paulo, Geraldo Alckmin,
durante o desfile nos leva a questionar: o povo brasileiro teria o que
comemorar?
Se procurarmos na história, veremos que a
independência pouco alterou significativamente a vida das pessoas simples e
trabalhadoras. Veremos que em 1822 o Brasil sai do domínio do Império
português, mas a escravidão continua até 1889 (persistindo resquícios até
hoje). Veremos que as novas relações internacionais levaram a subordinação
direta do Brasil à Inglaterra e a outras potencias capitalistas, através da
dívida adquirida em relações comerciais desiguais. Seria engraçado, se não
fosse trágico a importação de patins para gelo vindos da
Inglaterra, na época do império brasileiro.
Este ano, em Aparecida
do Norte – São Paulo – vinte mil pessoas se uniram no grito dos
excluídos para protestar contra a ALCA (área de livre comércio das Américas).
Essa “liberdade” de comércio que só tem a favorecer os Estados Unidos tem a
simpatia do governo Lula.
Eleito sob o falso discurso de promover
mudanças que beneficiassem o povo brasileiro, Lula honra agora seus
compromissos com o latifúndio e o capital internacional (os inimigos do povo).
Prefere a “estabilidade” da economia, a boa relação com o mercado
internacional, o que significa continuar transferindo os recursos da saúde,
previdência, educação... para o pagamento dos juros da
dívida.
Cada vez mais é preciso que nosso grito ecoe
de cada bairro de periferia, favela, de cada escola ou universidade, de nossos
locais de trabalho. Infelizmente, a manifestação do grito dos excluídos, na
maioria das capitais do país, não contou com ampla participação. Se motivos não
nos faltam, porque não estamos todos nas ruas?
Para que isso aconteça, é preciso uma
mobilização constante, onde os atos públicos sejam o ponto mais alto de um
processo de organização popular. Não uma organização hierarquizada, marcada
pela divisão da base e das lideranças, da massa conduzida pelo partido dos mais
sábios... como tem pregado a esquerda reformista e
autoritária. Isso só serve para afastar as pessoas do movimento social e manter
as coisas como estão.
Na proposta
anarquista, a transformação só vem com a luta, e a luta se faz a partir da
organização da base da sociedade, ou seja, do povo em seus locais de moradia,
estudo e trabalho, em direção a construção de uma
frente dos oprimidos, contra o capitalismo e o Estado.
Nem um passo atrás!
Todo Poder para o Povo !!!