Causa do Povo
PUBLICAÇÃO
da União Popular Anarquista – UNIPA
01 # JULHO
DE 2002
Rio de
Janeiro - Brasil
unipa_net@yahoo.com.br
Anarquismo, Movimentos Sociais e Eleições
O ano de 2002, enquanto ano de eleições, é um ano de
esperanças - no nosso entendimento falsas - para muitos brasileiros. Enquanto
uma boa parte dos sindicatos, entidades estudantis e associações de moradores
concentrarão seus esforços na campanha para eleição de um “Governo dos
Trabalhadores” - outros irão apoiar a direita - diversos
outros movimentos sociais e segmentos expressivos da população ficarão sem
qualquer apoio necessário, seja para suas lutas, seja para a sua sobrevivência.
A ofensiva ideológica e repressiva iniciada pelo Governo contra o MST -
tendência que nós havíamos indicado já em 1999, no número 2 da revista Ruptura
- dá um exemplo claro disso.
A possibilidade de um “Governo Lula” parece seduzir a
muitos, como se este fosse imprimir mudanças severas na política social. Neste
aspecto é verdade, um Governo Lula pode mudar muitas coisas; mas quanto à
relação com os movimentos sociais, a postura de um Governo Lula parece já estar
muito bem definida, não sendo muito diferente da dos
demais Governos existentes. O compromisso necessário do PT com as elites, para
que possa assumir o Governo Federal, é de se distanciar dos movimentos sociais
e suas lutas substituindo a ação deles pela do próprio governo em gabinetes-
caminho que o PT já escolheu há quase uma década. José Genuíno, mencionando o
episódio da ocupação da fazenda de FHC, disse “Eu defendo o rompimento puro e
simples [com o MST]” (Folha de São Paulo, 31/03/2002, p.A10),
para não prejudicar a campanha presidencial. No Fórum Social Mundial, os Zapatistas e outras organizações que estão em luta militar foram
proibidas de entrar, pois o “Fórum” seria “pela paz”. Quando o zapatismo era uma causa moral da moda o PT fez questão de
pegar carona nele, mas como hoje o “combate ao terrorismo” é a senha de adesão a ordem mundial, os zapatistas foram descartados... Esta é
relação do PT com os movimentos sociais.
Enquanto os Partidos de Esquerda procuram se “afastar” dos
movimentos sociais para não comprometerem a sua agenda
eleitoral, a nossa agenda, enquanto anarquistas, segue no caminho inverso -
impulsionar a luta dos movimentos sociais e fazer com que estes se aproximem
uns dos outros. O pior das eleições para os movimentos sociais não é nem o
investimento de recursos e trabalho, mas o investimento de esperanças. Nós
achamos que as esperanças do povo devem ser investidas no próprio povo, e
conseqüentemente, seu tempo, trabalho e recursos - já que os partidos só
investem no povo enquanto este propiciar ganhos eleitorais. As eleições irão
canalizar muitas forças e atenções; mas as nossas estarão concentradas nos
movimentos sociais e nas suas lutas, seja na cidade ou no campo, nas escolas ou
locais de trabalho, contra o racismo, exploração e etc.
Polícia
Global na “cruzada” contra o Oriente
No numero 1 da revista Ruptura, o texto intitulado “Polícia
Global” analisou a intervenção da OTAN em Kosovo e a
configuração das relações internacionais. Tentava compreender três aspectos
destas últimas: o papel dos órgãos multilaterais (no caso, a OTAN) no mundo; a
emergência dos movimentos étnicos e o questionamento ao Estado/Nação;
a reação da “opinião pública” (entendida como o discurso publicamente
dominante) sobre as guerras no mundo. A nossa análise procurou ressaltar a
importância adquirida pelos órgãos multilaterais e ao mesmo tempo frisar sua
impotência e vulnerabilidade diante da iniciativa dos Estados poderosos como
EUA e Inglaterra. A tendência, afirmamos, seria que os órgãos multilaterais
expressassem em seu interior a desigualdade de poder existente entre os Estados
e que a lógica militarista atropelasse a diplomacia, como as intervenções
militares da OTAN - a revelia das decisões ONU - pareciam indicar.
Em meio aos debates sobre a legitimidade da intervenção
internacional e o direito à autodeterminação dos povos (entendida usualmente
mais no sentido da soberania estatal), procuramos indicar também como o
discurso dominante nas instituições de Estado (ocidentais), nos Partidos e
meios de comunicação em geral, movia uma campanha que estereotipava a luta dos
grupos étnicos e os conflitos em que estes estavam envolvidos. Propusemos
criticar tanto a intervenção da OTAN quanto à omissão quanto aos massacres de
populações civis e a prática da limpeza étnica, sugerindo como alternativa a
necessidade de uma intervenção internacionalista a partir dos movimentos
populares com a crítica dos projetos estatizantes de muitos dos grupos étnicos
(que queriam formar Estados) e ao próprio Estado enquanto instituição.
Este texto pecou teoricamente em alguns momentos por ter
tratado a relação entre ideologias (étnicas e religiosas) e geopolítica de uma
maneira muito dura, privilegiando a primeira em relação à segunda, o que para
nós hoje é um equívoco. Pecou também por não encontrar um conceito mais
adequado (na época usamos “afetividade hierarquizada”) para designar um fato
importante que demonstrou através de números: as mortes de pessoas em conflitos
na “África Negra” e no “terceiro mundo” pesam menos diante da “opinião pública”
do que as ocorridas na Europa (hoje o conceito “racismo” aparece diante de
nossos olhos como óbvio).
Estamos retomando as formulações deste texto porque ele
parece conter questões importantes, ainda mais depois dos ataques ao World Trade Center
em 11 de Setembro de 2001. Mas do que nunca, a discussão acerca da relação
entre ações multilaterais (do tipo da ONU) e unilaterais (como os ataques dos EUA
ao Afeganistão), por um lado, e por outro, racismo e direito à autodeterminação
(étnica ou nacional), são fundamentais. Isto porque o
maquinário ideológico produtor de estereótipos e aniquilador
da memória está de novo em ação.
A efemeridade do discurso da “multilaterateralidade”
ficou demonstrada, assim como a sua vulnerabilidade diante do poder dos
Impérios. A Polícia Global, seja com as insígnias da OTAN ou dos EUA, continua
a agir; parece que os interesses norte-americanos prevalecem, seja através das
agências multilaterais ou por cima delas. A “nova cruzada contra o Oriente”
revela ainda mais duas verdades: 1º a escalada mundial do racismo (contra os
não brancos), do militarismo e do imperialismo (que sempre andaram juntos); 2º
a relação íntima existente entre o “despotismo oriental” (movimentos étnicos
autoritários locais) e as elites político-econômicas
do Ocidente (o caso mais evidente é do Governo terrorista do Talibã, apoiado até pouco tempo atrás pelos EUA).
Nos parece que a proposta que sustentamos na ocasião da
guerra de Kosovo (de interpretação e ação) ainda hoje
se mantém válida. Por um lado, as relações internacionais, ao contrário do que
muitos estão dizendo, não estão entrando numa “nova era”, pois não chegou a
superar “velha era” por completo: a das ações imperialistas unilaterais. Por
outro, os movimentos étnicos não podem ser entendidos a partir dos estereótipos
da mídia (através de categorias como “homens das cavernas” e “terroristas”),
nem defendidos de maneira acrítica, pois o conteúdo
das propostas de alguns (estatista, fundamentalista e
autoritária, como no caso do Talibã e de diversos
outros) muitas vezes se espelha nos modelos capitalistas ocidentais e são por
eles sustentados. Mas nem por isso devemos endossar o fetiche do Estado. A
melhor alternativa continua sendo não o Estado ou as agências multilaterais
(reféns dos Impérios), mas sim a articulação política dos oprimidos numa luta
contra ambas as forças igualmente autoritárias e desumanas. Nós não temos respostas
prontas, mas podemos levantar o maior número de questões e respostas possíveis,
para melhor entender o mundo. Melhor entendendo, poderemos melhor agir para transforma-lo. Mas é certo
que somente o Povo Organizado pode se opor às tiranias estatais e a ação
criminosa da “Polícia Global”.