Causa do Povo

Nº 19# maio – 2005

 

Supremacia Branca, Racismo e Escravidão no Brasil

 

         Na gênese do sistema de dominação capitalista estão o colonialismo, a escravidão e o etncídio. Quando os portugueses ocuparam o território brasileiro existiam pelo menos cinco milhões de índios, que inicialmente foram escravizados e posteriormente massacrados. Nos trezentos anos que se seguiram de colonização, cerca de 3.647 milhões de africanos foram “importados” para o Brasil e submetidos à escravidão.

         Hoje, a população indígena do Brasil não passa de 200 mil e encontra-se submetida à miséria, tendo suas terras ocupadas por latifundiários, madeireiras e garimpeiros. Por sua vez, a população afro-descendente chega à 80 milhões (segunda maior população negra do mundo), entretanto continua subjugada à extrema exploração capitalista:

 a taxa de mortalidade infantil entre crianças negras até cinco anos é de 76,1 por mil; cerca de 47% dos negros são enquadrados, pelos órgãos oficiais como pobres e 21,2% indigentes.

As condições materiais de existência da camada social negra e indígena comprovam que a supremacia branca, mesmo após o fim do regime escravista, continua sendo um dos pilares da dominação capitalista.

Falar em supremacia branca significa afirmar que a burguesia é predominantemente branca e/ou eurocêntrica, e exerce poder sobre os não-brancos. As bases do poder da supremacia branca são a violência, a desigualdade econômica e mecanismos simbólicos racistas.

O racismo é a negação radical da humanidade do outro, é a negação radical do valor do outro, da sua cultura, de sua história, de sua existência. A supremacia branca necessita da permanente articulação e rearticulação de uma ideologia e de um discurso racista, que legitime a desigualdade e mine as possibilidades de resistência e enfrentamento, seja pela valorização negativa da identidade do outro, seja pela negação até da existência da identidade particular do outro.

Não só o racismo adquiriu formato diferente daquele de 117 anos passados, pois os casos cada vez mais comuns de trabalho escravo no Brasil denunciam que o escravismo assume novas configurações e se perpetua enquanto um dos mecanismos da arquitetura de dominação e exploração capitalista.

Ainda não existe um levantamento mais preciso sobre os atuais casos de escravidão, mas só no ano de 2003 formam libertados cerca de cinco mil trabalhadores camponeses que estavam submetidos ao regime de escravidão. E, ao contrário do que se possa pensar, a escravidão não  é prática apenas de latifundiários que usam técnicas rudimentares. Na verdade, grandes propriedades agro-exportadoras, como a Jorge Mutran Exportações e Moeda Agroindustrial, estão entre os que se beneficiam da exploração do trabalho escravo.

            Se racismo e o trabalho escravo continuam sendo partes constitutivas do capitalismo contemporâneo, as lutas da classe trabalhadora devem ter a mesma força e coragem mostradas pelos negros quilombolas e pelos indígenas que combateram a colonizador europeu. A destruição do capitalismo, com todos os seus mecanismos de dominação (exploração, racismo, escravidão, imperialismo), só será possível com a unidade do povo pobre e trabalhador em entidades que sejam capazes atender suas várias demandas. As organizações revolucionárias não podem fechar os olhos para as lutas específicas dos negros, indígenas e trabalhadores escravos, mas, ao mesmo tempo, não podem cair na armadilha liberal pequeno-burguesa de desvinculá-las da estrutura de dominação de classe.

 

Viva a luta dos povos negros e índios! Pela liberdade de todos os trabalhadores!

 

Por um Primeiro de Maio classista!

 

Mais um Primeiro de Maio chegou e infelizmente temos muito pouco a comemorar. O que era para ser um dia de luta, tornou-se nos últimos anos uma data vazia, comemorada de forma oportunista pelas centrais sindicais que acham que o trabalhador tem reais motivos para estar feliz, apesar dos baixos salários, do desemprego e dos direitos arduamente conquistados que estão sob a ameaça de desaparecerem com as reformas do governo Lula.

Historicamente o Primeiro de Maio é um dia em que os trabalhadores relembram suas lutas contra a exploração do capital, contra opressão de patrões e governos. Tempo de resgatar a memória de milhares de companheiros que ao longo da história deram suas vidas na luta por melhores condições de trabalho e por uma sociedade mais justa. Hoje, o que ocorre é a  mais pura traição por parte da CUT e demais das centrais pelegas defensoras dos interesses de empresários e patrões. A memória de centenas de trabalhadores brasileiros que além do  suor de seu trabalho também se dedicaram à causa do povo, construindo greves e ocupando ruas é jogada na lama.

Os atos pelo Dia do Trabalhador organizados pela CUT são verdadeiros shows de promoção e auto-divulgação da Central que vem defendendo ferrenhamente as propostas de reformas do governo federal.

Os eventos têm sorteios de brindes que vão de camisetas a automóveis, e  contam com shows de artistas e investimentos de altas cifras patrocinadas pelo governo e por empresas privadas, interessadas em manter os trabalhadores com a ilusão de que tudo vai bem e que pode melhorar ainda mais.

Sabemos que a saída para o problema das desigualdades, da exploração não é individual. Não é o fato de um trabalhador ganhar um carro que sua vida será melhor,  que terá uma aposentadoria digna, que seus filhos terão educação de qualidade e sua família uma moradia decente e acesso a um sistema de saúde que não lhe deixe morrer por causa das intermináveis filas de atendimento e das disputas político-partidárias entre as diferentes esferas de poder. A solução para tais problemas está na organização, solidariedade e luta da classe trabalhadora contra os patrões e governos.

A reforma trabalhista que está sendo preparada pelo governo com o aval das centrais visa retirar dos trabalhadores os direitos conquistados ao custo de muita luta e mobilização. Se a reforma for aprovada, ficaremos lesados em nossos direitos como 13O, FGTS, férias e direito à greve. A negociação entre as centrais governistas prevalecerá sobre a legislação trabalhista e quem se beneficiará são os governos, empresários e os patrões

Por isso, um ato para ser realmente comemorativo ao Dia Primeiro de Maio deve ter um caráter classista, feito por trabalhadores contra a exploração do capital, sem a interferência de centrais sindicais que são capachos de patrões e correia de transmissão de governos de todas as espécies. Só a nossa luta, enquanto classe trabalhadora,  membros do povo é capaz de nos libertar do jugo daqueles que nos oprimem.

Devemos estar mobilizados todos os dias do ano, lutando não apenas contra as reformas do governo (sindical, trabalhista e universitária). O campo operário-popular no Rio de Janeiro não pode se satisfazer com um ato de Primeiro de Maio baseado apenas na oposição às reformas sindical e trabalhista, para agradar e fazer concessões a setores que compõem o governo, achando que o mesmo está em disputa e acreditam que a via eleitoral/parlamentar pode beneficiar os trabalhadores. A História nos mostra o contrário, só a Revolução Social pode nos libertar, fazendo com que tenhamos o justo pelo suor do nosso trabalho cotidiano.

Temos muito pouco a comemorar. No Brasil, 54% dos trabalhadores não têm direito a 13O. salário,  55% não têm direito a férias, são 20 milhões de desempregados e 30 milhões sem emprego fixo, trabalhando como  ambulantes ou biscateiros. Mas o que nos leva a seguir adiante é a certeza de que podemos ser vitoriosos e de que os  exemplos deixados, a coragem e as vidas ceifadas daqueles que ousaram lutar não foram em vão.

 

Viva o Dia do Trabalhador!Todo Poder ao Povo!