Causa do Povo

Jornal da União Popular Anarquista – UNIPA

Nº 23# MARÇO – 2006

 

Protestos nas periferias da França:

a luta de classes mostra sua cara nos países ricos

 

O mundo pôde acompanhar, ao longo do mês de novembro e dezembro, as agitações que ocorreram em alguns países da Europa, especialmente na França, uma das maiores economias do mundo e, não por coincidência, uma das mais importantes potências colonialistas do último século.  Foram mais de 300 focos de conflito, milhares de carros queimados e lojas apedrejadas nas principais cidades francesas.

 Em decorrência dos conflitos, foi adotado pela primeira vez no pós-guerra, em território francês, o estado de emergência, que permitiu o uso do toque de recolher nas cidades e deu à polícia autoridade de revistar casas. A lei é de 1955 e foi aplicada duas vezes, em 1985 contra a revolta pela independência da Nova Caledônia, e durante a Guerra da Argélia (1954-1962). Essa foi uma clara demonstração do governo no uso de medidas ligadas às guerras coloniais. Depois de 50 anos, a França trata os herdeiros do colonialismo, ou seja, os filhos e netos dos primeiros africanos e asiáticos que foram morar na França, da mesma maneira que tratou, no passado, os povos de suas ex-colônias.

Os protestos em diversas cidades francesas são apontados como os maiores já registrados desde os conflitos de maio de 1968. Os principais focos de resistência se concentraram nos bairros de imigrantes pobres de Paris e outras cidades, como Toulouse, Lyon, Marselha, Cannes, Nice, Roubaix, Lille, Tourcoing e Mons. Os problemas enfrentados por esses jovens são o desemprego, falta de aceso à educação e  moradia. Enquanto a população média francesa tem acesso à ensino de qualidade, lazer e emprego, esses jovens ou são utilizados como mão-de-obra barata em subempregos, fazendo o que um jovem tipicamente francês se recusa a fazer, ou vivem uma realidade tão ruim quanto esta, a  de estar desempregado.

O que esses jovens trabalhadores estão fazendo é uma clara reação ao inimigo capitalista, mesmo que seus atos não apontem, infelizmente, para a construção de um movimento  permanente de luta anti-capitalista e anti-estatista. É legítimo que esses jovens se organizem para a luta, assim como foi legítima a resistência argelina contra o colonialismo francês do século XX.

 O problema não é apenas cultural, como querem fazer acreditar alguns analistas pequeno-burgueses, para os quais, o fato de maioria dos imigrantes serem muçulmanos explicaria a situação de tensão que se instalou entre os pobres da periferia, as classes dominantes francesas e suas autoridades constituídas. Os liberais de plantão reduzem os conflitos à falta de tolerância dos franceses diante das diversidades religiosas ou étnicas, ou seja, esses jovens se rebelariam porque não seriam compreendidos em suas diferenças em virtude dos princípios universalizantes dos franceses.  

Os imigrantes não são considerados plenamente cidadãos porque o sistema necessita que eles sejam tratados dessa forma. Na década de 60, a França recebeu centenas de imigrantes argelinos, a maioria soldados fiéis às tropas francesas, que reprimiam a luta pela independência. Esses homens foram empregados como mão-de-obra extremamente barata, e utilizados como chamariz para a entrada controlada de novos imigrantes.  Isso para o bem das grandes empresas da França, que apesar de ter se retirado oficialmente do território argelino, continuava a ser uma nação com pretensões imperialistas.    

O que a revolta da juventude pobre francesa explicita é uma reação a uma tendência do capitalismo mundial: formação de um proletariado marginal, com base em critérios étnicos. A superexploração dos países de capitalismo avançado sobre os países da periferia se  reproduz dentro os países centrais, como a super-exploração sobre o imigrante, que constituem-se como proletariado marginal.

Não serão medidas paliativas de inclusão social que farão desaparecer as raízes do colonialismo. Os conflitos recentes só fazem revelar o que é inerente ao capitalismo e à luta de classes em qualquer país: a exploração econômica e opressão política. Pudemos assistir, também nesses conflitos, a incapacidade dos setores de esquerda em compreender e, principalmente, se posicionar em relação à situação vivida por esses jovens. Tanto os partidos eleitorais como as organizações pseudo-anarquistas, como a Federação Anarquista Francófana, no máximo se limitaram a comentários posteriores.

  A situação dos jovens pobres brasileiros não é muito diferente da dos jovens franceses de origem africana que moram nas periferias das metrópoles desse país.  Aqui nossos jovens não têm direito à saúde, educação, lazer, emprego e salário decente. Mas o que está sobrando nos jovens de lá, carece nos daqui: indignação e disposição para gritar às autoridades que não somos a “escória”. As elites Brasileiras não chegam a dizer publicamente o que disse o ministro do interior francês, mas pensam a mesma coisa sobre os jovens pobres do país, e ainda se servem deles exatamente do mesmo modo. Apesar da distância que nos separa, o sistema social nos aproxima. Somos todos subjugados à opressão capitalista.

         Por isso é importante incentivar as ações de luta e resistência do povo  trabalhador, sejam elas feitas por jovens, adultos ou idosos.

         Vamos seguir o exemplo que ecoa das periferias francesas, nos fazendo respeitar, lutando contra o jugo capitalista, cuja face imperialista se renova diariamente.

 

 

 

Remoção de Favelas: a luta pelo espaço urbano

 

A segregação da classe trabalhadora constitui um dos pilares da dominação burguesa sobre o espaço das cidades. Na cidade do Rio de Janeiro, o proletariado habitava, até o inicio do século XX, os vários cortiços localizados no centro da cidade. Com a reforma urbana realizada pelo prefeito Pereira Passos, durante o governo do presidente Rodrigues Alves, os cortiços foram destruídos e os trabalhadores foram obrigados a ocupar os morros. Tem-se, portanto, o começo do processo de favelização.

O objetivo do prefeito Pereira Passos era transformar a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, numa cidade “moderna” seguindo o modelo francês. Tratava-se de um esforço para controlar o espaço da cidade, garantindo a circulação de capitais, mercadorias, serviços, o livre desenvolvimento da especulação imobiliária e, a partir da construção de grandes avenidas, impedir a estratégia proletária das barricadas.

No Rio de Janeiro, além do morro do castelo, muitas residências também foram derrubadas para construção das principais ruas do centro, entre elas a Av. Rio Branco, que está completando cem anos. Para que essas obras fossem construídas e concluídas com êxito o prefeito removeu muitos moradores do centro, que por falta de moradia se realocaram nas encostas e nos morros próximos ao centro. O primeiro morro a ser ocupado foi o morro da Providência.(que também recebeu o nome de morro da Favela por causa de uma planta que, na época, era nativa nos morros). Desde então os morros passaram a ser abrigo da classe proletária, que vivia segregada, já que a favela tornou-se o refúgio dos desempregados e dos sem teto,além de abrigo a muitos refugiados políticos que eram duramente perseguidos pelos órgãos de repressão nos períodos ditatoriais.

A expansão das favelas do Rio de Janeiro é um fenômeno de mais ou menos quarenta anos, resultado da redistribuição espacial da classe trabalhadora. Ou seja, a concentração produtiva na região Sudeste provocou a migração de milhares de nordestinos que foram, e continuam sendo, utilizados como mão de obra barata. Com a política de arrocho salarial e com a crescente especulação imobiliária, os nordestinos se somaram aos trabalhadores do Rio e Grande Rio habitando as favelas.

À partir da década de 90, com a implementação das políticas neoliberais e com a realocação produtiva (deslocamento de capitais para cidades do interior), além do crescimento acelerado houve também o surgimento de novas favelas em regiões do interior do Estado, ao passo que as cidades de Rio das Ostras e Teresópolis com, respectivamente, 40,1% e 24% dos moradores vivendo em favelas, superam a capital do Estado. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000 18,8 % dos domicílios do Rio ficavam em favelas, ou seja, 308.622 de um total de 1.802,347 domicílios, enquanto em 1991 esse percentual era de 14,43%. Isso mostra que o processo de favelização acontece por causa da especulação imobiliária, a inexistência de programas de habitação para os trabalhadores e do empobrecimento constante do proletariado (muitas famílias que moravam em bairros operário são forçadas a migrar para as favelas).

Atualmente vem sendo muito discutido a política de remoção de favelas na cidade do Rio de janeiro, que tem causado grande polêmica devido à posição do prefeito Cezar Maia, que não é favorável à remoção apenas por que a lei orgânica do município proíbe. Na verdade, ele utiliza-se de uma lei para esquivar-se do problema, pois seu governo não tem uma política de habitação séria que atenda as necessidades da classe trabalhadora. Além disso, em mais uma demonstração de sua orientação fascista (tantas vezes expressa na violência com que reprime os camelôs e ambulantes) Cezar Maia afirma que o crescimento das favelas é o resultado da elevada taxa de natalidade entre a população favelada, logo, a solução seria o controle de natalidade.

O absurdo da afirmação do atual prefeito do Rio de Janeiro é desmascarado com a análise aprofundada do fenômeno, pois as verdadeiras causas da favelização contínua são: a falta de investimentos em habitação, a migração desordenada para as periferias das metrópoles, a inexistência de crédito habitacional para os trabalhadores, somadas ao desemprego, ao arrocho salarial, ao empobrecimento dos trabalhadores e à concentração fundiária. Esses últimos fatores são responsáveis pelo novo fluxo migratório: asfalto-favela.

Para os defensores da remoção das favelas, a contenção do crescimento desordenado tem por objetivo impedir a devastação de áreas preservadas. O discurso pseudo-ecologista visa legitimar ações segregacionistas que reforçam o controle da burguesia sobre o território, que constitui uma mercadoria fundamental. Não podemos esquecer que as favelas são vistas como espaços ocupados por criminosos e, portanto, inibem o turismo e desvalorizam os imóveis. É fácil concluir que a remoção só interessa à indústria do turismo e à especulação imobiliária, e reforça a exclusão da classe trabalhadora do solo, da infra-estrutura e dos equipamentos urbanos.

         Enquanto Prefeito do Rio e a Câmara de Vereadores ficam discutindo formas de intervenção nas favelas, a classe trabalhadora é submetida às péssimas condições de moradia, pois vive em um ambiente que não é seguro devido a localização (em encostas de morros, e devido a grande aglomeração), e pelo terror aplicado por intermédio dos órgãos de repressão do Estado que massacram os moradores.

          Assim sendo, a única solução para a questão urbana no Rio de Janeiro é a mobilização da população pobre das cidades e das favelas na luta por reivindicação como: subsídios para construção de moradias populares; indexação dos alugueis; regularização das ocupações; ocupação dos vazios urbanos e condenação da especulação imobiliária. Trata-se de garantir o controle do espaço pelo proletariado, pois é a partir da base territorial que novas e decisivas reivindicações são realizadas.

 

 

Os para-militares e a repressão burguesa

 

         A teoria anarquista conclui que o “Estado é simultaneamente a violência organizada da burguesia contra os trabalhadores e o sistema de seus órgãos executivos” (Grupo Anarquista Dielo Trouda). Essa concepção identifica a violência como um dos pilares fundamentais da dominação burguesa, tendo inclusive papel determinante no processo de acumulação de capitais: subjugando povos e nações, reprimindo os movimentos reivindicativos do proletariado e defendendo a propriedade privada.

         O papel central da violência exige da burguesia o desenvolvimento constante de novas tecnologias e mecanismos de repressão e de terror contra a classe trabalhadora. Um estudo da luta de classes na América Latina permite a identificação de uma arquitetura da violência burguesa, constituída por pelos órgãos estatais de repressão e por mecanismos difusos, porém organicamente vinculados ao Estados e/ou à uma fração burguesa específica.

         Os grupos para-militares são, depois das forças estatais, os principais instrumentos da violência burguesa na América Latina. Os para-militares desenvolveram uma importante função no combate às revoluções e revoltas centro-americanas. Atualmente, no México, o Exército Zapatista de Libertação Nacional convive com a violência dessas milícias de extrema direita. Assim como o Estado e a burguesia rural colombiana utilizam os para-militares no combate às guerrilhas revolucionárias.

         No caso brasileiro, a presença dos para-militares não é menor: o conjunto de matadores de aluguel, capangas e jagunços, constitui uma verdadeira milícia à serviço dos latifundiários no campo. Nos grandes centros urbanos, os esquadrões da morte, os grupos de extermínio, o crime organizado e o narcotráfico são braços para-militares responsáveis pelo assassinato diário de centenas de trabalhadores.

         A presença para-militar no espaço agrário brasileiro, com a União Democrática Ruralista (UDR) organizando milícias específicas para combater os movimentos camponeses, é de fácil percepção. Entretanto, o vínculo orgânico entre as forças para-militares urbanas - como o narcotráfico -  ao Estado e a burguesia, é de menor percepção, pois possuem uma relação um pouco mais difusa. Todavia, uma análise mais aprofundada nos permite identificar esses vínculos orgânicos.

Um caso específico, como o ataque ao ônibus da linha 350, pode nos ajudar a entender as relações orgânicas e difusas entre traficantes e o sistema burguês de dominação. Traficantes que dominam morros da zona norte da cidade incendiaram, no dia 29 de novembro de 2005, um ônibus que liga o Centro do Rio de Janeiro ao subúrbio, deixando cincos mortos, incluindo uma criança de colo, e treze feridos, alguns em estado grave. A Ação foi motivada por vingança: o líder do tráfico, conhecido como Lorde, pagava propina mensal a policiais militares da área, mas quando o traficante se recusou a continuar os pagamentos os PMs fizeram um ataque à quadrilha e mataram um traficante. Em represália, Lorde ordenou o incêndio e o assassinato dos passageiros.

Esse tipo de ação que impõe o terror e a morte à classe trabalhadora, infelizmente não é novidade. Em agosto de 1993, vinte e um moradores do Parque Proletário de Vigário Geral foram assassinados por PMs que queriam se vingar de traficantes que se recusaram a pagar propina e mataram outros policiais. Também podemos citar a chacina da Baixada Fluminense, ocorrida em abril de 2005, onde trinta moradores das cidades de Queimados e Nova Iguaçu foram mortos por policiais militares, em represália as investigações sobre o grupo de extermínio formado pelos PMs.

A referência a mais um caso reforça nossos argumentos: o seqüestro de oito jovens do Parque Proletário de Vigário Geral. No dia 13 de dezembro de 2005, traficantes de Parada de Lucas invadiram Vigário Geral com ajuda de PMs de 16o. Batalhão, utilizam fardas da PM e o carro blindado da polícia - “o Caveirão” - com o objetivo de controlar o tráfico de dragas nas duas favelas. A relação orgânica da PM no seqüestro e no assassinato dos jovens de Vigário ficou explicita quanto policiais militares libertaram alguns acusados de participação nos crimes.

Fica evidente a inter-relação entre as forças de repressão do Estado e os grupos para-militares, pois quando não são os próprios policiais que organizam os grupos, a corrupção policial alimenta os traficantes. Mesmo nos conflitos entre a polícia “mineira” (polícia corrupta) e os traficantes, quem sofre com a violência são os trabalhadores.

Em todos os episódios citados, a classe trabalhadora é usada como refém da opressão de grupos para-militares, sejam traficantes, grupos de extermínio ou policiais corruptos, sendo as chacinas o principal método de violência e terror utilizada por tais grupos. Portanto, no processo de acumulação de capital e exercício do domínio, a opressão se expressa pelo silenciamento, pelo extermínio físico e pela tortura psicológica dos trabalhadores.

O proletariado das favelas e das periferias têm apenas um caminho para enfrentar os grupos para-militares: a organização de milícias de autodefesa, formada por trabalhadores, e que sejam capazes de resistir militarmente às ameaças dos para-militares. As milícias populares de autodefesa devem ser democraticamente organizadas e politicamente subordinadas as entidades da classe trabalhadora. Além da autodefesa, os trabalhadores têm que responder a cada chacina imediatamente, atacando a propriedade privada (destruição de ônibus, carros da polícia, prédios, etc). A luta pelo direito à vida e as manifestações por justiça devem ser incansáveis, pois a liberdade dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.

 

Pela organização da Autodefesa da Classe Trabalhadora!!!

 

 

 

 

Perseguição política, massacres e resistência – as provas do potencial revolucionário do campesinato

 

A violência no campo- como a mídia costuma se referir a guerra de classes entre os camponeses explorados e os fazendeiros ricos - é uma realidade no Brasil desde sua invasão pelos colonizadores portugueses. A escravização de índios e negros, assim como a exploração dos camponeses pobres é obra da mesma classe dominante que a séculos mantêm o povo refém de sua autoridade e violência. Mas essa exploração nunca passou pela história sem a heróica resistência dos oprimidos. Por isso, a elite sempre se viu obrigada a lançar mão das mais variadas falsidades sobre o povo do campo, para justificar suas carnificinas na tentativa de barrar a organização e a luta camponesa.

Os quilombos, como o de Palmares, as chamadas revoltas messiânicas, como a de Canudos e, mais recentemente, as organizações de trabalhadores rurais contra o capital, como as Ligas Camponesas, os sindicatos de trabalhadores rurais e os movimentos sociais de camponeses - entre eles o próprio MST - têm uma semelhança histórica inegável: todos foram vitimas da repressão mais cruel do Estado. E, sem dúvida, os maiores massacres contra os trabalhadores no Brasil aconteceram e acontecem no campo.

Os recentes assassinatos de trabalhadores rurais fazem parte dessa história e desse cotidiano de combates que vitima, a cada dia, mais lutadores do povo. Mas isso não impede o avanço da organização da classe camponesa.

         Se continuarmos a nos guiar pelo ponto de vista da mídia burguesa ou dos “intelectuais” subservientes ao Estado e a burguesia, acreditaremos em mentiras das mais cínicas, como por exemplo, a de que o povo rural é por natureza “pacífico e ordeiro”, como gado pronto para o abate, e que as lutas no campo são obra de “vândalos, agitadores e desordeiros” que desrespeitam o “legítimo direito de propriedade” e representam “ o atraso” ao não se submeterem a exploração capitalista. Nada mais falso! O direito de propriedade que eles dizem ter é sobre as terras que foram, e ainda são, roubadas dos índios e posseiros e que, historicamente, servem para a exploração dos oprimidos, como foram os escravos negros e são hoje os bóias-frias, os sem-terra e os pequenos agricultores, obrigados a produzir para um “mercado” que nunca lhes dá nada em troca além autoritarismo e sofrimento físico.

         Um dos mais temidos inimigos da elite brasileira é a organização dos trabalhadores do campo. Isso porque estes são a parcela da classe oprimida que representa um dos pilares fundamentais de sustentação do capitalismo no Brasil. Foi a exploração destes trabalhadores que permitiu o surgimento do capitalismo neste país e é ela que permite seu desenvolvimento. Mas a dependência que a burguesia tem do trabalho dos camponeses também foi o que deu força a estes em todas as suas lutas.

         A classe dominante têm motivos para temer os trabalhadores rurais, pois sabe que estes não dependem dela para produzir e se reproduzir. A organização dos camponeses representa a falta da necessidade da existência dos “proprietários” latifundiários, para o suprimento das necessidades do povo. A organização dos camponeses para lutar contra a exploração, também é a organização para produzir de forma autônoma. É o começo do fim para toda a burguesia.

         Por isso a elite sabe que lutar contra a organização dos camponeses é lutar pela sua permanência enquanto exploradores do povo, é lutar para continuar sobrevivendo do trabalho alheio. Também por isso, vai usar de toda a violência, seja estatal ou para-estatal, para impedir essa organização.

Os recentes acon-tecimentos envolvendo trabalha-dores rurais no Brasil só vem a somar com nossa história de massacres e resistência. Os assassinatos de trabalhadores rurais e militantes que buscavam organizar as lutas de seu povo, como o da freira Dorothy Stang e de Pedro Laurindo da Silva - ambos no Pará - as ameaças de morte sofridas pelos militantes mais combativos da base do MST, assim como os decretos de prisão desses mesmos militantes pelo Estado, entre outros fatos,  provam que os camponeses ainda estão na linha de frente da luta de classes em nosso país e que as classes dominantes reconhecem que devem temer os camponeses.

         A União Popular Anarquista tem a clareza de que dessa guerra só poderá sair um vencedor. Tentar “acabar” com a violência no campo através de acordos entre os trabalhadores e a burguesia é manter viva a burguesia. E manter viva a burguesia é se submeter à exploração e violência desta.

         Os trabalhadores nada têm a ganhar com esta postura ilusória e reacionária. A solução para os trabalhadores do campo é levar a luta adiante e ter como objetivo a extinção da exploração do trabalho.

         Cabem às organizações da esquerda revolucionária investirem firmemente no potencial revolucionário da classe camponesa, que tem séculos de experimentação na luta de classes e no embate do trabalho contra o capital .

 

Pelo fim do latifúndio!

Todo apoio a luta pela terra!!

 

 

 

Da “Crise a Recuperação”: o esforço eleitoral do PT em 2006

 

         Em nosso documento “Os revolucionários e a democracia burguesa” (Comunicado nº12, janeiro/2006), indicamos que a crise de corrupção no Governo Lula não seria um fator - se considerado isoladamente - suficiente para eliminar as condições necessárias à reeleição de Lula, como presidente, e a manutenção do PT no Governo Federal. 

         As pesquisas divulgadas pela mídia burguesa revelam isso e indicam a “recuperação” do Governo Lula. A pesquisa Sensus aponta a virada de Lula em relação ao prefeito de São Paulo, José Serra, nas intenções de voto. Num segundo turno com o tucano, Lula teria 47,6% dos votos, contra 37,6% de Serra. Na pesquisa de novembro, Serra, com 41,5% das intenções de voto, bateria Lula, que tinha 37,6%, num eventual segundo turno.(15/02/2006, Folha On Line, “Pesquisa mostra Lula na frente e oposição reage”)

         Assim, como havíamos indicado em janeiro de 2006, o Governo Lula já conseguiu reverter os efeitos negativos da “crise do mensalão”. Esta reversão está diretamente relacionada ao emprego da máquina pública e de uma política clientelista, para mobilizar o apoio das diferentes camadas da população. Os dados comprovam isso:

O gráfico abaixo revela como somente em dezembro de 2005 foram comprometidos R$ 7,8 bilhões, recursos superiores aos efetivamente gastos no ano de 2005. Estes recursos e certas medidas anunciadas pelo Governo (por exemplo, aumento do salário mínimo  previsto para o primeiro semestre e o“programa” habitacional), procuram exatamente criar um contexto subjetivo junto população pobre e trabalhadora.

A recuperação política do PT indica que a reeleição de Lula parece cada vez mais se firmar enquanto possibilidade concreta. E isso significa a continuidade de uma situação política: a do PT enquanto gestor da transição do regime econômico intervencionista para o regime econômico liberal. O que mantém, no interior do movimento de massas, a contradição entre “governismo e anti-governismo”. Significa também que a burguesia, através do PT, terá todas as condições de neutralizar ou obstaculizar (de dentro) a luta dos trabalhadores contra esta transição.

Cabe então no atual momento, acentuar a luta contra as reformas do Governo Lula e pelas reivindicações econômicas e políticas da classe trabalhadora; através desta luta poderão surgir as ferramentas de organização necessárias às tarefas do proletariado brasileiro. Aprofundar o processo de ruptura com a CUT e a UNE, desgastando a via reformista no movimento sindical-popular, é uma destas tarefas.

 

 

 

 

O Governismo Velado da direção do MST

 

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) surgiu da reunião de vários movimentos populares de luta pela terra, os quais promoveram ocupações de latifúndios nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, na primeira metade da década de 80. O MST foi fundado em janeiro de 1984, na cidade de Cascavel, no Estado do Paraná, por ocasião do Primeiro Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, com 80 representantes de 13 Estados. Atualmente, o movimento está presente em 23 dos 26 Estados da federação, e é capaz de organizar manifestações em duas dezenas de capitais simultaneamente. Pelas últimas estimativas, os efetivos do MST se elevam a 350 mil famílias assentadas, 120 mil famílias em acampamentos e cerca de 12 mil militantes, o que representa cerca de 1,5 milhão de pessoas.

         A tática da ação direta (ocupação de terras), o ataque a propriedade, a denúncia do latifúndio e da concentração de terras, a condenação do neoliberalismo e a capacidade de mobilização e organização em um país de dimensões continentais, deram ao MST lugar de destaque no movimento popular-sindical. A década de 1990 foi sem dúvidas o auge do movimento camponês, com a “Marcha Nacional Por Emprego, Justiça e Reforma Agrária”.Levando cem mil manifestantes para protestar contra a política de reforma agrária do governo Fernando Henrique e exigindo a punição dos PMs responsáveis pela chacina de El Dourado dos Carajás, o MST mostrou sua força.

         Entretanto, a estratégia eleitoral adotada pela direção do movimento tem substituído sua força reivindicativa pelo jogo de cartas marcadas do parlamento. Ao passo que a vitória eleitoral do Partido dos Trabalhadores (PT) é interpretada pelo MST como uma vitória do próprio povo: “A eleição de Lula, em 2001 (sic), representou a vitória do povo brasileiro e a derrota das elites e de seu projeto” (disponível na página www.mst.org.br). E não se trata apenas da defesa do mandado do PT, mas sim de uma visível opção pela via eleitoral. Na análise do primeiro turno das eleições de 2002 o MST comemora: “A esquerda partidária recupera o fôlego. E nós do MST também podemos sair satisfeitos; praticamente elegemos todos os candidatos que apoiamos nos Estados. Assim, reforçamos nossa bancada na Câmara Federal, onde praticamente teremos pelo menos um deputado federal por Estado. E, em quase todos os Estados, elegemos deputados estaduais que nos apóiam” (Jornal Sem Terra, outubro de 2002).

          Se existiam motivos para comemorar o aumento, aliás, o reforço da bancada parlamentar, o crescimento da participação na estrutura estatal significou uma relação inversamente proporcional à ação direta: segundo os dados oficiais da Ouvidoria Agrária Nacional do INCRA, durante os oito anos do governo Fernando Henrique houve em média 305 ocupações por ano, sendo 90% promovidas pelo MST; já no período entre 2003 e 2004 houve em média 274 ocupações, sendo 80% organizadas pelo MST. A queda das ações do movimento foi acompanhada pela queda dos assentamentos: FHC assentou em média 65,5 mil famílias por ano, por sua vez, Lula assentou 58,7 mil famílias em média por ano.

         As ocupações podem ter diminuído, mas a repressão ao movimento camponês aumentou. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT) no período 2003-2004 houve mais de 2,2 mil conflitos agrários e um saldo de 112 assassinatos. (CPT, Conflitos no Campo – 2004, disponível na página www.cptnac.com.br). Portanto, os dois primeiros anos do governo Lula foram mais violentos do que os anos de 1995 e 1996, marcados, respectivamente, pelas chacinas de Corumbiará e El Dourado dos Carajás, que somam 95 assassinados.

         O que não faltavam eram motivos para a continuidade das ocupações, da radicalização da luta, da forte crítica ao governo Lula. Entretanto, no Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária de 2005, 17 de abril, o MST organizou um marcha com cerca de 12.500 sem-terra, que foram levados de ônibus até Goiânia e de lá seguiram a pé para Brasília, onde uma delegação de 50 lideranças do movimento foi recebida pelo presidente.

         Os líderes do MST só esboçaram algumas críticas ao governo Lula e ao PT após os escândalos de corrupção: o uso de “caixa dois” em campanhas eleitorais do PT. No texto intitulado “Posições políticas do MST nessa conjuntura”, de 9 de agosto de 2005, a direção do movimento explicita seu posicionamento: “Demos adeus ao governo do PT e seus compromissos históricos. Sofremos a conseqüência de um governo ambíguo, composto por forças políticas da sociedade que vão desde a direita até a esquerda, e que muito pouco tem a oferecer”. É interessante ressaltar que o texto não faz referência ao “mensalão”, na verdade o MST reproduz a versão oficial do PT sobre os fatos, ou seja, reconhece apenas o uso de “caixa dois”.

         De maneira aparentemente contraditória, a ambigüidade de que o MST acusa o PT é encontrada no próprio movimento dos sem-terra. Pois ao mesmo tempo em que o MST afirma que é autônomo, de que as lutas populares são o único caminho para um mais sociedade justa, o movimento comemorou a eleição do Lula e de outras parlamentares, um governo que já deixava explícito seu compromisso com a burguesia, como o próprio movimento identificou no texto acima citado: “O governo eleito comprometeu-se também, por meio de uma carta aos brasileiros, a promover mudanças, apesar de manter os contratos com o capital” (os grifos são nossos). A questão é simples: como garantir mudanças se os contratos com o capital seriam mantidos?

         A crítica que o MST faz ao governo Lula, isto é, de que as mudanças não podem ficar apenas no discurso, servem para as lideranças do movimento dos sem-terra. A autonomia de classe não se constrói com palavras, mas sim com uma ruptura definitiva com o governismo e, conseqüentemente, com o colaboracionismo. A luta concreta, a ação direta e o ataque à propriedade fundiária são os meios necessários para a construção de um movimento camponês classista que aponte para a ruptura definitiva. Ao mesmo tempo em que a unificação das lutas das massas camponesas e urbanas é condição essencial para a transformação radical da sociedade, com a destruição do poder da burguesia e do Estado. Os primeiros passos a serem dados são: 1) ruptura com o governismo; 2) abandono e boicote das eleições burguesas; 3) a construção de uma entidade de classe que garanta a unidade de todas as frações do proletariado (do campo e da cidade); 4) a elaboração de um calendário de mobilizações de ataque à propriedade privada e de enfrentamento do poder burguês.