Causa do Povo

Jornal da União Popular Anarquista – UNIPA Nº 12 # Julho – 2004


 

As alternativas de esquerda no Brasil:

o campo reformista e o campo revolucionário

            O Brasil passa por momentos de mudanças importantes. As ilusões em torno do Governo Lula foram desfeitas. Ou pelo menos já se acumularam fatos para mostrar os verdadeiros compromissos do PT e de Lula. Os anos de 2003-2004 e a política de reformas (da previdência, universitária, sindical e trabalhista) confirmam o que já havíamos dito: o compromisso profundo estabelecido entre o reformismo (do PT, PC do B, e etc) e a burguesia financeira, rural e industrial.

            Vemos assim a consolidação do projeto reformista do PT, na face mais crua e suja. Hoje a esquerda passa por um momento ambíguo. De um lado, o PT, maior partido de esquerda, formado por grupos e movimentos que se forjaram na luta contra a ditadura, se apresenta como um dos braços da dominação burguesa no Brasil. É o PT que abre o comercio internacional para os latifundiários, que envia tropas para intervenção imperialista no Haiti. Hoje, o PT é o Partido da Ordem.

No entanto as oposições à política do PT existem: dentro do movimento sindical e popular, e dentro do próprio PT, que produziu um racha – o PSOL. Cabe entretanto analisar quais as alternativas de esquerda, hoje na oposição ao Governo Lula, se colocam nas lutas populares. É preciso reconhecer primeiramente que o campo revolucionário no Brasil de hoje não é forte e amplo, e que as alternativas de esquerda que se apresentam com mais força e estrutura orgânica pertencem ainda ao campo reformista.

Os casos mais nítidos e mais claros são representados pelo "Novo Partido            " - PSOL - e pelo PSTU. São os dois partidos que hoje disputam, dentro do campo reformista, o lugar até pouco tempo ocupado pelo PT. A posição do PSOL é diferente da do PSTU, apesar de serem igualmente reformistas. O PSOL representa uma linha oportunista de direita, enquanto o PSTU, hoje, está numa linha oportunista de esquerda.

Oportunismo de direita quer dizer que o PSOL faz uma oposição de "conveniência" ao Governo Lula. A principal característica do PSOL é o oportunismo eleitoralista. A crítica ao PT está totalmente condicionada ao interesse do PSOL em eleger seus candidatos.

O PSTU entretanto, desde meados de 2004 vem adotando outra postura, no discurso e na prática. No discurso denuncia as eleições burguesas como farsa, justificando sua participação como "tática", e fazendo a defesa da "ação direta das massas". Por outro lado, vem impulsionando uma oposição ao Governo Lula, organizando o CONLUTAS (embrião de uma possível nova central sindical) e o CONLUTE (movimento de oposição à UNE).

Não podemos ter ilusões. Estas duas alternativas de esquerda são reformistas.

Por outro lado, o campo revolucionário no Brasil ainda está em formação. É composto por pequenos grupos de orientações políticas diversas (anarquistas, maoístas, trotskistas). Isto quer dizer que no curto prazo a maior probabilidade é que as forças hegemônicas no movimento popular continuem sendo o governismo (como a CUT, UNE) e o reformismo.

Neste sentido, o principal objetivo dos revolucionários hoje, e dentre eles nós, como anarquistas, é de combater o governismo e o reformismo no movimento popular. Enfraquecer ao máximo as posições que visam desorganizar o movimento popular. Subordinar o movimento ao governo. Por outro lado devemos saber identificar as diferentes posições no campo reformista e promover a unidade no campo da ação direta popular, sem sectarismos, mas sem ilusões. O reformismo é o reformismo. Enfim, temos que conquistar e consolidar posições.

            Nosso dever é assumir as tarefas revolucionárias. Combater o Governo Lula e o Governismo no movimento popular. Desgastar o reformismo enquanto alternativa para o povo. Consolidar as posições revolucionárias. Reconstruir o movimento popular classista e independente.


Anarquismo é Luta!!! Lutar para organizar, organizar para lutar !!!

 

A lição de Florianópolis: quem luta, conquista!

            Pudemos assistir recentemente, as jornadas de luta e resistência que os trabalhadores e estudantes de Florianópolis levaram adiante contra os interesses da burguesia, sua prefeita e o governador do Estado de Santa Catarina. Contra mais um abusivo aumento do valor das passagens dos ônibus, as massas populares se recusaram a sofrer mais este arrocho, se puseram de pé e fizeram a Classe Dominante recuar, cancelando o aumento no transporte rodoviário.

            Em Florianópolis, os setores mais combativos do movimento estudantil souberam se colocar à frente da luta pela justiça e pela dignidade popular, iniciando o processo de mobilização e luta contra os empresários que exploram o sistema rodoviário da cidade. Em um primeiro momento, os estudantes que reivindicavam o direito ao passe-livre no transporte coletivo, incorporaram a reivindicação pela redução do preço das passagens em seus protestos, e assim conseguiram a adesão das amplas massas populares da cidade.

            O processo de lutas que tomou conta da cidade de Florianópolis por uma semana, paralisou a cidade, agitou a repressão, apavorou a burguesia e forçou o empresariado a reduzir o valor das passagens, na marra. Muitos foram os "bombeiros" e conciliadores que tentaram jogar água no ânimo combativo das massas, chamando-as a deixar as ruas e voltar para casa. A vitória popular desmoralizou violentamente os partidos eleitoreiros e seus militantes que tentaram manipular e desmobilizar o povo.

            Dois importantes aprendizados os revolucionários devem tirar da vitória da companheirada de Florianópolis: 1) Quem participa do jogo político eleitoral da burguesia vai sempre tentar se utilizar da luta do povo apenas para se promover; 2) Quando o povo se organiza e vai à luta, firme em sua disposição de combate, a minoria dos magnatas privilegiados recua.

            Desta experiência de Florianópolis é também importante atentar para o papel que os estudantes combativos puderam desempenhar no despertar das grandes massas de trabalhadores. Assim como na Itália em 1967 e na França em 1968, também aqui os trabalhadores seguiram os estudantes no combate aos opressores capitalistas.

            Hoje no Brasil, lado a lado com o desemprego, o aumento do custo de vida dos trabalhadores vem tornando a miséria popular ainda mais dramática. Os aluguéis, as tarifas de luz e água, juntamente com os abusivos preços das passagens dos transportes coletivos consomem violentamente os magros rendimentos da imensa maioria do povo trabalhador de nosso país.

            No Estado do Rio de Janeiro, o povo da região metropolitana é submetido aos desmandos da máfia dos transportes organizada na Fetranspor e na Rio Ônibus. As tarifas são altíssimas e os serviços péssimos. O direito ao passe-livre de estudantes, idosos e deficientes físicos vai sendo cassado de forma dissimulada com a tática dos "cartões magnéticos". É a prova da ganância absoluta do Inimigo de Classe. No interior do Estado, os trabalhadores de vários municípios se encontram debaixo de verdadeiros monopólios no sistema de transportes coletivos.

            Nós, revolucionários anarquistas, convocamos os estudantes pobres e as massas trabalhadoras a seguir o exemplo do povo de Florianópolis e se lançar no combate pelos seus direitos, pela justiça e pela liberdade. Somente o próprio proletariado organizado e em luta é capaz de transformar a sua realidade de miséria e opressão em um futuro de igualdade e dignidade. É preciso que os estudantes, os operários, os desempregados, os camponeses e o conjunto dos trabalhadores de nosso país, afastando para longe as tentações eleitorais, se articulem em uma poderosa Frente dos Oprimidos, único instrumento capaz de derrotar a burguesia e seu sistema de exploração.

Todo o apoio à luta popular estudantil!!