Causa do Povo

Jornal da União Popular Anarquista - UNIPA Nº 02 # Janeiro – 2003

 


 

 

O Monopólio da Representação e a Estratégia da Tensão

 

A “tortada” desferida pelo grupo “Confeiteiros Sem Fronteiras” no presidente nacional do PT, José Genuíno, abriu alguns debates em torno de questões como “democracia, anarquismo (Genuíno taxou a ação como demonstração de anarquia) e autoritarismo”. Entremos, então, enquanto anarquistas, na discussão.

Elio Gaspari, publicou em sua coluna no jornal O Globo em 28/05/2000 um texto com o título: “Bala em Lavrador é Alerta. Ovo em ministro é caos”. O argumento era basicamente o seguinte: as autoridades estavam aterrorizadas com o fato de um estudante (pt’ista de carteirinha, segundo Gaspari) jogar um ovo num ministro, mas a PM paranaense matar um sem-terra era apenas um alerta. Gaspari pergunta: “Admita-se que o certo seja mandar para o Carandiru todos aqueles que ofendem as autoridades, desrespeitam a tropa de choque e gritam palavrões para FFHH. Nesse caso se consegue manter a ordem. Que ordem? Pode-se serrar miseráveis no Acre, mas não se pode amassar um ovo num ministro.”

O autor atacou o centro do debate com muita propriedade. Nestes últimos dias de janeiro um menino de rua foi assassinado em pleno centro do RJ por um PM. Mas debates giram em torno da tortada na cara da excelentíssima autoridade José Genuíno. Foi a tortada um ato de autoritarismo? É, este argumento é tão risível que nem merece comentários. É uma ameaça a democracia? Só um lunático pode acreditar nisso. Uma ajuda à extrema direita? Lembremos que os métodos da extrema-direita são bem menos “engraçadinhos”. Dois prefeitos do PT foram assassinados no Estado de São Paulo e em nenhum momento se viu tantas “ptessoas” gritando que a democracia estava ameaçada. Os crimes até hoje estão muito mal esclarecidos (ou seria bem encobertos?). Lembremos que a extrema direita que no discurso de certas ptessoas parece o bicho-papão, invocada quando se quer assustar criancinhas, tem nome e endereço: são militares, membros da FIESP, da CNA, organismos que estão (muito bem obrigado) sentados nas cadeiras do “pacto social e do governo do PT”. Nenhum destes órgãos freqüentam grupos anarquistas, e se freqüentassem, pelo menos os nossos, eles seriam atingidos na cara, mas não por bolo...

Gaspari disse em 2000 que FHC estava jogando numa estratégia de tensão. Era preciso criar uma situação de tensão máxima em relação às oposições para parecer que todos seus atos poderiam provocar um apocalipse, e assim fazer com que a população tivesse “medinho” dela. É a postura dos mais reacionários defensores da ordem, que sempre têm a palavra democracia à boca (Bush também tem, não tem?). Dai a César o que é de César. O PT também está começando a jogar na tensão. Os alvos agora serão os grupos de esquerda críticos do seu governo.

Concorde-se ou não com a tortada, o fato é que foi um ato de protesto. Poucos discutem o documento e motivações do grupo: a crítica a pretensão do PT de ter o monopólio da representação dos movimentos sociais no Fórum Econômico em Davos. Neste sentido, Genuíno tem um pouco de razão em dizer que a tortada foi uma manifestação de anarquia. Foi uma crítica da falsa representatividade, do poder instituído, e uma ação direta, concordemos com ela ou não. Mas os pt’istas estão mais preocupados com a integridade do terno de Genuíno. Sujar o terno de uma autoridade é uma verdadeira ameaça a democracia, burguesa, uma vez que o terno é um símbolo da autoridade burocrática e de classe. “Que morram todos os meninos de rua, mas não sujem nossos ternos!!!”, afinal em política se pode tudo, menos balançar o coreto das autoridades. É PT, quem te viu e quem te vê.

 

 

 

Lutando nas Ruas: camelôs e controle social na Cidade Maravilhosa

 

Desde o mês de outubro de 2002 a política nazista do prefeito César Maia tem ganhado contornos mais nítidos, com a intensiva e constante repressão movida pela Guarda Municipal (GM) e também pela Polícia Militar (PM) contra os camelôs. Os conflitos se intensificaram dia após dia, até ganharem ares dramáticos nos meses de novembro-dezembro de 2002, com guardas municipais sacando armas, agredindo camelôs e recebendo em troca disparos de rojão e ataques relâmpagos a pedradas de pequenos grupos de ambulantes. Os atritos iniciais entre PM e GM foram resolvidos pela intervenção de cúpula dos poderes públicos estaduais e municipais, com o apoio explícito da então governadora Benedita a César Maia. Logo PM e GM pararam de trocar tapas para reprimirem unificadamente os camelôs.

Uma radiografia da repressão mostra que ela é movida contra os chamados “camelôs ilegais ou irregulares”, aqueles que trabalham fora das áreas permitidas pela prefeitura. O discurso legitimador é o já tradicional no RJ: o da criminalização. Os camelôs são acusados de ligação com o tráfico, com a máfia e o contrabando. No entanto, os camelôs reprimidos são realmente “ambulantes” (senão não poderiam fugir), os que têm uma banquinha móvel e normalmente vendem produtos alimentícios e nacionais (barbeadores, guaraná, pilhas) de pouco valor, ao contrário das sofisticadas barracas das áreas legalizadas (como o camelódromo) que trabalham com importados e não emitem nota fiscal. Ou seja, o problema não é exatamente de “legalidade”.

A questão é que a boa parte dos ambulantes reprimidos representa uma massa fora de controle, desempregados, idosos, jovens insatisfeitos, muitas vezes negros, moradores de periferia que ousaram enfrentar a repressão e foram mais reprimidos ainda pela ousadia do enfrentamento. Economicamente falando, talvez não seja nada permitir ou proibir os camelôs de ficarem ali, mas politicamente, hoje, sua permanência pode ser um mau exemplo para a plebe urbana do RJ, que transita sempre sob os olhares atentos da repressão.  

Estado e imprensa, Direita (César Maia) e Reformistas (PT da Benedita) todos cerraram fileiras contra os camelôs e a favor da “ordem burguesa urbana”. Os trabalhadores ambulantes vêm sozinhos movendo uma luta cotidiana e desigual contra a repressão policial-militar, a difamação movida pelos órgãos de imprensa e as autoridades públicas.

É importante que os revolucionários cumpram seu papel junto às lutas da população, e esta com certeza é uma delas, seja através da organização e intervenção junto aos conflitos, seja com uma política de esclarecimento e combate às mentiras divulgadas pelo Estado e pelos jornais burgueses.

Foi neste sentido que a Resistência Popular (RP) no mês de dezembro fez duas panfletagens em apoio dos camelôs. Os militantes quando entregavam os panfletos e diziam as palavras de ordem: “Fora César Maia – Liberdade para o Camelô”, eram saudados entusiasticamente pela população. Muitos ambulantes disseram: “Até que enfim alguém lembrou da gente”. Muitos tomaram os panfletos e os distribuíram também. No dia 18/12 a RP e a FER (Frente Estudantil Revolucionária) fizeram um ato conjunto em apoio aos camelôs, fazendo comícios relâmpagos e panfletagem, apoiados por faixas e bandeiras. A simpatia dos camelôs que ainda estavam nas ruas (muitos foram afastados pela repressão) foi nítida, vários acenavam e cantavam palavras de ordem junto com a coluna de manifestantes que se deslocava pelas ruas do centro, algumas pessoas se juntaram ao ato.

Conflitos deste gênero tendem a se intensificar, uma vez que o sistema opta por reprimir ao invés de tolerar (não dizemos nem integrar) as massas pobres urbanas. E eles irão deixar cada vez mais claro o oportunismo e os limites da política reformista, e como somente os revolucionários irão se posicionar do lado das lutas da massa pobre e oprimida.