Causa do Povo

Jornal da União Popular Anarquista – UNIPA

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22 # novembro de 2005 

 

Movimento Grevista: Classismo X Corporativismo

 

Entre o final do primeiro semestre e o início do segundo semestre desse ano, o funcionalismo público federal, alguns setores do funcionalismo estadual e os bancários promoveram importantes movimentos reivindicativos paralisando coletivamente suas atividades, com a deflagração de greves.

No setor público federal as paralisações do primeiro semestre foram realizadas pelas bases da Federação Nacional dos Trabalhadores da Previdência (Fenasp), Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef), algumas seções do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica e Profissional (Sinasef). No segundo semestre o movimento paredista foi encampado pela educação federal, com muita força no Sinasef e na Federação de Sindicatos de Trabalhadores das Universidades Brasileiras (Fasubra) e com menor intensidade na base do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes).

Ainda merecem destaques as greves dos trabalhadores dos correios, cuja entidade nacional é a Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios, Telégrafos e Similares (Fentect), e dos bancários, na base da Confederação Nacional dos Bancários (CNB). Em relação aos últimos é importante ressaltar que, apesar da maior participação dos trabalhadores dos bancos estatais (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal), a paralisação entre os bancários do setor privado foi significativa.

Propomos entender todo esse movimento grevista a partir dos seguintes elementos: considerar a atual conjuntura política-econômica brasileira bem com as especificidades dos setores paredistas, refletir sobre os recentes passos do sindicalismo no Brasil e a nossa estrutura sindical mais ampla.

A analise das greves nos permite concluir que o proletariado do setor de serviços e comércio é, dentro do movimento sindical, a fração da classe trabalhadora mais mobilizada na luta por suas reivindicações, principalmente devido a ser o setor (em especial os funcionários públicos) a sofrer os efeitos diretos das reforma liberais (Reforma da Previdência, Reforma Administrativa e a gradual Reforma Universitária).

Além disso, hoje o terceiro setor da economia é o principal absorvedor de mão-de-obra (cerca de 56,5% da população economicamente ativa do Brasil), e, em tempos de globalização e neoliberalismo, os lucros do capital financeiro são os mais elevados.

No caso dos servidores é importante destacar que a política de superávit primário do governo Lula, além dos cortes nas áreas sociais (saúde, habitação, educação, etc), impõe um forte arrocho salarial ao funcionalismo federal e drástica redução das verbas públicas, o que provoca a deteriorização das condições de trabalho.

Todas essas condições impelem os setores citados a vanguardizar a luta do proletariado brasileiro. Entretanto, além da repressão burguesa e do Estado, a classe trabalhadora enfrenta suas contradições internas, expressas nas ideologias e práticas corporativistas e colaboracionistas que estruturam os sindicatos. As dificuldades de unificação e de radicalização das lutas comprovam a necessidade de romper com essas ideologias burguesas que impregnam o movimento.

No primeiro semestre se buscou uma greve unificada do funcionalismo federal, entretanto a dinâmica corporativista prevaleceu: as bases da Fenasp e Condsef fizeram seus movimentos paredistas isolados e as bases da educação federal só iniciaram seu movimento no segundo semestre. Por sua vez, os bancários, apesar de toda a importância da mobilização, tiveram uma greve exclusivamente salarial que acabou com um rápido acordo.

Em ambos os casos e também na greve dos correios, a classe trabalhadora enfrentou as correntes governistas, especialmente aquelas do PT (Articulação, Articulação de Esquerda, entre outras) e do PCdoB (Corrente Sindical Classista – CSC), que se esforçaram ao máximo para protelar o início das greves e para sair o mais rápido possível das paralizações. Não há mais dúvidas de que o governismo constitui um eficiente instrumento de colaboração de classe e que o corporativismo soma para o imobilismo, conseqüentemente, para o colaboracionaismo.

As limitações da greve do funcionalismo público e dos demais setores citados, bem como suas dificuldades, são resultantes das ações de forças governistas e da ideologia corporativista existentes no movimento sindical. As greves isoladas são tão frágeis quanto o trabalhador isolado. Para o fortalecimento das lutas e das greves da classe trabalhadora é preciso romper com o governismo, mas precisamente com o corporativismo. Apontar para greves e lutas unificadas é a estratégia do sindicalismo classista.

Uma etapa importante no processo de rompimento com o governismo já se iniciou: a construção do CONLUTAS. Entretanto é fundamental que o movimento de ruptura com a CUT represente também uma ruptura com o modelo corporativista do movimento sindical, e que o CONLUTAS fortaleça as oposições sindicais ao mesmo tempo em que aponta para estratégia da ação direta e da radicalização das lutas. Todos nós sabemos do potencial revolucionário do proletariado, mas sem organização; sem entidades fortes para capitalizar esse potencial em torno de um programa classista que desestruture o sistema de exploração e dominação, a classe trabalhadora continuará submetida aos grilhões da burguesia e dos Estado.

 

Por um Sindicato  Classista!!

 

 

 

Por Onde (re) Começar?

Crise e reestruturação do movimento

sindical-popular

 

O movimento sindical-popular no Brasil vive uma grande crise. Mas esta crise, como toda crise, marca não somente o momento de decadência das forças políticas e ideológicas. Indica também o momento limite em que ou ocorre uma ruptura e uma crítica destas forças políticas e ideológicas, ou o conjunto da sociedade, classe ou frações de classe assumem (tacitamente) sua responsabilidade e participação no processo de degeneração social, econômica e ideológica.

Este é o tipo de conjuntura que vivenciamos. Ou uma crítica prática e teórica se desenvolve no interior do movimento sindical-popular, em relação a toda história do PT e da CUT e da “via reformista de luta”, das causas da sua degeneração, ou a classe trabalhadora brasileira (ou parte desta classe)  estará assumindo a “co-participação” na política aplicada pelo PT e pelos setores governistas - realização das reformas liberais e a subserviência incondicional aos interesses da burguesia. O silêncio e conivência em relação ao Governo Lula e a prática colaboracionista dos setores governistas do movimento social condenarão esta geração de militantes e também de trabalhadores perante a história.

Mas para além da crítica, é preciso formular propostas claras. Neste momento, é preciso intensificar a luta contra as reformas liberais de Lula/PT/PSDB/PFL. Mas para lutar contra as reformas, estamos enfrentando uma grande dificuldade: o movimento anti-governista dos trabalhadores não dispõe de instrumentos organizativos de peso, e os que existem estão sob a direção do campo governista (CUT/PT), e estão trabalhando para apoiar o governo.

O processo de construção do CONLUTAS encontra limitações, objetivas e subjetivas, e está sendo marcado por uma série de contradições internas, como, aliás, qualquer movimento social (ver “Balanço Político da Conjuntura”, Comunicado da UNIPA nº 09/Setembro de 2005). Os atos realizados em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro pela CONLUTAS, entre agosto-setembro/2005, mesmo sendo importantes, foram pequenos. Já foi marcado um Congresso do CONLUTAS para abril de 2006. Enquanto isso as organizações da CONLUTAS nos Estados não têm ganhado fôlego. Ou seja, o ritmo do avanço da CONLUTAS está lento. As instâncias nacionais se estruturam, mas as locais se encontram estagnadas.

Para que a CONLUTAS possa cumprir sua missão histórica (servir como pólo aglutinador da luta contra as reformas liberais de Lula, aumentar o nível da luta de classes no Brasil), é preciso saber exatamente por onde recomeçar. O primeiro passo da re-estruturação do movimento sindical-popular, deve ser “de baixo para cima”. Ou seja, devemos investir no trabalho de base, na Construção da CONLUTAS pela Base. Isto significa organizar em primeiro lugar - investir na criação de organismos nos locais de trabalho, estudo e moradia. Em segundo lugar, é preciso convocar Plenárias e Encontros Estaduais amplas, que possam atrair diretamente as bases sindicais e populares para a discussão e mobilização. Isto é o que deveria estar sendo feito no Rio de Janeiro, por exemplo.

Mas é preciso combinar as propostas concretas, com a crítica do modelo de movimento e organizações de luta. Sem a destruição do sindicalismo de estado/corporativista e seu modelo de mobilização vigente (herança do fascismo da era Vargas), é impossível criar organizações de luta da classe trabalhadora que rompam efetivamente com os fundamentos mais profundos do “governismo”, e que não se burocratizem no futuro.

A UNIPA entende que a CONLUTAS neste momento pode ser uma ferramenta fundamental para a re-organização do proletariado brasileiro, apesar das contradições já manifestas. E exatamente por existirem estas contradições, existe ainda um espaço de disputa a ser explorado. Mas para isso é preciso travar uma luta em favor do sindicalismo classista e do modelo de mobilização pela ação direta, combatendo o sindicalismo corporativista. Sem a crítica teórica e a luta concreta, não há tática correta.

 

Ir ao Povo!!!

Lutar para Organizar,

Organizar  para Lutar !!!