Causa do Povo
PUBLICAÇÃO da União Popular Anarquista –
UNIPA
21 # setembro /outubro DE 2005
Rio de Janeiro - Brasil
unipa_net@yahoo.com.br
Mensalão: Crise Moral ou
Mecanismo de Dominação?
Todo o sistema de corrupção agora investigado, que começou com
gravações do ex-chefe dos correios, Maurício Marinho, recebendo três mil reais
em propina e chega a um esquema bilionário de pagamento de “mesada” aos
deputados da base do governo Lula, não deve ser entendido simplesmente como uma
prática imoral das elites políticas, muito menos como uma fragilidade das
“instituições democráticas” ou uma tentativa de “derrubar” o governo Lula.
Trata-se, como esse texto pretende provar, de um dos mecanismos de dominação do
sistema burguês-estatista.
Inicialmente
é importante destacar que a Revista Ruptura no. 5 projetou
três possíveis cenários político-sociais durante o governo Lula, dois dos quais
já se confirmaram: o “primeiro cenário”, com o governo dando continuidade ao
neoliberalismo e os movimentos sociais apáticos, e o “terceiro cenário”, com o governo sofrendo pressão da direita.
Esses cenários comprovam as teses bakuninistas sobre
o reformismo: a utilização dos partidos reformistas de base popular-operária é
uma tática da burguesia que permite uma consolidação pacífica do
neoliberalismo; e o PT, embora seja elite dirigente (por ter o cargo mais
elevado do poder executivo), não faz parte da elite orgânica, isto é, do corpo
político burguês formado por partidos de direita, empresários e militares,
responsável pela conservação do sistema social capitalista. Sendo assim, o PT
está a serviço da elite orgânica.
Dentro desses marcos, entendemos que a burguesia tolera o governo
Lula enquanto este é um instrumento para frear os movimentos populares e fazer
as reformas neoliberais, no mais a relação PT-burguesia foi constituída, de um lado, pela da
manutenção do sistema de corrupção (pagamento de propina aos políticos de
partidos oligárquicos da base aliada: PL, PP, PTB e PMDB, e da posição: PSDB e
PFL), e, por outro lado, pela desconfiança e pela vigilância (exercida pelos
partidos que representam o complexo industrial-agrário-militar-financeiro: PSDB
e PFL). Portanto, o PT construiu um projeto de oito anos de gestão do
neoliberalismo no Brasil sobre duas bases: o controle sobre os movimentos
populares e a continuidade dos esquemas de corrupção.
Sendo
assim, o gigantesco sistema de financiamento ilegal de campanhas eleitorais e pagamentos
de mesadas, envolvendo empresas e bancos privados, bem como empresas e bancos
estatais, não pode ser entendido como desvio moral dos dirigentes e políticos
do PT, mas sim como um instrumento sustentabilidade
do projeto petista de poder.
É
claro que os governos anteriores eram igualmente corruptos. É só lembrarmos das
fraudes dos processos de privatização e da compra de votos para a emenda
constitucional da reeleição de FHC. E não temos dúvidas (as próprias
investigações apontaram para isso) de que o esquema de mesadas é muito anterior
ao governo Lula. O PT apenas dá continuidade à corrupção da mesma forma que o
mantêm o neoliberalismo.
O
plano petista corria bem, entretanto a disputa dos partidos da base aliada
pelos cargos políticos nas estatais e pelas empresas privadas que prestam
serviços ao governo (cerca de três ou quatro partidos chegaram a disputar
negócios dentro de uma mesma
empresa), somada ao descontentamento do empresário Arthur Washeck
Neto (dono da Comam e da Vetor que prestavam serviços
ao governo federal desde o governo Collor), que ordenou as gravações de
Maurício Marinho, precipitaram a publicização do
esquema das mesadas.
Longe
de gerar uma desarticulação total do
governo Lula, a atual crise é enfrentada com a manutenção da elevada taxa de
juros, para que a burguesia não continue tencionando o governo (pelo menos nas
pessoas do presidente e do ministro da fazenda). E o custo político, por
enquanto, é o abalo sobre as pretensões de reeleição do Lula.
Em suma, a burguesia não está arquitetando um “golpe”, mas os partidos da
oposição, PSDB e PFL, estão utilizando a crise como arma para a sucessão
presidencial e até podem tentar pressionar mais o governo. Todavia, as ações da
burguesia vão depender das provas e se elas irão implicar Lula ou Palocci. Este último já foi acusado de corrupção durante o
seu mandado como prefeito, mas as forças da direita, como por exemplo FHC,
sugerem prudência nas críticas ao ministro da fazenda.
A
situação exige firmeza dos revolucionários, devemos combater as burocracias
governistas do movimento popular-operário; denunciar a via eleitoral-reformista
como colaboracionista e mantenedora do sistema capitalista; reconstruir pela
base as entidades populares e operárias; utilizar a tática da ação direta (greves, manifestações, atos, invasões, etc) contra
o governo e a burguesia.
Colaboracionismo de
Classe:
a opção do Movimento
Popular-Operário?
A recente descoberta
do esquema de corrupção do Governo Lula, mais um no sistema democrático-burguês,
trouxe a confirmação do colaboracionismo de classe das maiores organizações populares-operárias: MST, CUT e UNE.
Organizações sindicais, movimentos sociais,
estudantis e intelectuais de esquerda saíram as ruas
para apoiar o governo Lula, acusando os partidos de oposição (que representam o
complexo industrial-agrário-militar-finaceiro:PSDB e PFL) de tentarem um golpe
para destituir Lula da Presidência da República.
Voltamos as nossas próprias reflexões,
destacando o Comunicado As Reformas do Governo Lula e as Tarefas do
Proletariado, onde deixamos claro que o Ciclo Petista vinha se encerrando
depois de garantir a legalidade do Estado Democrático de Direito nas Diretas Já
e agora para consolidar as reformas neoliberais. A Esquerda
Reformista, representada pelo PT, em aliança com frações da classe burguesa
abdicou de qualquer projeto político, mesmo reformista, para levar a frente o
projeto da elite orgânica do país.
O recente escândalo de corrupção não abalou
a política Econômica do Governo que vem aumentado a cada dia o Superávit.
Anuncia agora o Plano Déficit Zero. Pelo contrário, o governo petista cedeu aos
políticos de partidos oligárquicos da base aliada: PP, PL, PTB e PMDB. Entregou
mais cargos nos Ministérios para esses partidos.
Enquanto isso, MST, CUT, UNE e CMS se apressaram em apoiar ao
governo Lula. No início de Julho lançaram a Segunda Carta ao Povo Brasileiro, argumentando que o Governo Lula
estava sob ameaça de um golpismo, quando a própria
direita se encarregava de negar tal afirmativa e avaliando que não tinha base
política e popular para tentar um impeachment. Os movimentos populares-operários se apressavam, vergonhosamente, a
defender o “Estado Democrático de Direito”.
A oposição, preocupada com as eleições de 2006, não deixou barato
o vazamento de informação de corrupção no governo Lula, tal qual o PT fazia nos
governos anteriores.
Nesse caso, o colaboracionismo de classe
dos movimentos sociais, sindicais e populares se tornou claro. O nível de atrelamento ao governo é tão grande, que como presente,
Luiz Marinho, presidente da CUT, ganhou o Ministério do Trabalho de presente do
Presidente Lula.
A opção pela via democrático-burguesa fica comprovada como total oportunismo
e colaboracionismo de classe, o movimento popular-operário ao defender essa via
e o PT só leva o povo a derrota.
As recentes demonstrações desses movimentos são a prova da tese bakuninista de que a opção reformista de nada leva a classe
trabalhadora à vitória. A necessidade de reconstruir o movimento
popular-operário se mostra mais do que necessário. A CUT já se entregou ao
projeto neoliberal colaborando com o PT e a burguesia.
A recente crise política do governo demonstrou o funcionamento
das estruturas do sistema democrático burguês e os movimentos sociais saíram
logo a defende-lo. De mãos
dadas com as frações da classe burguesa e com os oligarcas do congresso CUT,
MST, UNE , CMS deram a demonstração clara da opção colaboracionista.
Apoio ao governo e cargos nos ministérios,
tal qual faz a direita. Não devemos esquecer que CUT e MST indicaram nomes para cargos
no governo Lula, principalmente no Ministério do Desenvolvimento Agrária, que
mesmo assentando menos famílias que o Governo FHC, sofreu muito menos invasões
por parte do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
No dia 16 de agosto desse ano, os movimentos sociais e sindicais
governistas deram mais uma prova de suas práticas colaboracionistas, pois
mobilizaram bases sindicais, populares, camponesas e estudantis numa marcha
“contra a corrupção e em apoio ao Governo Lula”. Essa marcha foi organizada às
pressas numa tentativa de ofuscar a manifestação do movimento popular-operário
combativo e anti-governista que havia sido marcada
primeiro e ocorreu dia seguinte reunindo entorno de 15 mil manifestantes.
A marcha “chapa branca”, do dia 16, reuniu seis mil pessoas para
fazer coro junto com a Fiesp, Firjan e com a Febraban na defesa do Governo. Deixando explicito que esse governo
de frente popular, na verdade, promove a colaboração entre setores do
proletariado e a burguesia dominante.
Está na hora combater o colaboracionismo de classe. Retomar as
ações diretas e reconstruir o movimento pela base denunciando a via eleitoral
burguesa como colaboracionista e mantenedora do Sistema Capitalista.