Jornal da
União Popular Anarquista – UNIPA Nº 14 # outubro – 2004
O que as eleições
municipais nos ensinam?
As recentes eleições municipais, as
primeiras após o início da "Era Lula", nos dão um importante panorama
a respeito de como anda a política burguesa em nosso país, suas perspectivas de
futuro e quais os caminhos devem ser trilhados pelos revolucionários na atual
conjuntura.
Em primeiro lugar, antes de
repetirmos o quanto é nocivo aos trabalhadores se emaranhar na política da
burguesia e não centrar seus esforços na construção da política proletária
baseada na luta de classes, destaca-se como não é
levantada a menor dúvida sobre o suspeitíssimo sistema eleitoral informatizado.
Mesmo o setor do oportunismo reformista de esquerda, representado
principalmente pelo PSTU, não se manifesta sobre essa questão.
O "avanço
tecnológico" que é exaltado pela burguesia neste sistema,
mascara e encobre o altíssimo potencial de fraude aí presente. Porém, a
"santa" credibilidade da "jovem democracia" brasileira fica
resguardada e a salvo.
Os números da justiça eleitoral
indicam uma expressiva vitória do PT e históricos seus aliados, como o PSB,
nestas eleições. Tendo eleito em primeiro turno os
prefeitos de seis capitais brasileiras, o partido de Lula demonstra, por um
lado, as vantagens eleitorais de controlar a máquina federal, e por outro, como
se beneficia o governismo da ausência de uma forte expressão organizada de um
classismo opositor, que possa desmascarar o governo Lula frente às massas
populares e articular, na base, a unidade combativa de trabalhadores,
estudantes e camponeses rumo à construção do Poder Popular.
Os resultados
positivos obtidos pelo PT, indicam que o aparato de
marketing a rede clientelista desse governo, e seu com a política oligárquica
estabelecida desde o fim do Império, vem cumprindo seu papel. Está funcionando
à "esquerda" – com Lula - tão bem como sempre funcionou à
"direita" até então. Garantindo assim a subordinação tanto aos
interesses do Imperialismo, quanto à burguesia nacional associada ao Lula
O governo Lula sai bastante fortalecido
destas eleições municipais, com boas chances de garantir sua própria reeleição.
Do ponto de vista dos trabalhadores, este fortalecimento significa que o
governo federal tem agora as garras afiadas e condições plenamente favoráveis
para avançar seu programa de reformas neoliberais (reformas trabalhista,
sindical e universitária) e, de uma maneira geral, avançar o projeto
imperialista de reconversão do país ao modelo primário-exportador baseado no
agro-negócio e na indústria mineradora, condenando os trabalhadores à lógica do
crescimento sem emprego.
Lado a lado com o panorama político
do governismo, é importante observar como se moveu neste período o oportunismo
reformista de direita – do PSOL – e o oportunismo reformista de esquerda – do
PSTU.
O primeiro revelou-se
e revela-se diariamente como a expressão de tudo aquilo que de pior o cinismo
pseudo-socialista criou nas últimas duas décadas. Ao apoiar as candidaturas
governistas do PC do B no Rio de Janeiro e do PPS em Fortaleza entre outras, e ao
lançar-se como vanguarda na defesa da CUT frente às bases proletárias que
apontam para a ruptura com a central domesticada e corrompida de Lula, o PSOL
se revela como uma grotesca caricatura de oposicionismo e como o braço esquerdo
do governismo.
O segundo, o oportunismo reformista
de esquerda, expresso pelo PSTU, vem apostando na mobilização das lutas e na
radicalização dos discursos como forma de capitalizar politicamente a oposição
de esquerda ao governo Lula. Segundo os números da justiça eleitoral, o PSTU –
seguido pelo PCO – conseguiu um expressivo aumento na sua votação em relação
aos anos anteriores. Este resultado deve animar os dirigentes do partido a
prosseguir na tática da mobilização ao longo do ano de 2005. O que, apesar do
caráter oportunista e reformista do PSTU, pode servir aos interesses dos
revolucionários socialistas se estes souberem corretamente se posicionar no
provável – mesmo que incipiente – assenso de massas que à
partir do próximo ano deve tomar forma.
A ruptura com a CUT e com a UNE se
faz fundamental para a rearticulação das forças dos trabalhadores organizados,
assim como a construção de novas entidades nacionais para mobilizar
trabalhadores e estudantes. No campo é fundamental a articulação de uma
alternativa classista ao governismo do MST.
Nós, revolucionários
anarquistas da UNIPA entendemos que o momento atual exige: 1) Ir ao povo, às
massas trabalhadoras, apoiando suas lutas, defendendo seus direitos e
orientando-as no sentido da Revolução Social; 2) Dar combate sem tréguas ao
governismo; 3) Desmascarar o oportunismo reformista de direita; 4) Disputar a
direção das lutas de massa contra o oportunismo reformista de esquerda; 5)
Combater o sectarismo e observar o princípio da unidade na luta. 6) Fortalecer
o trabalho político revolucionário independente.
Ou se vota com os de
cima,
Ou se luta com os de
baixo!
Pelo Poder popular!!
Clientelismo e
exploração no Rio de Janeiro
A cada dois anos
costuma-se dizer que um novo tempo se irrompe, trazendo para o cenário da
política a população que fora desse período mantém pouca ou nenhuma relação com
aqueles que detém o poder político em nossa sociedade.
Esse tempo é chamado
de "tempo da política". É lamentável que tal expressão e aquilo que
ela define seja verdade para a maior parte da população: o "fazer
política" ou estar minimamente "envolvido com ela" se dá a cada
dois anos, apenas com o espetáculo da política eleitoral. Essa política seduz
frequentemente ao povo porque significa muitas das vezes os meios de garantir
de imediato o acesso a bens de extrema necessidade, como cesta básica, marcação
de consulta médica, remédios, emprego e até "dinheiro vivo".
O clientelismo é uma
relação caracterizada principalmente pelo "compromisso" dependente
entre a população pobre de um lado e os governos e políticos de outro,
envolvendo a troca de votos por benefícios variados. A lógica clientelista, da
relação entre indivíduos que possuem poder econômico e político desiguais é
perversa, iludindo o povo com pequenos benefícios que representam satisfação
imediata em sua vida de miséria.
O Clientelismo hoje é
realizado de forma descarada pelo próprio Estado burguês, e não mais apenas por
políticos, "coronéis" e partidos eleitorais. Desde a esquerda
eleitoral e reformista até a direita, o uso desta prática
nefasta é corriqueira.
As notícias recentes
sobre o uso de benefícios concedidos pelo Estado burguês para fins políticos
eleitorais em municípios do Rio de Janeiro, trazem à vista aquilo que há muito
é do conhecimento de todos: o povo é pressionado a "negociar" o voto
com os candidatos para ter acesso à saúde, à emprego,
à educação e tudo mais que é privilégio apenas dos ricos.
Essa relação não
surpreende o governo federal nem a governadora Rosinha e seu marido mandante.
Eles fingem se indignar, mas é dessa forma que se mantém exercendo o poder.
Benefícios como Bolsa Escola, Cheque cidadão, Vale
gás, Bolsa Família e outros, são usados fortemente utilizados de forma
clientelista. Principalmente em períodos eleitorais, onde o simples
cadastramento para concorrer ao benefício já é trocado por voto.
De fato as pessoas não
votam porque acreditem no "poder de mudança" do voto. E estão certas!
As eleições não passam de uma grande farsa que serve para mascarar os conflitos
e perpetuar a democracia de mentira em que vivemos.
A cada dois anos a
história se repete: lá estão os mesmos grupos. E mesmo que haja a chamada
"renovação" com caras novas dizendo que fazem política de outro modo,
as coisas vão continuar as mesmas, porque a única política que atende aos interesses
do povo é aquela feita por nós mesmos.
A auto-organização do
povo é a única forma de termos uma vida digna. Participar desse jogo sujo que
só serve aos interesses da classe dominante e significa perpetuar a situação de
miséria, dependência e ausência de poder real e concreto nas mãos do povo.
Precisamos nos
mobilizar para construção da Frente dos Oprimidos, uma verdadeira organização
popular que se pauta nas reivindicações e decisões coletivas do povo
organizado.
Basta da farsa
eleitoral que desmobiliza e tenta fazer crer que o voto pode mudar a realidade
do povo pobre!
Só teremos uma vida
que não se resuma a exploração pelos patrões, aos
desmandos dos governos, às humilhações do dia a dia, à tristeza de não Ter um
emprego e não poder alimentar satisfatoriamente nossos filhos, por meio de
nossa luta. E somente dessa forma é que vamos construir um Poder Popular e uma
sociedade justa e livre.
Basta de ilusão!
Pela construção da
Frente dos Oprimidos!
Anarquismo é Luta!!