Causa do Povo

Jornal da União Popular Anarquista – UNIPA Nº 04 # Julho – 2003


 

 

 

As Reformas Neoliberais do ... PT

 

A imprensa, o presidente da república, os ministros, os partidos da esquerda colaboracionista e toda a classe dominante têm diariamente enfiado pela nossa goela a obrigação de aceitar um determinado modelo de reformas que, segundo este conjunto de atores, é uma necessidade urgente e geral para promover a justiça social no país, mas que na verdade não é mais que a parte mais visível do aprofundamento do projeto político e econômico da burguesia brasileira e estrangeira até então expresso por FHC e sua gangue. Grande parte do povo brasileiro e de seus movimentos sociais encontram-se confusos e perdidos diante dos posicionamentos assumidos por Lula, pelo PT e pelo conjunto da esquerda reformista. Estes mesmos que até alguns meses atrás se colocavam contra o neoliberalismo, a política econômica recessiva, o privilégio dos banqueiros, as imposições do FMI, o ataque aos direitos populares e trabalhistas; agora exigem que todos curvem-se perante a manutenção e o aprofundamento de tudo isto.

            É importante, em primeiro lugar, enxergar com muita clareza os fatos e não se deixar confundir pelo bombardeio ideológico dos opressores. Existe todo um amplo conjunto de medidas que o governo federal busca aprovar no Congresso Nacional, e que representa um ataque poderosíssimo contra os direitos, a dignidade e a própria vida do povo, pois além de piorar diretamente sua condição social e econômica, aumenta os privilégios e a força da burguesia que constrói e aumenta seu poder com a destruição da capacidade de resistência dos de baixo. O projeto de Reforma da Previdência defendido pelo governo Lula e seus aliados tem o mesmo sentido daquele defendido por FHC. O objetivo é pouco a pouco (começando pelos servidores públicos) ir arrancando dos trabalhadores os direitos conquistados com muita luta e muito sacrifício ao longo de nossa história, e entregar os bilionários recursos previdenciários nas garras dos banqueiros nacionais e internacionais.

            A classe dominante tem consciência que o governo de Lula é o mais apto para concluir a obra neoliberal no Brasil. O apoio que ainda recebe de grande parte do movimento popular, e as ilusões que ainda alimenta no povo, faz do governo petista a melhor oportunidade para a burguesia consolidar seu projeto. Ao mesmo tempo que o governo quer reduzir os benefícios dos servidores públicos e cobrar contribuição de quem já está aposentado, a dívida dos empresários que não repassam aos cofres da Previdência as contribuições de seus empregados é perdoada. Este é o espírito da Reforma da Previdência de Lula. Além dela, sua Reforma Tributária mantém a maior parte dos impostos nas costas dos mais pobres, a Reforma Trabalhista pretende aniquilar os direitos de nossa classe e a mudança na Lei de Falência passa a privilegiar os banqueiros ao invés dos trabalhadores na fila para receber a dívida dos empresários que decretam a falência de seus negócios. Tudo isto está de acordo com o projeto do FMI, dos grandes industriais, dos banqueiros e latifundiários que continuam a governar o país através do “Companheiro Presidente” e da esquerda colaboracionista.

            Nós anarquistas sabemos que nosso lugar é na luta e na resistência ao lado de nosso povo e nossa classe. Não temos dúvidas de que este governo e seus projetos só atendem aos interesses de nossos opressores. Na verdade, sabemos que somente o povo organizado e em luta é capaz de conquistar e garantir seus direitos, sua dignidade e um país de iguais, coisa que governo nenhum pode nos dar. Não nos deixamos seduzir, confundir ou enganar pelo governo do Sr. Lula, estamos, sempre estivemos e sempre estaremos entregando todo o nosso esforço lutando para construir o poder do povo organizado, o Poder Popular!

 

 

 

A Universidade Pública será de todos ou não será de ninguém

 


Muito se fala sobre a defesa da Universidade Pública, mas quase nada se faz realmente por ela. Na verdade, o que acontece é que na maioria das vezes alguns setores universitários levantam a voz para defender um modelo de Universidade Pública, que de fato só tem de público o financiamento, pois é fechada ao povo, e a ele não serve.

            A miopia de grande parte do Movimento Estudantil e dos sindicatos de funcionários e professores, impede que o óbvio seja percebido. A tão combatida privatização da universidade avança a passos largos. Privatizar não é só cobrar mensalidade, é utilizar dinheiro público para objetivos privados (de empresas, ONGs, grupos de governo e etc...), e isto já acontece no sistema universitário público há muitas décadas, com um aprofundamento maior no período recente, e a conseqüência têm sido que se chega inclusive à cobrança de diversas taxas ilegais em várias universidades públicas país afora.

            A recente lei que criou a reserva de vagas para estudantes de escolas públicas, negros e pardos nas universidades estaduais permitiu que várias questões ficassem mais claras. A mais importante delas diz respeito ao fato de que o conservadorismo reacionário e racista da burguesia e da classe média está sempre pronto a ser acionado quando qualquer um de seus privilégios é ameaçado ou apenas questionado. Igualmente, várias pessoas de boa vontade se permitiram ser induzidas por uma série de mitos e mentiras que estão sendo marteladas a toda hora na imprensa.

            Sem dúvida o formato do projeto de reserva de vagas não é ideal, porém, igualmente não restam dúvidas que esta medida irá possibilitar uma maior abertura da Universidade Pública a diversos setores da sociedade que apesar de financia-la obrigatoriamente com o pagamento de impostos, nunca tiveram acesso a suas salas de aula e a sua produção acadêmica e tecnológica. Isto é o que realmente nos importa. Quanto aos mitos e mentiras, são facilmente desmascaradas.

1 – “No vestibular só conta a capacidade individual, portanto o racismo não conta”: Mentira. O racismo é um câncer social que atua de forma poderosa em nossa sociedade e durante toda a vida dos negros e negras brasileiras funciona como um peso extra que deve ser arrastado, desde a infância até a porta da universidade e além. A sociedade deve admiti-lo e se mobilizar no sentido de buscar reparar as suas nocivas conseqüências.

2 – “Deve-se resolver a educação básica e não começar pela universidade”: Mito. Por que resolver a educação básica se opõe a reverter as desigualdades na educação superior? Na verdade, a universidade tem um papel importante na solução dos problemas da educação básica da população oprimida, e quanto mais filhos e filhas do povo estiverem na universidade, maior a possibilidade dela se empenhar nesta tarefa com mais firmeza.

3 – “Os estudantes pobres e negros vão entrar na universidade sem preparo”: Esta é uma mentira suja, já está provado em diversas pesquisas que o desempenho no vestibular não tem relação alguma com o desempenho na vida universitária. Na verdade, o vestibular avalia um conhecimento descartável produzido pelas escolas particulares mais caras e pelos cursos pré-vestibulares comerciais, por isso o povo é sempre excluído.

            Entendemos a reserva de vagas como um avanço, pois além de incluir mais gente do povo na universidade, também questiona o próprio vestibular como forma de segregação. Deve-se mudar o modelo de Universidade Pública existente no país. Devemos buscar uma Universidade Pública para todos, ou então a privatização vai avançar e não vai ter Universidade Pública para ninguém. Na Argentina e no México, por exemplo, a Universidade Pública é aberta a todos os estudantes que saem do ensino médio, e não é de baixa qualidade por isto. Lutamos por uma profunda transformação do modelo de Universidade Pública vigente no país, queremos a Universidade Popular: aberta ao povo, a serviço do povo! Queremos romper com o autoritarismo, o racismo e o elitismo que dominam o nosso sistema universitário público, convidando os estudantes a engrossarem as fileiras da luta classista e popular pelas suas reivindicações imediatas e pela construção do Poder Popular conduzindo assim à destruição da dominação capitalista e estatal que esmaga todos os direitos e toda dignidade de nossa gente.